segunda-feira, 30 de junho de 2014

O prazer dos beliscos: sabores da Andaluzia


Taberna na Carrera del Darro, em Granada 
(se você reparar bem, a foto é uma selfie, rsss)
As melhores memórias que o meu paladar trouxe da Andaluzia, depois de 20 dias batendo pernas por lá, foram as refeições desfrutadas em mesinhas meio bambas, em bancos de praça ou em frente a um balcão. Provei divinos e inesquecíveis beliscos — que é como eu chamo aquelas degustações despretensiosas, que não são almoço, nem jantar, mas simples respostas ao desejo que pinta de repente, geralmente provocado pelo olfato ou pela visão de alguma coisa apetitosa, sem condicionamento de horário, fome ou intenção.

Beliscar é diferente de ir de tapas (aquelas saidinhas espanholas destinadas a provar diversas porções) exatamente porque não é planejado. E se aplica aos sólidos e aos líquidos (minha aventura com a Becherovka, em Dresden, que o diga). E foi de belisco em belisco que eu fiz a festa na Andaluzia, uma terra que parece ser o paraíso para essa prática.

Pequenos grandes momentos:
berinjelas fritas com melaço, na Judería de Córdoba,
pão com tomate com vista para a Alhambra, em Granada,
café com marrom glacê, em Triana (Sevilha)
e tortilhas de camarão, em Cádiz
Dos frutos do mar fritos de Cádiz aos salmorejos de qualquer hora, dos chocolates com churros às berinjelas com melaço, das gemas de Ronda às copitas de jerez,  comi e bebi divinamente, de um jeito especialmente anárquico até para os meus padrões — já contei aqui que uma das alegrias de viajar sozinha é poder almoçar duas vezes ou pular o jantar para provar sobremesas de três restaurantes diferentes, sem testemunhas que possam depor sobre meu estado mental. E não esqueçamos do rabo de toro, o prato mais forte e mais saboroso que provei na Andaluzia.

Barraquinhas, trailers, tabuleiros e carrocinhas me encantam infinitamente mais que restaurantes estrelados. Acho que essa informalidade está muito mais vocacionada a me proporcionar a “experiência antropológica” que eu busco por aí.

Esses bares em Córdoba (esquerda) e Ronda conseguem 
manter uma tremenda personalidade, 
mesmo cercados de atrações turísticas
Na Andaluzia, há uma tentação a mais: os bares e tabernas cheios de personalidade, com um tremendo astral de vizinhança, que conseguem resistir como baluartes da autenticidade, mesmo nas áreas mais turísticas, sempre com meia dúzia de frequentadores locais que reclamam da política entre dentes enquanto sorvem suas xícaras de café ou cálices de Domecq.

Não me entendam mal: eu gosto (adoro!) de bons restaurantes. E não só pela comida. Gosto de sentar, relaxar, de ser servida à mesa – e morro de saudade do tempo em que os garçons corriam pra acender meu cigarro, depois do café.

Bons momentos no famoso Balandro, em Cádiz: 
mil-folhas de vitela com confit de pato 
e sorvete de mandarina ao grand marnier
Só que a hora do restaurante é a hora que eu menos me sinto viajando, talvez porque os grandes restaurantes tendam a ser bem parecidos, em qualquer lugar do mundo. Mas não sou arredia, não. Em Cádiz, por exemplo, fiz questão de ir conhecer o elegante Balandro, recomendado por dez entre dez gaditanos, e não me arrependi.

Mas em Cádiz, o bom mesmo é escolher uma freiduria — típico estabelecimento especializado em frutos do mar fritinhos na hora — e se esbaldar nos camarões, chocos (primos das lulas, molusco marinho também chamado de sépia, de onde se extrai a tinta com essa cor) e outras delícias do mar. Um clássico gaditano é a Freiduria Las Flores, de ambiente simples, sempre lotado de locais e de turistas e que cobra preços camaradíssimos.

Dois clássicos andaluzes: os camarões e chocos 
da Freiduria Las Flores, em Cádiz, 
e as delícias da Yemas del Tajo, em Ronda
Foi lá a minha primeira refeição na cidade, que me deixou com o sincero desejo de não ir embora nunca mais. Outros momentos sublimes em Cádiz eu tive nos restaurantezinhos anônimos de La Viña, o antigo bairro dos pescadores, onde descobri a morena, um peixinho com zero de prestígio nas mesas mais requintadas, mas que fazem um tira-gosto delicioso, quando marinadas em adobo, molho à base de vinagre, pimentão e alho.

Dois lugares excelentes para petiscar e provar frutos do mar em Cádiz: o Mercado Central (à esquerda) e o antigo bairro de pescadores de La Viña, pródigo em restaurantes populares e boa comida 
Por falar em clássicos, como é sublime o chocolate com churros da Andaluzia! A combinação é boa em qualquer lugar do mundo, mas lá por aquelas bandas ela alcança a perfeição. Em Sevilha, virou lei para mim uma parada no trailer que fica estacionado na cabeceira da Ponte de Triana, no Paseo de Cristobal Colón, para minha dose diária de felicidade adocicada e quentinha.

O chocolate com churros da Ponte de Triana e a vitrine de uma padaria em La Viña, antigo bairro de pescadores, em Cádiz
Outro vício irrevogável eram os doces de convento comprados diariamente na lojinha montada no térreo do El Corte Inglés, na Plaza Duque. Ainda no capítulo açucarado, enlouqueci com os famosos doces de gema de Ronda servidos da tradicionalíssima Pasteleria las Campanas.

 Já em Cádiz, era impressionante: em todas as padarias que experimentei, encontrei deliciosos doces de gema, como os tocinos del cielo. Em Sevilha, gostei muito da Confeitaria Filella, especializada em pastéis de nata e que também serve ótimos docinhos de gema e marrom glacês (os que aparecem na foto deste post são de lá).

Hummmm, Salmorejo...
Tenho a maior admiração por quem consegue voltar de cada viagem com uma lista super organizada de dicas de restaurantes, com fotos de cada prato, nome e ingredientes. Não tenho essa disciplina. Minha curiosidade gustativa é muito mais lúdica. Além disso — traço inequívoco de baianidade — eu adoro comida de rua. Na Andaluzia, eu estava em casa.

O que comer na Andaluzia


Salmorejo – sopa típica de Córdoba, feita com tomate e pão dormido e bem temperada com alho, azeite e vinagre. Ela é bem encorpada e vem salpicada de ovo cozido e fatias de presunto cru (jamón). É servida fria, portanto, mais atraente para os meses de verão. Mas garanto pra você que ela também é irresistível no frio de janeiro.

Gazpacho - Outra famosa sopa fria andaluza (a receita mais célebre está em Mulheres à beira de um ataque de nervos, o hilário filme de Almodóvar), à base de tomate e pepino. Até eu, que odeio pepino, não vivo sem gazpacho...

Taberna no tradicional bairro de Santa Cruz, em Sevilha
Berinjelas com melaço - descobri esse prato em Córdoba, em um restaurante da porta de Almodóvar (Casa Rúbia, no nº 5), por insistência do simpático velhinho que é dono do lugar. Eu amo berinjela e achei bem interessante essa forma de preparo, com as bichinhas levemente empanadas e temperadas com o mel de cana de açúcar.

Tortilhas de camarão - outro pratinho perfeito para um momento de tapas. São preparadas com ovo batido, um pouquinho de batata e muito camarão. As que provei numa taberna bem caseirinha, na esquina do Oratório de San Felipe Néry, em Cádiz, estavam deliciosas.

Duas vezes polvo, em um bar de Santa Cruz, em Sevilha. 
Porque eu gosto e sou gulosa :)
Pão com tomate - essa combinação maravilhosa é típica da Catalunha, mas também é bem popular na Andaluzia. No meu hotel, em Sevilha, era um hit no café da manhã, mas o pãozinho mais gostoso em provei em um bar da Carrera del Darro, em Granada, olhando para a Alhambra.

Rabo de toro
Rabo de Toro - sim, é rabada. E é não faça essa cara fresca, porque é uma delícia. A cauda do touro é cozida longamente, com vinho e legumes, deixando a carne muito macia e o molho bem encorpado. No frio, é uma bênção. O prato mais inesquecível da Andaluzia.

Polvo (de todos os jeitos) - como você viu na foto lá no alto, eu chegava ao requinte de pedir dois tipos de polvo, na hora do tapeo.

Adoro esse bicho, que é preparado divinamente na Bahia, em Portugal, na Grécia e na Galícia. Há tempos eu me debatia com a dificuldade de descobrir qual dessas civilizações fazia o melhor polvo. Aí, vieram os andaluzes e bagunçaram tudo, pois o deles também é de rasgar a roupa...

Simples e perfeito: meu almoço de Ano Novo
 Langostinos al ajillo (camrões ao alho) - acho esse esse prato perfeito, pois deixa o sabor do camarão sobressair. É a coisa mais simples do mundo, com um toque de páprica e muito azeite. Provei uma porção deliciosa no meu almoço do dia 31 de dezembro, no Centrão de Sevilha, longe das principais atrações turísticas, quando votava a pé da visita à Casa de Pilatos. Foi num restaurante simples, chamado Café del Sol, que escolhi pela cara e onde encontrei algumas mesas de sevilhanos saindo do trabalho e já ensaiando a festa de Ano Novo.

Sevilha: a escondida Plaza del Cabildo guarda a tradicional El Torno, casa tradicional especializada em doces de convento
Doces conventuais - Sevilha é pródiga em conventos que produzem pequenas epifanias a partir de gemas, amêndoas e açúcar. A loja do El Corte Inglés da Plaza Duque montou um posto de venda dessa muitas maravilhas no período de Natal, Ano Novo e Reis (creio que é praxe anual), o que poupou o meu trabalho de bater na porta de cada convento da Cidade.

Os doces são bem parecidos com os portugueses e tão espetaculares quanto. Outro ponto tradicional para comprar doces conventuais em Sevilha é El Torno, uma loja na Plaza del Cabildo, perto da Catedral. Esta, infelizmente, estava fechada nos dias que passei na cidade.


Em Cádiz, a pausa para um café ou para um cálice de xerez fica mais gostosa nos belos cafés instalados em antigs casarões
Onde comer na Andaluzia

Balandro
Alameda Apodaca nº 22, Cádiz


O tradicional Balandro é vizinho do Paseo de Apodaca, ponto de encontro e de lazer da aristocracia gaditana desde o Século 17
O restaurante tem ambiente bem contemporâneo, cercado pela atmosfera tradicional da Alameda de Apodaca, o clássico passeio ajardinado sobre as muralhas onde as famílias ilustres da cidade faziam o footing, no Século desde o Século 17.

O atendimento é simpático e profissional e a comida estava muito gostosa. Pedi o mil-folhas de vitela com confit de pato e compota de maçã e, de sobremesa, o sorvete de mandarina (tangerina) ao grand marnier. Refeição super correta e a preços muito honestos (cerca de € 35, com bebidas).

Freiduría Las Flores 
Plaza de las Flores, Centro, Cádiz
É uma das visitas obrigatórias na cidade, em uma região cercada de atrações históricas. O ambiente é simples, com toalhas descartáveis nas mesas, guardanapos de papel e paliteiros de plástico. Vive lotada de gaditanos e turistas, loucos por suas porções pantagruélicas de mariscos fritos à moda da cidade, a preços inacreditáveis (gastei €15 em um banquete que dava para dois facinho). Imperdível.

Casa Rubio
Puerta de Almodóvar nº 5, Córdoba


A região da Porta de Almodóvar, nas muralhas de Córdoba, é cheia de restaurantezinhos simples. Bom lugar para uma pausa
Juro que parei aqui só para tomar uma taça de xerez e descansar um pouco, mas o dono era tão simpático e conversador que eu fui ficando, ouvindo as histórias do velhinho. Acabei pedindo as berinjelas com melaço pela curiosidade de provar um ingrediente tão nordestino em um prato andaluz. Gastei €10 e saí bem satisfeita.

El Balcón de San Nicolás
Calle Atarazana Vieja nº 4, Albaicín, Granada


El Balcón de San Nicolás, em Granada: fui só pela vista da Alhambra, mas a comida surpreendeu. A torta de amêndoas com framboesas (à direita) estava ótima
Juro que não esperava nada da comida, do ambiente ou do serviço deste restaurante, que tem uma vista simplesmente escandalosa para a Alhambra. Fui lá pela varanda, mesmo, mas me surpreendi com a qualidade do jantar, bem acima da expectativa.

Pedi Rabo de Toro e, de sobremesa, Torta de Amêndoa com Framboesa. O ambiente é bem gostoso, com sofás, poltronas em uma grande varanda envidraçada. A iluminação fica por conta de velas e abajures, para não atrapalhar a visão celestial da Alhambra iluminada diante do freguês. Jantar na casa dos €30.

Restaurante Hermanos Macías
Calle Pedro Romero nº 3, Ronda 


Hermanos Macias, em Ronda
Este restaurante tocado por uma família, fica no térreo de um casarão secular que também abriga um pequeno hotel, na transversal que começa bem em frente à Praça de Touros. Também escolhi pela cara e não poderia ter me dado melhor. O Rabo de Toro (divino) caiu como uma luva nos dois graus de temperatura da Noite de Reis. O vinho doce da casa, bem licoroso, substituiu muito bem a sobremesa.

Restaurante de la Morena
Calle Virgen de La Palma (quase esquina com Calle Paraguay), La Viña, Cádiz

La Morena, no antigo bairro de pescadores de Cádiz
Foi neste restaurante bem simplinho que provei as morenas ao adobo e e umas sardinhas a la plancha deliciosas. Bom lugar para uma paradinha sem compromisso. Prepare-se para gastar no máximo €10 no tapeio.

Café del Sol
Calle Álvarez Quintero, Centro, Sevilha, a cerca de 300 metros do Ayuntamiento

Café del Sol, em Sevilha
Foi neste lugarzinho simples e simpático que almocei os camarões escandalosos da foto lá no alto do post. Além de servir uma comidinha danada de gostosa, o lugar tem um super bom astral. Fica fora da área turística e é frequentado por sevilhanos que trabalham nas redondezas.

Confiteria Filella
Dois endereços em Sevilha: Calle San Jacinto 14, em Triana (logo depois da ponte) e na Avenida de la Constitución nº 2, bem pertinho do Ayuntamiento.

Café de la Prensa
Calle Betis nº 8, Triana, Sevilha
Para um cálice de xerês a ótimos preços (€2), WiFi grátis e um pouquinho de sossego, em um ambiente forrado de páginas de jornais e frequentado por moradores do tradicional bairro sevilhano.

A Andaluzia na Fragata Surprise
Cádi
Córdoba
Granada
Ronda
Sevilha


A Espanha na Fragata Surprise

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Um comentário:

  1. Olá
    Estava a procura de informação em portugués para um amigo brasileiro e encontrei seu blogue. Eu sou de Jerez, oficialmente Jerez de la Frontera, e morei em Sevilha durante os anos da Universidade. Dai só falar em algumas coisas:
    Pão com tomate, é muito popular em geral no mediterráneo. De facto, o café da manhã de pão com tomate e azeite virgen de oliva é conhecido como “desayuno andaluz” (café da manhã andaluz, fora de Andaluzia). Tem pãozinhos típicos andaluces: pão de telera, por exemplo, mas o mais famoso é o “mollete”, nomeadamente de Antequera, um municipio andaluz. O “mollete”, bem torradinho, com tomate triturado ou em rodelas, e azeite de oliva virgem (presunto ibérico é opcional) é uma delicia para começar o dia.
    Vi que não parou em Jerez, uma pena porque tivesse adorado a minha cidade. Cádiz pode ser mais turístico, mas acho que Jerez é mais auténtico. Sendo Dezembro, tivesse sido ótimo para voce conhecer as famosas zambombas, celebrações populares onde se mistura o flamenco e a gastronomía popular, com doces típicos de Natal (pestiños, amarguillos, alfajores, etc.). Além disso, tivesse gostado de conhecer os “tabancos”, lugares centenários, cheios de história, onde antiguamente vendiam vinho de Jerez mas também dava para os experimentar. Hoje em dia, a madeira e as paredes cheiram a história e pode experimentar vinhos diferentes. E do vinho, também deu para ter uma gastronomía bem andaluza que é feita com esse vinho ou que é acompanhado dele, como as diferentes comidas com grao de bico, no espaço entre Sevilha e Jerez (procure “berza jerezana”).
    Boas viagens pelo mundo :-)

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