quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Paraná:
Tropeiros, rebeldes e colonos

Típica igreja da comunidade ucraniana, dedicada a Nossa Senhora do Salete, na área rural de União da Vitória
Visitar o interior do Paraná é também descobrir uma História do Brasil que passa longe dos livros escolares e da memória do resto do País. No último 22 de outubro, por exemplo, Paraná e Santa Catarina relembraram os 101 anos da eclosão da Guerra do Contestado, mais um daqueles episódios que contribuíram de maneira decisiva para traçar a identidade de uma região, mas que permanecem alijados da historiografia maisntream (como se as realidades regionais pertencessem não pertencessem ao Brasil).

Eu tinha ouvido falar muito pouco da Guerra do Contestado, um conflito entre trabalhadores rurais e latifundiários que, ao longo de quatro anos, teria causado a morte de oito mil pessoas, a maioria camponeses. Minha passagem pelas cidades da Lapa e de União da Vitória foram providenciais para que eu aprendesse um pouquinho mais sobre esse pedaço da nossa história.

O casario histórico da Lapa, do Século 19, a Igreja Matriz de Santo Antônio...
... e o Caminho das Tropas, antiga trilha de tropeiros
A Guerra do contestado também comprova que o Paraná — aquele estado que lembra o colega de classe “certinho”, de quem todo mundo inveja as boas notas, mas esquece de convidar para as festas — tem uma história muito mais movimentada e rica do que a gente imagina, como eu pude começar a descobrir numa presstrip* de cinco dias pelo interior do estado, na segunda semana de outubro.

Talvez o Paraná seja mesmo certinho, mas não falta conteúdo épico no processo de formação do estado, como o Contestado e a Revolução Federalista (1894). A começar pelas rotas de tropeiros, essa versão brasileira das grandes caravanas que cruzavam o Velho Mundo, desde a Antiguidade, e que para mim são uma das mais perfeitas traduções de aventura, desde que um sujeito chamado Marco Polo me arrastou pela Rota da Seda, quando eu ainda era bem pequena.


"Tropeiros" e "legalistas" encenam os momentos decisivos do cerco da Lapa, episódio da Revolução Federalista de 1894
A tradição tropeira do Paraná ainda é bem presente em cidades como a Lapa (boa opção de bate e volta a partir de Curitiba: só 50 km de distância) e União da Vitória, ambas fundadas no caminho das tropas que começaram a desbravar os Campos Gerais e o Vale do Rio Iguaçu no Século 18, percorrendo a rota que ligava Viamão, no Rio Grande, a Sorocaba (SP), conduzindo as valiosas mulas que iriam ser vendidas na cidade paulista e cujo destino final era o transporte do ouro nas Minas Gerais.

Lapa
Para padrões paranaenses, a Lapa é uma cidade antiga (pra quem é de Salvador, como eu, qualquer lugar fundado depois do Século 16 é um broto), com um belo casario do Século 19, onde se destacam o adorável Theatro São João, com galerias elisabetanas, e a Casa Lacerda.

O Theatro São João, na Lapa
Apresentação do Paraná Jazz Festival na Lapa, 2013
As galerias elisabetanas do teatro e uma apresentação do Paraná Jazz Festival, em cartaz na noite em que passei pela Lapa 
Passei apenas uma noite na cidade, mas o roteiro foi movimentado. Primeiro, assistimos a uma representação teatral do Cerco da Lapa, que recriou, nas ruas o episódio que é o maior orgulho local, pela brava resistência ao assédio das tropas federalistas, vindas do Rio Grande, no combate entre legalistas e rebeldes, em 1894.

Depois, ainda deu tempo de assistir a uma jam session do Paraná Jazz Festival, que estava rolando no Theatro São João. A noite foi encerrada com um jantar típico tropeiro delicioso, onde conheci a fantástica quirera lapeana (tem um post todinho sobre os sabores do Paraná aqui no blog).


Lamentei profundamente ter passado apenas uma noite na Lapa. Acho que teria adorado explorar seu patrimônio arquitetônico e o antigo Caminho das Tropas, hoje a rua principal da cidade, uma simpática alameda arborizada que faz as vezes de ciclovia e pista de caminhadas.

União da Vitória
Às margens do Rio Iguaçu, na divisa com Santa Catarina, União da Vitória é a síntese desse Paraná de tropeiros, rebeldes do Contestado e colonos europeus. Os imigrantes, principalmente ucranianos e poloneses, começaram a chegar à região no Século 19, estabelecendo colônias, encantando a paisagem com suas construções de madeira e contribuindo para fixar as bochechas rosadas como um dos estereótipos que nós, cá de fora, associamos ao estado.

Esta bela mata de xaxins esconde a Cachoeira Cintura de Noiva, em União da Vitória, uma área de lazer nos arredores da cidade

Este moinho foi desmontado peça por peça e remontado no Parque Histórico de Iguassu. Pertencia a uma colona polonesa
A cidade, com cerca de 50 mil habitantes, vem fazendo um grande esforço para resgatar essa memória e essa síntese. São iniciativas do poder público (a Prefeitura vem adquirindo os imóveis históricos ao longo da linha do trem, que corta a cidade, estopim da Guerra do Contestado e decisiva para o desenvolvimento da região) e de particulares.

Em sentido horário: casa ucraniana,  acampamento de tropeiros,  casa polonesa e moinho, no Parque Histórico de Iguassu
Apresentações sobre
o Contestado
e do Balé Kalena
A comunidade ucraniana, por exemplo, mantém viva a tradição de seus antepassados com grupos culturais e associações como o Grupo Folclórico Kalena, que ensaia e se apresenta no belo Cine Teatro Luz, um edifício art deco de cujo charme a cidade talvez ainda não tenha se dado conta.

A arquitetura dos pioneiros e dos colonos é preservada nas construções transplantadas, peça por peça, para o Parque Histórico Iguassu, empreendimento do casal Dago e Joana Wohel, que reproduz também uma trilha de tropeiros, cenários do contestado e uma moenda de erva mate onde os visitantes podem ver todo o processo de beneficiamento da planta. E como se come bem lá no Parque (sim, está no próximo post...).

Outra iniciativa bacana é a Escola de Cinema e Teatro dirigida pelo ator, diretor e cineasta Lício Ferreira, que ensaia nas praças da cidade e apresenta estudantes, moradores de periferia e trabalhadores rurais ao mundo das artes cênicas.  O grupo atualmente encena um espetáculo que conta a história da guerra do século passado e conclama: "Não conteste o Contestado sem saber suas razões" -- que, a propósito, são as mesmas de tantos conflitos contemporâneos: a concentração de terras e a exploração do trabalhador rural pelos coronéis. O estopim religioso aproxima o episódio da Guerra de Canudos.

Interior da igreja católica
 ucraniana de São Josafat,
em Prudentópolis 
Talvez a face mais conhecida do Paraná -- e a que mais contribui para sua fama de "certinho", na visão eurocêntrica que acha que só há um jeito de ser civilizado-- seja exatamente a que exibe os traços claros e corados dos colonos europeus. Nem aqui, porém, falta uma boa dose de aventura e coragem. Atravessar o Atlântico foi só o começo para italianos, alemães, ucranianos, poloneses e, já na segunda metade do Século 20, holandeses, os prósperos "novatos" nas levas de imigrantes. (O estado também tem umas significativa colônia japonesa).

A estranheza com a nova terra, as privações, a ajuda do governo que não veio (apesar da propaganda das empresas recrutadoras de colonos), a fome e as doenças foram a realidade cotidiana dos pioneiros entre os imigrantes. Uma das histórias mais tocantes é a do farmacêutico brasileiro Antiocho Pereira, que, cansado do descaso oficial, vendeu a casa e a farmácia para comprar remédios para uma comunidade polonesa assentada no município de Cruz Machado e acossada por uma epidemia de tifo, por volta de 1920. Antes da intervenção de Antiocho, 900 colonos já haviam morrido.

Nos próximos posts eu continuo contando um pouco mais do que descobri sobre o Paraná.

Moenda de erva mate no Parque Histórico de Iguassu

Informações:
Parque Histórico Iguassú- Essa reserva de 240 mil metros quadrados de mata é dedicada à memória da região Centro-Sul Paranaense fica a 29 km do centro de União da Vitória. Imigrantes, tropeiros e a Guerra do Contestado são as estrelas de um roteiro talvez excessivamente cenográfico, mas tocado com muita paixão por Joana e Dago Wohel. A área fica à beira do lago da usina de Foz do Areia e oferece passeios de barco (R$ 98 por pessoa) para a apreciação de algumas quedas d’água.

A principal atração é mesmo o farto almoço (veja este post) e as construções de madeira originais, feitas por colonos, transplantadas peça por peça, cuidadosamente numeradas e que consumiram, cada uma, cerca de um ano, na remontagem, como conta Joana Wohel. O moinho polonês ainda funciona e as casas polonesa, ucraniana e alemã podem ser alugadas por hóspedes. A casa polonesa, com 103 anos de idade, pode abrigar mais de 20 pessoas e o aluguel para grupos custa entre R$ 320 e R$ 990.


Os roteiros históricos pelo parque custam a partir de R$ 30 por pessoa. Achei interessante a moenda de erva mate, que permite ao visitante acompanhar todas as etapas da produção, desde a queima das folhas até uma rodada de chimarrão.

União da Vitória fica a 240 km de Curitiba. Para agendar uma visita ao Parque Histórico do Iguassu, ligue para (42) 3523-1515. 

*Estive em União da Vitória e na Lapa a convite da Cooperativa de Turismo do Paraná- Cooptur. O conteúdo do post, porém, reflete a minha opinião, formada a partir da experiência com o roteiro e os serviços testados ao longo da viagem.



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