sábado, 3 de maio de 2014

Cusco: Inti Raymi, a festa do Sol

A chegada do Inca é o ponto alto da festa
No Nordeste brasileiro, o 24 de Junho é dedicado às fogueiras de São João, tradição herdada dos portugueses, uma cristianização de celebrações ancestrais do Solstício de Verão. No nosso Hemisfério Sul, porém, a data marca o Solstício de Inverno, o dia mais curto do ano, data que para muitas das civilizações pré-colombianas era marcada por oferendas e homenagens ao sol.

Em Cusco, o Inti Raymi, ou Festa do Sol, foi uma das mais importantes celebrações para o povo Quéchua, momento em que Apu Punchao Inca, o Deus Sol, está no ponto mais distante da terra e precisa ser cativado e convencido a retornar a seus filhos, simbolizando o recomeço, o início de um novo ciclo.
Reprimida pela colonização espanhola, a celebração só foi retomada na década de 40 
Com a chegada dos espanhóis, no Século 16, a mesma intolerância religiosa que tentou destruir os templos do povo de Cusco extinguiu as celebrações de Inti Raymi, retomadas apenas no Século XX, a partir de um esforço apoiado por historiadores, arqueólogos e antropólogos e baseado no que sobreviveu da tradição oral sobre esse ritual.

E muita coisa sobreviveu, clandestinamente, na memória do povo Quéchua. Alguns relatos dos Séculos XVI e XVII também ajudam na reconstituição das celebrações do Inti Raymi.


A instituição do “Dia del Cusco”, em 1944, ressuscitou a Festa do Sol. Desde então, a comemoração cresce a cada ano, atraindo gente do mundo inteiro à antiga capital dos Incas. A cidade ferve nesses dias de junho: hotéis e pousadas lotados, ruas fechadas pelos desfiles cívicos e religiosos, multidões na rua.

Eu assisti as celebrações do Inti Raymi em 2003, na minha segunda viagem a Cusco, e gostei muito, principalmente por ver as tradições indígenas tão fortes, apesar dos 500 anos de massacre e europeização dos povos originais da América.

As danças e cânticos da cerimônia foram reconstituídos 
com base na tradição oral e em alguns relatos escritos 
dos Séculos 15 e 16
A festa do Inti Raymi é o ponto alto das celebrações do “Dia del Cusco”, data cívica que é um tributo ao orgulho quéchua, povo que não faz cerimônia para  chamar de invasão a “descoberta” da América — como está expresso na placa alusiva ao 12 de outubro de 1492, fixada em Hauqaypata (a Plaza de Armas).

O 24 de junho começa em Qorikancha, o Templo do Sol, que ressurgiu sob a Igreja de São Domingos, devastada pelo terremoto de 1954 — muitas das construções espanholas desabaram com o abalo, revelando as edificações incas que lhes serviram de alicerce.

Desfile no Centro de Cusco
Depois da cerimônia no Templo do Sol, há um grande desfile cívico que parte de Hauqaypata e reúne delegações de centenas de povoados da Cordilheira, cada grupo mais orgulhoso de suas vestimentas tradicionais. Eles cantam e dançam por toda a cidade. É um carnaval animado, movido a chicha (bebida feita de milho, oferecida ao Deus Sol), flautas e tambores.

O Qorikancha, Templo do Sol, foi transformado na Igreja de Santo Domingo. Um terremoto derrubou as reformas feitas pelos espanhóis, revelando as paredes incas, que resistiram ao abalo
O interior do Templo do Sol, na parte transformada em claustro da Igreja de São Domingos 
No meio da tarde, começam todos a subir a íngreme encosta pela calçada inca que leva ao Templo de Saqsaywamán. É lá, no alto de uma das montanhas que circundam a a cidade, que acontece a parte mais esperada da festa, a representação coreografada do Inti Raymi, a louvação ao Deus Sol.

O roteiro da apresentação tenta restabelecer o que teria sido o ritual, antes da chegada dos espanhóis. Nas arquibancadas, a maioria da platéia é de turistas, mas cerca de 100 mil pessoas cercam a antiga fortaleza, sentadas no chão, nas pequenas elevações em torno do local. É um espetáculo bonito, bem coreografado, num cenário maravilhoso — Saqsaywamán, sozinho, já é um espetáculo!

A esplanada do Templo de Saqsaywamán funciona 
como um imenso teatro para a celebração
Informações práticas 
Na época da festa, Cusco fica lotada, mas adorável
Se você estiver indo pela primeira vez a Cusco, reserve alguns dias depois do Inti Raymi para ver a cidade, pois monumentos imperdíveis como a Catedral e o Qorikancha terão a visitação limitada, em função dos preparativos para a festa.

A bandeira de Cusco tem 
as cores do arco-íris
E prepare-se para encontrar uma cidade com lotação máxima nos hotéis, filas nos melhores restaurantes, ruas fechadas ao tráfego de veículo (péssimo para quem recorre aos táxis para driblar a dificuldade de subir ladeiras na altitude) e preços bem mais altos que os da baixa estação. Mas a alegria da festa compensa.


Faça reservas com antecedência e tenha paciência com as filas (como eu disse acima, deixe para ver a cidade depois do Inti Raymi).

Para ver a festa em Saqsaywamán, é prudente comprar ingressos com antecedência, pois são apenas 3.800 lugares nas arquibancadas.

Em 2003, comprei as entradas logo que cheguei à cidade, três dias antes da cerimônia. Na época, os melhores lugares, bem pertinho do “palco”, custavam US$ 45, com direito a transporte de ida e volta em micro-ônibus. Mas os preços quase triplicaram, de lá para cá.

Atualização: As entradas para a cerimônia em Saqsaywamán são vendidas pela Emufec-Empresa Municipal de Festejos de Cusco. Os preços para 2014 ainda não foram divulgados.

A esplanada de Saqswayamán, vista do alto do templo. 
Do outro lado, a encosta que serve de arquibancada informal
No ano passado, os melhores ingressos custaram US$ 130 e os mais baratos US$ 90. Fique de olho no site e tente comprar ou fazer reserva assim que forem oferecidos os ingressos para este ano.

A alternativa é entrar em contato com as agências de turismo local e fechar com elas (aproveite e veja logo o tíquete para Machu Picchu).

Se você não quiser gastar essa grana, faça como o povo de Cusco: assista sentadinha na grama de uma das muitas elevações em torno do templo. É mais longe do palco, mas seguramente será uma experiência mais autêntica.

Saqswayamán
Diversas agências de turismo já estão oferecendo programas para o Inti Raymi. Há pacotes que incluem o aéreo a partir de Lima, com até cinco dias de hospedagem e outras excursões na área, a roteiros básicos de um dia inteiro, começando com as celebrações no Qorikancha e com ingresso incluído para o espetáculo em Saqswayamán.

A grande vantagem de ir com uma agência é não se preocupar com a chegada e a saída do templo, já que as empresas se encarregam de levar os turistas em vans e microônibus.

O sincretismo cusquenho em um cruzeiro no bairro de San Blás
 e o requinte de uma parede inca no Qorikancha
Se você resolver ir por conta própria, contrate um táxi com antecedência, pois vai ser difícil encontrar um, no meio da muvuca que vira o centro da cidade. Ou prepare as panturrilhas: dá para ir a pé para Saqswayamán, a apenas um quilômetro de distância da Plaza de Armas. Só lembre que a ida será feita ladeira acima, na altitude. A descida é mole, fiz mais de uma vez e sempre achei um passeio gostoso.

Se você ficou com vontade de assistir a festa de Inti Raymi, aproveite e dê uma olhada nos posts sobre as minhas três viagens ao Peru, para planejar algumas esticadas:

Puno e o Titicaca
A paisagem do altiplano, no caminho de Puno para Cusco
De Puno a Cusco: como é a viagem no ônibus turístico (e as cidades que visitamos no caminho)
Bate e volta: a visita ao sítio arqueológico de Pachacamac

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9 comentários:

  1. Sensacional, Cyntia.

    Nossos vizinhos festejando a vida em auto estilo, num ritual milenar.

    Um abraço!

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  2. sério que Quéchua é o DEUS do Sol??! Massa demais! Não sabia!!! Bela festa. Abraços.

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    1. Não, Marcos, Quéchua é o povo que nós chamamos de "incas". Na verdade, Inca é como se chamava o imperador deles, o título. O Deus Sol é Inti :)

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  3. Oi Cyntia!
    Queria tirar uma dúvida. Estou planejando ficar em Cusco de 19 a 24/6. Queria ver as manifestações culturais da festa do sol, mas nao pretendo comprar a apresentação principal. A festa do dia 24 dura o dia todo? Acha que se eu colocar meu voo para final da tarde vou perder muito? Nos dias que antecedem o 24 também tem festa na cidade?
    Obrigada

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    1. Oi, Renata, Cusco fica muito movimentada nos dias que antecedem o Inti Raymi e há vários eventos celebrando a data, mas o grande dia, mesmo, é o 24. Uma desvantagem de ver a cidade nos dias que antecedem a festa é que alguns lugares imperdíveis (como a Catedral e o Qorikancha) são fechados à visitação, para a preparação das cerimônias, mas não saberia lhe dizer qual a antecedência disso. Pode ser que chegando dia 19 você consiga visitá-los.
      Mesmo que você não compre o ingresso pra ver a celebração na arquibancada, vale a pena dar um pulo no Saqswayamán para ver a festa em uma das encostas que cercam o templo. Se você marcar a passagem para o final da tarde, não conseguirá fazer isso. Você não tem como ir embora de Cusco no dia seguinte?
      Só alerto para uma coisa: as passagens aéreas partindo de manhã cedo de Cusco costumam ser muito mais baratas que os bilhetes marcados para depois do meio dia. O motivo é que o aeroporto de Cusco dificilmente tinha teto para decolagens de manhã, por conta das nuvens.Quer dizer: você comprava o bilhete para logo cedo, acordava, corria pra o aeroporto e ficava lá, mofando. Isso pode ter mudado, com a instalação de novos aparelhos de controle de voo, mas nas três vezes que estive em Cusco (2002, 2003 e 2010), o aeroporto fechou de manhã :)

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  4. Voltar no dia 25/6 vai apertar o nosso roteiro, sobretudo considerando essas possibilidades de atraso, pois chegando em Lima já vamos viajar para Ica de onibus. Vi um voo da Lan que sai de la 24/6 18h45, então daria para ver a maior parte da festa. Dai dormiriamos em Lima e pegariamos o primeiro onibus para Ica no dia 25/6. Infelizmente, roteiro tem dessas coisas...

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    1. Bem, Renata, acho que você vai ver bastante movimento, mesmo não assistindo ao espetáculo do Inti Raymi. Aproveite Cusco, é um dos meus lugares favoritos no mundo. Bjo

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  5. Oi Cíntia, tudo bom? Adorei seus relatos! :) Vou para Lima no dia 13/06, chegarei bem tarde e volto no dia 26/06 às 23h. Vc acha que nesse período dá para fazer bem Lima-Cusco (MP, Festa do Sol no dia 24 e Vale Sagrado) e Puno (Lago Titicaca)? Vc sugere algo em especial? Saberia me dizer qual melhor itinerário? Grata! Abraços, Jalusa

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    1. Oi, Jalusa, 13 dias é um período bem bacana, para o roteiro que você quer fazer. Por conta da sua data de regresso ser tão próxima do retorno ao Brasil, o melhor é fazer Lima - Puno - Cusco/Machu Picchu - Lima

      Puno não tem aeroporto regular. Você teria que voar para Juliaca, que está a uma hora de distância.

      De Puno, tem o trem ou ônibus turístico, para chegar a Cusco.

      De Cusco a Machu Picchu, se você não for fazer a trilha inca, só tem o trem. Compre a entrada para MPicchu com antecedência, porque agora há limite de visitantes por dia.

      Os bilhetes para o Inti Raymi também precisam ser comprados com antecedência.

      Essa é uma viagem adorável. Aproveite muito :)

      abs

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