domingo, 1 de junho de 2014

Nó na garganta:
A Casa de Garcia Lorca, em Granada

A casa de veraneio da família Lorca, na Huerta de San Vicente
Granada resplandece de tesouros mouriscos, mudéjares, renascentistas e barrocos, mas nem tudo é luz na “cidade de sonho e lua cheia”. Todos os lugares do mundo têm histórias tristes, Granada há de ter milhares delas, mas a mais famosa envolve justamente o autor desse verso, Federico García Lorca, assassinado por um comando de direita um mês após o golpe franquista contra a República e o início da Guerra Civil Espanhola, em 1936.

A poesia de Lorca embalou minha adolescência e foi impossível andar por Granada, cidade natal do poeta, sem lembrar seus versos, sempre tão marcados pela paixão andaluza. E já que adoro uma jornada sentimental, fiquei profundamente comovida com a visita à Casa Museu Garcia Lorca, a antiga casa de veraneio da família, na Huerta (algo como “chácara”) de San Vicente
A antiga área de cultivo da chácara é hoje um agradável parque público, bem próximo ao centro da cidade
Pouco mudou na casa — o  coração da propriedade rural, hoje convertida em parque público — desde que a família a abandonou e seguiu para o exílio, após o assassinato do poeta. Estão lá os móveis, utensílios, quadros (muitos pintados por Lorca) e documentos, compondo uma cena pacata, aconchegante e desprovida de tragédia ou espetáculo. Ela evoca uma família em torno da mesa, conversas no alpendre e sossego. Nada parecido com a fúria que se sucedeu ao levante direitista e a voragem da guerra. 

Estátua de Lorca em frente ao Teatro Español, em Madri
A visita ao Museu Casa de Garcia Lorca é um programa melancólico, mas imperdível. Mesmo que você não seja uma apaixonada pelo poeta, vale a pena. É um jeito quase lírico de descobrir um pouco mais sobre a história recente da Espanha e as relações sociais na Andaluzia do início do século passado.

Para isso muito contribui a guia que acompanha os visitantes pelo interior da casa. Ela conta histórias, descreve climas e não disfarça seu encanto pela obra de Lorca, enquanto leva os visitantes pelo cenário de um cotidiano familiar. Deixa um nó na garganta, mas o astral é bom: sensação de encontro e sossego.

Jardim da Faculdade de Direito da Universidade de Granada,
onde Lorca estudou entre 1914 e 1919
Lorca nasceu em Granada e viveu na cidade até 1919, época em que um rapaz de 21 anos haveria mesmo de querer os ares mais arejados de Madri. Deixou a Faculdade de Direito local e foi continuar os estudos na capital, onde tornou-se amigo do pintor Salvador Dali, do cineasta Luis Buñuel e do compositor Manuel de Falla.

Mas a Andaluzia — essa terra “que sofre paixões gigantescas e cala”, como disse em um poema — sempre andou com ele e foi personagem constante de sua obra lírica e teatral (como as famosas peças Bodas de SangueYerma e A Casa de Bernarda Alba).O poeta era simpatizante da esquerda e jamais ocultou sua condição de homossexual o suficiente, o que bastava para despertar o ódio furioso na Espanha conservadora do início do Século 20.


Mesmo assim — e apesar da adesão praticamente imediata da Andaluzia ao golpe de Franco contra a República — ele se sentia seguro em Granada, onde tinha amigos próximos em todas as correntes políticas, inclusive da Falange, grupamento fascista.

E foi na casa de um amigo falangista, Luis Rosales, que Lorca se abrigou, após a prisão e fuzilamento de seu cunhado. De lá ele foi arrancado por seus captores, para ser fuzilado, horas depois. “E no meio de um caminho/ sob a ramada de um olmo/ guarda civil caminheiro/ grudado a si o levou”. (trecho de Captura de Antonito, o Cambório, na Estrada de Sevilha).

Duas fases da vida e o mesmo olhar
Nesta noite turva/ está louca a lua”, cantou Lorca em um poema de 1919. Ele foi assassinado na noite de 17 de agosto de 1936, a primeira do quarto crescente, como aponta o calendário lunar (o mesmo quarto crescente que me acompanhou em Granada..). Não sei se a lua estava louca na noite em que mataram Lorca. Mas o céu, com certeza, estava muito escuro.

Nos fundos da casa ficavam as dependências dos empregados. Foram eles que cuidaram da propriedade quando a família
 partiu para o exílio, e mantiveram a casa intacta
Casa Museo Federico Garcia Lorca
Calle Virgen Blanca, s/n, Parque Federico García Lorca, Granada

O melhor ponto de referência é a Calle Arabial, o limite Norte do parque (o limite Sul é a Autovia de Circuvalación). Eu fui até lá caminhando, desde o Centro, e é um trajeto bem rápido — Granada é curiosa: você vem andando por ruas centrais e movimentadas e, de repente, pufff, a cidade acaba.

Se você estiver na área da Catedral, desça a Calle Reyes Católicos, que vai virar Calle Recogidas, depois do cruzamento com a Acera del Darro, e continue descendo até a Calle Arrabial. Vire à direita e pegue a entrada do parque, do outro lado da avenida, quase em frente à Calle Tucumán.

O museu funciona de terça a domingo e permite apenas visitas guiadas, a cada meia hora, para grupos de no máximo 15 pessoas. No inverno, das 9:15 às 14:15 e das 16h às 19h. Na meia estação, o horário da tarde começa apenas às 17 horas. No verão, só são realizadas visitas no turno da manhã, até às 14:15h. A entrada custa €3, mas é gratuita às quartas-feiras e nos feriados. Antes de ir, consulte o site para saber se ainda há ingressos disponíveis.


Pátio da Faculdade de Direito de Granada, um antigo colégio dos Jesuítas. Lorca estudou aqui
Para ver mais cenários ligados à história de Garcia Lorca em Granada, visite a Faculdade de Direito, onde ele iniciou os estudos em 1914. Ela está a cerca de 2 km do museu. Saiba mais neste post:
Quer ver lindezas de graça? Vá à Universidade de Granada

O Parque García Lorca

No calor do verão, deve ser uma delícia aproveitar essa área verde tão próxima do Centro de Granada. Foi inaugurado nos anos 80, preservando os 70 mil metros quadrados da antiga propriedade de veraneio da família do poeta, hoje dotados de parque infantil, mesas para piquenique, bar e sanitários. Abre todos os dias às 8h. Fecha às 20h, no inverno, às 22h, na meia estação, e à 1h da madrugada no verão.

Índice da Fragata: museus e sítios arqueológicos

A Espanha na Fragata Surprise - post-índice


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