quarta-feira, 16 de abril de 2014

Escandinávia: um passeio no fim do mundo


Nordkapp, Noruega:
dois mil quilômetros mar adentro, o Pólo Norte

Meus amigos Patrick e Juliana passaram 15 dias rodando as estradas da Escandinávia e descobrindo um pouco da história da região, como a epopeia do povo Sami (também chamados Lapões) na busca pelo reconhecimento de suas tradições e identidades. Eu adorei o relato de Patrick e tenho certeza que os leitores da Fragata também vão curtir.

Um passeio no fim do mundo
Allan Patrick 
“Há dois anos, eu e esposa fizemos uma road trip pela Península Escandinava e, embora sempre tenhamos tido o desejo de escrever sobre essa experiência, faltava encontrar o local adequado, que veio a ser A Fragata Surprise.
Uma road trip pela Escandinávia que se preze não pode deixar de incluir no seu trajeto o Nordkapp (cabo do norte"), um dos pontos geográficos mais ao norte do continente europeu - certamente o mais setentrional que pode ser alcançado dirigindo um carro. Para ter uma ideia de como essa latitude é extrema, pense em Ushuaia, nos confins do sul da Argentina. A partir de lá, avance mais 1.800 km ao sul. O resultado vai ser bem adentro da península Antártica, num ponto mais meridional do que a Baía de Dorian, onde Amyr Klink ancorou, na sua aventura no inverno antártico de 1989.


Graças à corrente do Golfo do México, porém, as temperaturas no Hemisfério Norte 
são muito, mas muito mais amenas que nas cercanias do Polo Sul.

Viajamos em julho de 2012, bem no meio do verão, com as temperaturas variando entre os 10ºC e os 25ºC. Em Nordkaap, porém, enfrentamos zero grau, pois fomos lá para ver o sol da meia noite. Como o tempo estava muito encoberto, tudo o que conseguimos ver foi o nublado da meia noite :)

No verão, não há risco de encontrar neve na estrada para o Nordkapp, mas há animais na pista (renas &cia) e - sinto quebrar o encanto - a estrada não se encaixa no padrão dos sonhos do motorista brasileiro para o "primeiro mundo". Embora quase não haja buracos, raramente há acostamento e ela tem um jeitão de estrada vicinal. Aliás, essa qualificação serve pra descrever 70% da E6, a principal rodovia que liga a Noruega de norte a sul. Mas um ponto importante a favor dos noruegueses é que boa parte das cargas se deslocam de trem (cuja linha frequentemente corre ao lado da E6), então, há poucos caminhões na pista, se compararmos com a realidade brasileira.

Museu de Alta, na Noruega
 Aliás, sobre as estradas, é preciso dizer que elas são muito bem conservadas no terço sul da Península Escandinava, onde se concentra a maior parte da população. Ao norte, porém, a situação se deteriora consideravelmente. Os buracos são raros, como já disse, mas dificilmente as estradas têm acostamento e a sinalização horizontal vai de mal a pior e muitas vezes é inexistente.
Em particular, no interiorzão da Suécia, quando há sinalização horizontal, ao invés de faixa contínua para indicar que não é permitido ultrapassar, há uma mudança no espaçamento da faixa tracejada, o que pode prejudicar o condutor um pouco mais distraído. No aspecto positivo, os condutores locais respeitam rigorosamente a velocidade máxima permitida, que é de 80km/h nos melhores trechos. Há ainda vários radares fixos na estrada, principalmente na Suécia, que os aparelhos de GPS costumam alertar.
O melhor lugar pra se hospedar quando se vai a Nordkapp, em termos de custo benefício, é em Honningsvåg, a cidade mais próxima, a uns 30km de distância. Ficamos hospedados em um hostel, o Nordkapp Vandrerhjem. As instalações são ótimas e o staff muito atencioso. Talvez o brasileiro menos experiente em viagens internacionais estranhe, porque todos os quartos partilham um banheiro coletivo. Na cidade, os restaurantes oferecem opções de pratos com carne de baleia (não provamos!).
O Nordkapp tem estrutura completa para os turistas, com centro de visitantes, lanchonete, banheiros e até um mini-hotel (caro até pra realidade local) que dispõe de uma suíte com visão panorâmica, muito disputada por casais em lua de mel. A principal atração é o mirante, com vista para o mar. No local também funciona um museu, com informações sobre batalhas navais ocorridas na região durante a Segunda Guerra Mundial. E uma loja de souvenirs, claro. 
Inscrições rupestres em Alta
Detalhe das pinturas 
rupestres de Alta...
 Nossa viagem pelos países nórdicos começou em Copenhague, onde também fechamos a viagem. O projeto inicial era dividir um motorhome com um casal de brasileiros que vive na Dinamarca, mas eles mudaram de planos quando já estávamos com as passagens na mão.

Planejamos acampar, mas na primeira noite no camping descobrimos que a barraca que um amigo havia emprestado não era impermeável :(, daí passamos a nos alojar em hostels. Na ida, cruzamos a Suécia e o norte da Finlândia e na volta cruzamos a Noruega pela E6. Foram 15 dias de viagem e não deu tempo nem de olhar pra Oslo.
Para alugar o carro, os documentos necessários são passaporte e carteira de habilitação internacional (expedida por qualquer Detran no Brasil). Não sei dizer se é possível devolver em outra cidade. Se soubéssemos antecipadamente que os amigos brasileiros não poderiam viajar conosco, optaríamos por pousar em Estocolmo e retornar por Oslo.
 No aspecto anedotário, é curioso anotar que as principais rádios locais tocam sucessos internacionais dos anos 1980 - muito Michael Jackson! - e ocasionalmente alguma coisa atual. No momento da nossa viagem, 2012, Michel Teló estava em evidência e era muito divertido ouvi-lo uma ou duas vezes por dia no meio dessa programação sui generis. Ao entrarmos na Finlândia, a surpresa foi sermos recebidos por Gustavo Lima tocando Balada Boa numa rádio local.
... e suas contemporâneas, no Lajedo da Soledade,
no Rio Grande do Norte
Mas outra atração da região, Alta, pode não ter a mesma representatividade em termos de extremos geográficos, porém guarda uma história muito interessante, na qual podemos enxergar paralelos com a nossa realidade brasileira.
O que primeiro nos atraiu para Alta foram as inscrições rupestres, que pela datação histórica aproximada (de 500 até 4 mil anos AC) são mais ou menos contemporâneas das que podem ser encontradas no nosso estado (o Rio Grande do Norte), no Lajedo de Soledade (cuja datação varia entre 1 e 3 mil anos AC).
Mas o Museu de Alta, por trás do qual há uma trilha que leva a uma das principais rochas com inscrições rupestres, não se limita apenas a retratar tempos remotos. Ele aborda também a história e a cultura do povo Sami (também conhecidos como lapões), nativo da região, além de questões contemporâneas.
A barragem da hidrelétrica de Alta,
o centro da discórdia
 Pode parecer estranho para nós, acostumados a tratar a Europa como o Velho Continente, mas essa região da Noruega, denominada Finamarca, só veio a ser incorporada e "colonizada" pelos noruegueses já no final do século XVI, na virada para o século XVII, ou seja, mais de 100 anos depois da "descoberta" do Brasil. Isso não significa que aquela região estivesse "vazia", pois era habitada pelo povo Sami, que se dedicava à pesca no litoral e à pecuária de renas nas terras do interior. Hoje em dia, o seu lado "pescador" praticamente sumiu, pois ao longo do tempo suas principais áreas pesqueiras foram sendo tomadas pelos noruegueses.
Durante a Segunda Guerra Mundial, como toda a Noruega, a região foi ocupada por tropas da Alemanha Nazista que, ao fugirem da retomada aliada liderada pelos soviéticos, atearam fogo a praticamente todos os prédios e construções do local.
Uma típica família Sami no início do século XX.
Foto: Wikipédia.
 Atualmente, a população Sami constitui menos de 5% dos habitantes da área e seu território original se estende por zonas contíguas da Suécia, Finlândia e Rússia.
Nos anos 1970, o governo norueguês planejou a construção de uma hidroelétrica no Rio Alta, o que desatou uma grande controvérsia envolvendo ambientalistas, moradores locais, mas principalmente a população Sami. O projeto original inundaria uma tradicional povoação autóctone, praticamente extinguiria a pesca de salmão e dificultaria o acesso dos sami aos rebanhos de renas. Não passou desapercebida a hipocrisia do governo norueguês, que no exterior apoiava povos indígenas e em casa os destratava.
Depois de muita disputa, o projeto da hidroelétrica acabou sendo alterado para o modelo a fio d'água (como aconteceu com Belo Monte).

Membros do Parlamento Sami da legislatura 2013/2017
Embora os Sami tenham perdido essa batalha, no longo prazo esse episódio é visto como o despertar contemporâneo do seu povo, que levou a várias vitórias políticas.
Em 1989, foi criado o parlamento autóctone, com atribuições crescentes ao longo do tempo. E em 2005 veio a grande vitória, quando foi aprovada a Lei da Finamarca, que tornou públicas 95% das terras da região, sob o controle do Parlamento Sami. Ou seja, pra efeitos práticos, seria como imaginar um estado brasileiro com uma reserva indígena de 95% de sua área.
Muita história pra uma região que no nosso imaginário só comporta gelo, neve, auroras boreais e o sol da meia noite.
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2 comentários:

  1. Adorei! Mas tb sou suspeita, eu AMO qq coisa que tenha a ver com Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia! rs Já fiz intercâmbio por lá, já foram várias viagens para a região no verão e no inverno mas não cheguei até o norte da Noruega não...

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    Respostas
    1. E eu ando louca pra ir pra lá, Fernanda... Bj

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