domingo, 25 de agosto de 2013

Sul da Inglaterra:
Literatura ao vivo
em uma caminhada a Saint Cross


Quase o Éden: os jardins do Saint Cross Hospital
Sempre que lia a descrição dos romancistas ingleses sobre a paisagem rural do Sul do país, eu ficava com a impressão de que eles escreviam muito mais com o bairrismo que com a sinceridade. Ficava, até que decidi conhecer uma preciosidade medieval de Winchester, o Hospital of Saint Cross, a mais antiga instituição de caridade da Inglaterra.

Em homenagem ao lindo domingo de verão, resolvi seguir pelo caminho mais comprido, uma trilha que atravessa uma campina, margeando um braço do Rio Itchen. A paisagem que encontrei pelo caminho era literatura da melhor qualidade, ao vivo e a muitíssimas cores. Cenário tão bonito que tenho até medo de descrever — se eu não acreditava em todos aqueles figurões das letras, melhor nem testar meus talentos. Por sorte, eu tenho uma câmera fotográfica.
Pátio central do Hospital of Saint Cross
Pela trilha da campina, são apenas três quilômetros entre os jardins da Abbey House, residência oficial do prefeito de Winchester, no centro da cidade, e as muralhas quase milenares de Saint Cross. Há um caminho mais curto (2km), pela Saint Cross Road, mas quem é que quer ver automóveis e muros quando pode passear por cenários tão bonitos?

A trilha começa no final do River Walk  (o passeio que narrei no post anterior). Basta seguir pelo College Walk (não confunda com College Street) que logo depois está a placa indicando o caminho. Daí é só ir em frente, não há a menor chance de alguém se perder.

A trilha, a partir de Winchester, atravessa uma campina...
..margeando um riacho, braço do Rio Itchen
Ao longo do caminho há cantinhos sossegados para descansar, como esse banco colocado na trilha em memória de um jornalista morto em um acidente de carro
Fundado por Henry de Blois, o poderoso bispo de Winchester no início do Século 12, o Hospital Saint Cross foi desde então uma casa de acolhimento para pessoas necessitadas. Seus moradores são integrantes da ordem leiga da Santa Cruz. Além disso, a casa recebia mais 100 comensais todos os dias.

Hoje, 25 senhores vivem no local e, em ocasiões especiais, ainda usam os trajes cerimoniais das ordens da Santa Cruz e da Santa Pobreza (criada no Século 15), que incluem um barrete igualzinho ao que vemos em alguns retratos de Henrique VIII. Talvez por ser domingo, quando cheguei lá, a primeira pessoa que vi foi um velhinho todo paramentado, desfilando numa cadeira de rodas motorizada.
A portaria de St Cross e o pátio visto de um corredor
O interior da igreja da Santa Cruz, imponente como uma catedral

As tradições não morrem no Hospital of Saint Cross. Um desses costumes é de especial interesse para os visitantes: quem chega a pé, tem o direito de solicitar uma caneca de cerveja e um pedaço de pão, obrigação de hospitalidade com os viajantes chamada Wayfarer's Dole, que vem sendo respeitada desde os tempos de Henry de Blois.

Basta reivindicar seu lanchinho ao guardião do portão -- no meu caso, o velhinho motorizado, mas eu preferi não incomodá-lo, tão entretido estava ele, inspecionando o jardim.



O claustro de St Cross
A importância histórica e arquitetônica de St Cross o coloca entre os principais tesouros de Winchester. O local está muito bem preservado, até porque vem sendo continuamente usado (e cuidado), desde sua inauguração, em 1136. É esse uso que dá ao lugar uma vida que a gente não vê em edifícios  apartados de sua função original e transformados em monumentos.

Atravessar os grossos portões de St Cross não é voltar no tempo, porque o lugar caminhou esses nove séculos junto com o planeta, mas é como se todos aqueles séculos estivessem acontecendo ao mesmo tempo, na maior naturalidade.


Os jardins de St Cross são encantadores, parecem ter saído diretamente das páginas de um romance inglês

É no jardim de St Cross que a vida do lugar parece mais intensa. O espaço é de dar nó na garganta de tão tranquilo, bonito e bem cuidado. É comovente ver a pequena estufa onde os moradores preparam as mudas e onde guardam seus instrumentos de jardinagem.

O lugar é simplesmente irresistível, um festival de borboletas, abelhas mansinhas e silêncio, com uma grama fofinha, perfeita para a gente deitar e ficar decifrando os desenhos das nuvens no céu. Fiquei horas lá, encantada, saboreando cada detalhe daquela cena tão "inglesa de filme" — ou de romance.

Brethren's Hall, o salão onde os irmãos faziam suas refeições. 
Acima da entrada fica a galeria dos músicos
O pátio interno de St Cross. Cada portinha dessas é uma residência
O acesso ao claustro

Visitar St Cross é uma experiência única e eu recomendo muito que você não deixe essa maravilha fora do seu roteiro em Winchester (e, por favor, não deixe Winchester fora do seu roteiro na Inglaterra). Para ir até lá, eu abri mão de ir a Stonehenge e não me arrependi (eu acabei indo ver o sítio arqueológico, mas, na hora, não sabia que teria outra chance).

Por tudo, pelo caminho, pela beleza dos edifícios, pela placidez mágica do jardim, pela história do lugar. É daquelas vistas que, sozinhas, justificam a viagem.

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Dicas práticas
Hospital Saint Cross
St Cross Back Street, Winchester

A estufa do jardim, onde os moradores preparam as mudas de plantas
Entre abril e outubro, o Hospital of Saint Cross pode ser visitado diariamente, das 9:30h às 17 horas (domingo, a partir das 13 horas). De Novembro a março, as visitas podem ser feitas de segunda a sábado, das 10:30h às 15:30h).

A paisagem ao longo da trilha entre o centro de Winchester e o Hospital St Cross
A entrada custa £4. Para receber o Wayfarer's Dole (seu quinhão de cerveja e pão), procure o irmão encarregado dos portões (Porter). Outra opção para acalmar a sede depois da caminhada é o Tea Room, uma lanchonete que funciona no antigo celeiro. Mas atenção, porque ela fecha na hora do almoço.


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A Inglaterra na Fragata Surprise

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3 comentários:

  1. Oi, Cynthia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Natalie - Boia

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  2. Respostas
    1. Obrigada por viajar na Fragata Surprise, Paulo. Seja bem vindo e volte sempre :)

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