sexta-feira, 25 de abril de 2014

Uma road trip na Lapônia


Entrando em território da Finlândia, ou Suomi: 
abandone aqui toda  esperança de encontrar palavras cognatas!

As aventuras de meus amigos Patrick e Juliana pelos confins da Escandinávia fizeram o maior sucesso. Depois de contar aos leitores da Fragata como foi a visita ao Nordkapp (Noruega), esse novo guest post nos conta as peripécias do casal no "nortão" da Finlândia e pelas estradas da Suécia. Eu me diverti muito com o relato (e comecei a ter ideias sobre uma viagem pra lá). Aposto que você também vai curtir.

O Rumo da Finlândia

Allan Patrick


Bem, pessoal, a anfitriã e comandante da Fragata Surprise, Cyntia Campos, gostou do guestpost "Escandinávia: Um passeio no fim do mundo" e acatou a temerária sugestão deste marujo d'água doce para publicar um novo texto sobre essa insólita road trip escandinava.

(Ao mesmo tempo, ela me puxou a orelha por não ter enviado fotos suficientes para ilustrar as aventuras narradas. Vou tentar me redimir!)
Vamos retroceder uns dias em relação ao post anterior e mostrar como chegamos na Finlândia, cujo nortão, lembremos, cruzamos vindos da Suécia e com destino a Nordkapp.

Saímos de Umea (Suécia) e a primeira dificuldade foi encontrar hospedagem. O norte da Finlândia não é exatamente pródigo em opções de turismo, mas encontramos uma solução que ao fim acabou sendo a hospedagem mais barata da viagem: Levi, uma estação de esqui repleta de hotéis e pouco frequentada no verão, período da nossa viagem.
A tradução correta deveria ser: 
"Clientes do Booking, não se desesperem, liguem pra mim”
Chegamos a Levi - a estação de esqui onde nos hospedaríamos - e... susto! Nenhuma viva alma ou qualquer sinal de vida (nem uma lâmpada acessa) no local onde o GPS indicava ser o hotel da nossa reserva! Depois de alguns minutos de tensão, percebemos um cartaz na porta de entrada, com um número de telefone para o qual deveríamos ligar para pegar a chave do alojamento.
O que nos faz lembrar de outra dica importante: apesar dos valores astronômicos do roaming internacional, sempre desbloqueie seu celular em viagens internacionais. O pior que pode acontecer é você não usá-lo e não pagar nada por isso. Mas pode lhe salvar duma encrenca como essa, porque hoje em dia achar telefone público na Europa não é nada fácil.
Ligamos pro número no cartaz e depois de uma saudação incompreensível em finlandês e uma tentativa infrutífera da pessoa do outro lado de aparentemente falar em português, nos entendemos e ela explicou que o apartamento nº tal estava aberto e a chave estava lá dentro. Beleza, só que era apart-hotel e não havia café da manhã nem restaurante (e tudo estava fechado, lembram?).

Cognatas, onde os finlandeses esconderam vocês? (Ao menos no posto, a bandeirinha do Reino Unido ali no canto nos salvou).
O jeito foi fazer uma feirinha num supermercado, sofrendo pra conseguir comprar um litro de leite e/ou iogurte, porque há 50 variações de produto entre um extremo (leite) e outro (iogurte), todas com embalagens semelhantes e rótulos exclusivamente em finlandês (?!). Ao que parece, em todo lugar da Europa os produtos vêm com rótulo em 5 ou 6 línguas, menos na Finlândia (Murphy, seu sacana!). Não havia outros clientes a quem perguntar e o único funcionário do supermercado estava no caixa, bem longe.
Mais alguém de férias 
na Lapônia: o Aedes Aegypti 
(ou algum parente próximo)
Por fim, quando saímos do mercado de volta para o apart-hotel, no fim da tarde, tivemos um encontro com um personagem familiar, mas 10 em 10 brasileiros a quem narramos esta história não acreditam de jeito nenhum: uma esquadrilha de Aedes Aegypt. Só que, ao contrário do seu parente brasileiro, que fica ali, circulando solitariamente e procurando o momento certo pro ataque, veio em bando atacando furiosamente :).
No dia seguinte, depois do pernoite em Levi, tomamos o rumo de Nordkapp e demos carona a um mochileiro eslovaco muito simpático que estava escrevendo um livro sobre "Como viajar pela Escandinávia quase de graça". Fizemos amizade com ele no facebook e couchsurfing, mas parece que até o momento o livro ainda não saiu :)
Percebo que estou falando de uma road trip que desbrava os confins do continente europeu e não expliquei o básico: como abastecer o carro. Os viajantes mais descolados poderão rir, mas só até se depararem com uma bomba de combustíveis sueca.
Bomba de combustíveis em Uppsala (Suécia):
sem instruções em inglês
Lá estava a bomba, muda e impávida, mesmo após inserirmos o cartão de crédito ou pressionarmos todas as teclas. A tradução da mensagem na tela não ajudaria muito porque o aviso em sueco diz algo como "todas as bombas estão disponíveis e podem imprimir recibos". O único funcionário do posto estava ocupado e o jeito foi ficar ali flanando e aguardar a chegada de outro cliente pra pedir ajuda. Não lembro exatamente a solução, só recordo que o procedimento era o inverso de todos os outros postos que abastecemos durante a viagem (Lei de Murphy aplicada às férias!).
Outro detalhe relevante, principalmente pra quem está acostumado com os memes de facebook que reclamam do "alto" custo do combustível no Brasil: um litro de gasolina na Escandinávia varia entre R$ 5,40 e R$ 6,00 (abril/2014). Na Noruega, só o imposto federal é de R$ 2,10/l e, embora o país seja o sexto maior exportador de petróleo do mundo, em casa não dá colher de chá e vende o produto ao preço do mercado internacional.
Falei no post anterior sobre as dificuldades nas estradas do norte da Suécia? Pois é, vejam só as fotos, para terem uma ideia...
Na Suécia enfrentamos 30 km de, coff, coff, reparos na estrada

A faixa, apesar de desbotada, é descontínua.
Mas eu não recomendo ultrapassar, viu?
E nem aqui!
Apertem os cintos, a sinalização sumiu!
Em compensação, a imensa maioria dos motoristas respeita o limite de velocidade e a distância de segurança, formando "trenzinhos" na estrada.
Respeito aos limites de velocidade.
O guestposter adverte:
civilidade no trânsito aumenta a expectativa de vida
Além da civilidade no trânsito, eu tive uma saudável inveja das condições de vida na zona rural. Não em relação a nós, urbanóides, mas na comparação com o morador das regiões rurais do meu Rio Grande do Norte, submetido a um semi-feudalismo.
Sem luxo, mas com dignidade,
mesmo na mais longínqua zona rural da Suécia
E a vida vai seguindo, os quilômetros de estrada vão se sucedendo, até que nos deparamos com o Círculo Polar Ártico. A partir daqui, 24 horas de sol. E, no inverno, 24 horas de noite. Arrepiante, mas não pergunte aos moradores locais sobre "como é isso de viver três meses com o sol o tempo todo e três meses de noite", porque esse questionamento é considerado uma gafe e, no mínimo, demonstração de falta de tato (eu só descobri isso depois, quando voltei ao Brasil, portanto eu cometi uma vez essa indiscrição).
A partir daqui, 24 horas de sol
Minha sugestão: conheça a região

por meio de uma insider, Asa Larsson
Tem curiosidade em saber como é a vida por essas bandas? Eu sugiro ler as duas obras da autora Asa Larsson já publicadas no Brasil: Aurora Boreal e A Mancha de Sangue.
São romances policiais com personagens femininas fortes e cativantes. Larsson foi criada na região, no âmbito de uma família ligada ao laestadianismo (um movimentos religioso conservador com todos aqueles defeitos que nós conhecemos). Virou uma advogada tributarista e feminista que deixou a defesa de almofadinhas encrencados com o fisco pra viver de literatura.
Só um aviso aos fãs de romances policiais: Asa não tem qualquer parentesco com Stieg Larsson e seus estilos são muito diferentes.
E como acontecem! (Noruega)
Gente, não repare se estou sendo repetitivo, mas o pior erro que um brasileiro pode cometer viajando ao exterior é o de desligar o desconfiômetro e entrar no modo "isso aqui é primeiro mundo e não tenho com o que me preocupar". 
Eu falei das estradas suecas, mas seria injusto não mostrar que na Noruega também há precariedade na sinalização. Por isso que, se estou falando em road trip, nunca é demais chamar a atenção para as estradas, porque acidentes acontecem- e como acontecem!
Mas tem o lado fofo, né? Porque de trem, avião ou ônibus você nunca vai ver uma rena de pertinho. Minha profunda admiração a quem faz esse trajeto a pé ou de bicicleta, vimos dezenas de turistas nesse esquema durante a viagem.
É verão na Lapônia e Papai Noel liberou a turma de férias
Enfim, cruzamos a fronteira da Suécia com a Finlândia na altura das cidades de Pajala (Suécia) e Kolari (Finlândia).
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