quarta-feira, 9 de julho de 2014

Madri: três museus que valem a viagem

Eu deliro com a arquitetura do Centro de Artes Reina Sophia
Post atualizado em março de 2017

Madri é daquelas cidades que deixam minha alma saltitante só por estar lá — se eu fosse mística, eu diria que tive duas encarnações maravilhosas, uma lá, outra em Berlim. Eu bem que me contentaria em ficar andando à toa pela capital espanhola, sintonizando a vibração que vem até das ruas mais desertas.

Mas mesmo que não rolasse essa mágica, bastariam os três grandes museus madrilenhos para justificar a viagem até lá. O Museu do Prado, o Thyssen-Bornemizsa e o Centro de Artes Reina Sofia, sozinhos, já fariam de Madri uma cidade espetacular.



Na minha última passagem por lá, em janeiro, só deu tempo de ir ao Reina Sofia (fiquei só dois dias na cidade), cuja arquitetura, pra mim, é a mais espetacular das embalagens para as maravilhas que abriga. Adoro a modernidade rasgada do Edifício Nouvel, a ala nova, onde a profusão de imensas vidraças reflete e dialoga com as linhas quase soturnas do velho hospital do século 19, o Edifício Sabatini, onde está instalada uma parte das coleções.

A arquitetura do Reina Sofia é tão fantástica que sempre cometo umas fotos, digamos, artísticas (risos). À direita, a caixa de vidro do elevador 
Se a embalagem é um escândalo, o “recheio” é de matar de paixão. O acervo do Reina Sofia é uma declaração de amor ao Século 20. O cartão de visitas, no pátio de entrada, é logo uma escultura de Roy Lichtenstein, A Pincelada (que, dependendo do ângulo, eu acho a cara do Bip Bip, do desenho animado).

A Pincelada, de Roy Lichtenstein...
... e o móbile de Calder

A farra continua com o gigantesco mobile de Alexander Calder, em um jardim interno, e explode nos 27 metros quadrados mais viscerais da história das artes visuais, a Guernica, de Picasso — só ela já seria motivo suficiente para se atravessar o Atlântico ou até a galáxia.


Biblioteca do Reina Sofia
Mas ir ao Reina Sofia só para ver a Guernica é um pecado. Em uma salinha bem ao lado do imenso hall onde está exposta a tela de Picasso, por exemplo, ficam seis pequenos tesouros de Joaquín Torres-Garcia (que os leitores assíduos já devem estar carecas de saber que é um dos meus artistas preferidos). Podia parar por aí, mas a gente perde a conta das obras de Juan Gris, Picasso, DaliMiró e Tápies — só para citar os espanhóis.

Catálogo do acervo de fotos de Robert Capa do Reina Sofia
O pátio de entrada do museu,
visto do terraço do quarto andar do Edifício Nouvel
Outra coisa fantástica no Reina Sofia é a coleção de fotos, entre elas um grande acervo de Robert Capa, que com suas imagens talvez tenha se tornado o maior cronista da Guerra Civil Espanhola (e olha que ele tinha a concorrência de textos como os de André Malraux e Ernest Hemingway). Na minha primeira visita a Madri, comprei na livraria do museu um livro/coletânea de Capa que é simplesmente um dos meus bens mais preciosos.

750 metros separam o Reina Sofia do Museu do Prado, uma caminhada deliciosa pelo Paseo del Prado
A entrada do museu, na lateral do edifício

Já o Museu do Prado, pra mim, só perde para o Louvre na categoria museusão blockbuster, aquelas instituições com acervo enorme e que viram obrigação para qualquer viajante.

Mas o Prado é um blockbuster simpático. Como seu correspondente parisiense, tem um acervo que compensa com sobras todo o sofrimento das filas e o enxame de visitantes. Já fiquei duas horas na chuva, morrendo de frio, na fila da bilheteria. E sempre achei que cada perrengue vale a pena.

O Museu do Prado. À direita, a estátua do pintor Diego Velázquez, em frente à fachada principal do edifício
Felizmente, agora é possível comprar ingressos para o Prado com antecedência, o que poupa essa agonia.

Se fosse um museu só com pintores espanhóis, o Prado já seria deslumbrante. Mas além de Goya, Murillo, Navarrete, Velázquez, Zurbarán, Sorolla e El Greco, ainda tem alemães, italianos, flamengos, holandeses, franceses e britânicos.

Você sai do elevador, no primeiro andar, e dá de cara com O Banquete de Herodes e a Decapitação de S. João Batista, de
Bartholomäus Strobel, uma alegoria sobre a frivolidade cortesã. A partir daqui, é preciso guardar a câmera fotográfica, pois é proibido fazer imagens do acervo
Não é permitido fotografar o acervo do Museu do Prado, mas algumas telas expostas lá são tão maravilhosas que simplesmente ficaram impressas, nos mínimos detalhes, na minha memória.

Um exemplo é a obra As Meninas, de Velázquez, e a série de Goya sobre o Levante de Madri contra as tropas napoleônicas, em 1808 (os Fuzilamentos do 3 de Maio, por exemplo). É um museu para se passar o dia inteiro, vendo tudo com muita calma, fazendo pausas periódicas para “limpar” o olhar. Uma visita essencial.

A Igreja de San Jerónimo el Real pertencia a um dos mosteiros mais importantes de Madrid. Seu claustro foi integrado ao museu
Por fim, o terceiro museu que adoro em Madri é o Thyssen-Bornemizsa, que reúne um acervo que cobre desde a Idade Média (Século 13) aos Modernos (Século 20). É uma senhora pinacoteca que engana o visitante: na primeira vez que fui lá, no meio de uma tarde de inverno, olhei a fachada do edifício, no Paseo del Prado, achei que bastariam duas horas para ver as coleções. Ledo engano: tive que voltar no dia seguinte.

A exposição de Dürer e Cranach no Thyssen
Em janeiro de 2008, vi uma exposição temporária maravilhosa no Thyssen, mostra comparada de trabalhos de Dürer e Cranach, quase toda montada com acervo da casa.

Dizem que os Ibéricos vivem da nostalgia de seus impérios perdidos. No Século 17, Madri era um dos centros do mundo, comandando uma vastidão de territórios. Para mim, hoje, bastam três museus para provar que não é preciso ser a capital de um império colonial para ser uma cidade simplesmente espetacular.

Centro de Artes Reina Sofia
Informações Práticas

Centro de Artes Reina Sofia - Calle Santa Isabel nº 52, em frente à Estação de Atocha. Fecha às terças. Às segundas e de quarta a sábado, das 10 às 21h. Aos domingos, das 10h às 19. A entrada custa € 8. Além dos Edifícios Sabatini e Nouvel, o museu tem duas instalações no Parque do Retiro, o Palácio de Velázquez e o Palácio de Cristal, dedicados a exposições temporárias.

Museu Nacional do Prado – Bilheteria: Calle Ruiz de Alarcón nº 23, na parte de trás do museu (que fica no Paseo del Prado). Diariamente, das 10h às 20h (aos domingos e feriados, fecha uma hora mais cedo). Entrada € 14.

Uma dica: Patrícia Camargo, do Blog Turomaquia, tem uma guia bárbaro do Museu do Prado, que você pode comprar e baixar no tablet ou smartphone. É um jeito de compreender mais sobre as obras, o contexto histórico em que foram criadas e sua importância artística.

Museu Thyssen-BornemizsaPalácio de Villahermosa, Paseo del Prado nº 8. De terça a domingo, das 10h às 19h. Entrada € 10. Às segundas-feiras, tem visitação gratuita das 12h às 16.

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6 comentários:

  1. Eu AMEI o Thyssen-Bornemizsa!! Tudo bem que fui influenciada pelas aulas de História da Arte que tinha acabado de ter na faculdade (e portanto, lembrava de tudo direitinho), mas o que mais gostei foi da surpresa! Não esperava um museu tão bom e grande, com uma surpresa de quadro conhecido e/ou interessante a cada passo! Sabe aquela história de a cada sala que vc entra, vc reconhece pelo menos 1 quadro? Aconteceu isso comigo lá e eu fiquei encantada! Só visitei na minha 2a vez na cidade e o Reina Sofía (que confesso que não fiquei fã) só na 1a. Já o Prado, fiz questão de ir nas 2 vezes que estive em Madri.

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    1. Acho que museus também têm essa coisa de "bater com o nosso santo" ou não, Fernanda. Tem alguns, muito badalados, com os quais não consigo simpatizar muito. Já falei várias vezes aqui no blog que acho o acervo do Louvre um espetáculo (e faço questão de passar por lá *sempre* que estou em Paris), mas não curto muito a enormidade do museu, a multidão e o barulho (parece que toda vez que vou lá, sou seguida de perto por alguma excursão garagalhante, galera que preferia mil vezes estar em outro lugar e mata o tempo falando alto, rsss). Esses três museus de Madri conseguem ser espetaculares sem serem opressivos. E o Reina Sofia, meu favorito, conjuga acervo com arquitetura de um jeito raro. Dê uma nova chance pra ele :)

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    2. O problema é que não vou voltar a Madri tão cedo! (infelizmente) Visitei o Reina Sofia muito nova, nas férias entre o colegial e a faculdade e se até hoje não sou fã de artes mais modernas, naquela época então! rs

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  2. É engraçado, sempre digo que não curti Madrid e por isso não tenho histórias ni blog. Mas lendo sobre os museus e relembrando através de suas imagens, lembrei que foram passeios encantadores! Como a Fernanda, preciso dar uma segunda chance para o Reina Sofia e, acredito, para a própria cidade!! BjO

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    1. Paula, eu acho que Madri perde sempre na comparação com Barcelona (e eu não me conformo com isso, rsss). Talvez meu primeiro encontro com a capital espanhola, com o altíssimo astral do fim do ano, tenha criado essa alegria que eu sinto, sempre que passo por lá. Adoro tudo na cidade. Acho que você ia curtir essa segunda chance, sim :)

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    2. ah, vc tem que voltar pra Madri! Não me conformo que ainda não conheço Barcelona. A expectativa tá super alta, ainda mais com tanta gente que prefere Barcelona a Madri... Se eu já amei Madri, imagina Barcelona. Mas entendo que realmente BCN tem mais a ver com o que brasileiros gostam (praia, festas, cores, etc) e aí acabam não curtindo Madri, mesmo pq a maioria não curte museus... E muitos com viagens apertadas nem visitam a capital pq BCN já tem a fama de ser sensacional e Madri ser + séria... E a fama de BCN cresce sempre mais e a coitada Madri vai ficando pra trás hehehe Eu fui a 1a vez rapidinho mas gostei de verdade da cidade só na 2a vez 4 anos depois que fiquei uma semana na casa de um amigo - aí é outra história, né? Paula, pelo que leio nos seus posts, vc tem tudo para gostar de Madri - acho que é uma cidade pra quem vai com calma - na correria, acaba ficando ofuscada por BCN!

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