sábado, 24 de agosto de 2013

Sul da Inglaterra: a Catedral de Winchester e outros encantos medievais

Prior's Gate dá acesso a Cheyney Court, construída no Século 15 e sede de um tribunal comandado pelos bispos de Winchester
Com muita história para contar, Winchester é uma cidade nada rancorosa. Se fosse, tinha me botado de castigo. É que, num surto de pragmatismo, escolhi a cidade apenas como base para explorar alguns pontos inegociáveis nesse meu roteiro pela Inglaterra — o Museu Casa de Jane Austen, os Estaleiros Históricos de Portsmouth e o sítio arqueológico de Stonehenge

Winchester, a velha capital saxônica, foi escalada na trama pela boa oferta de hospedagem e de transportes. Ah, como eu sou boba... 

A "culpada" dessa história é bonita demais...
Com a argúcia que só se adquire aos 14 séculos de majestade (se a gente não levar em conta a povoação da Idade do Bronze e Venta Belgarum, a ocupação romana), a cidade armou direitinho pra mim. Caminhando da estação de trem para o hotel, já fui me convencendo de que ela merecia muito mais que as poucas horas, entre um bate e volta e outro, que eu tinha planejado lhe dedicar — e olha que arrastar mala por calçadas irregulares não é exatamente o tipo de atividade que favoreça a reflexão.

Para vocês terem uma ideia de como a cidade é bonita, meia hora depois de chegar eu já tinha deletado Stonehenge do meu roteiro, só para ver Winchester direito (calma, eu fui a Stonehenge, mas num bate e volta curtinho, a partir de Bath).

O pátio e a fachada Sul da Catedral
Talvez a culpa da minha ignorância seja do principal encanto de Winchester. Sua Catedral é tão famosa que ocupa todo o espaço nas referências à cidade. Ela é realmente espetacular, mas é um erro imperdoável imaginar que seja o único motivo para alguém se deslocar até a antiga praça forte do rei Alfredo, o Grande.

Winchester é um espetáculo cheio de história e ainda guarda muito da memória do tempo em que foi capital e quartel general da luta pela unificação dos reinos anglos e saxônicos e da resistência às invasões dinamarquesas — saga narrada em uma das minhas manias mais renitentes, a série Crônicas Saxônicas, de Bernard Cornwell, que ouso classificar como mais divertida até que Game of Thrones.

O impressionante interior da catedral. À direita, o túmulo de São Swithun, padroeiro da cidade
Todo o conjunto arquitetônico em torno da Catedral é impressionante. Ele começa no Kingsgate (“portão do rei”), que separa o antigo setor secular da cidade da área reservada às instalações eclesiásticas.

Sobre as arcadas do portão de pedra está a pequena Igreja de São Swithun, bispo saxão do Século 9 com fama de milagreiro e patrono da cidade. (É a imagem dele que se destaca no topo da fachada da Catedral, em cujo interior está seu túmulo, muito ornamentado).

As duas faces do "Portão do Rei" antigo acesso à área da Catedral



Mas já que a Catedral é o monumento mais famoso de Winchester, vamos começar por ela esse nosso passeio (e no próximos posts eu conto sobre o Saint Cross Hospital, o Wolvesey Castle, o Great Hall e todas as outras maravilhas que encontrei por lá).

Construída em meados do Século 11 pelos normandos, que haviam acabado de conquistar a Inglaterra, ela ocupa o local da antiga igreja do rei Alfredo e é considerada um dos edifícios góticos mais importantes da Europa. Deixe para visita-la ao cair da tarde, quando o sol estiver no ângulo certinho para entrar pelos vitrais da fachada principal, voltada para o Oeste (isso, se você conseguir parar de olhar para a dita fachada, que fica com uma cara absolutamente celestial, perto do crepúsculo). Cuidado para não levitar.

Detalhe do altar mor da Catedral de Winchester
Mais alguns passos e lá está Prior’s Gate, que dá acesso a Cheyney Court, tribunal onde os bispos de Winchester decidiam sobre as mais diversas demandas trazidas pelos cidadãos, e os estábulos medievais, hoje usados como sala de concertos. As duas construções são muito fotogênicas, com o desenho característico do enxaimel formado pelas traves de madeira de suas fachadas.

Cheyney Court. À esquerda, os antigos estábulos dos bispos de Winchester, que hoje funcionam como sala de concertos
The Close era a área reservada às residências e edifícios do clero. Hoje, alguns felizardos ainda moram nessa área


A partir daí, a área jardinada e as belas construções do claustro (The Close, a área murada e, antigamente, reservada aos edifícios eclesiásticos) vão levando a gente de mansinho, com direito a alguns momentos nada canônicos de pura inveja da meia dúzia de moradores das casas que um dia fizeram parte do conjunto.

Passando pela Deanery ("casa do Deão"), do Século 13, vale a pena dar uma parada no Dean Garnier Garden, um jardim escondidinho e silencioso, construído nas ruínas do antigo claustro dos monges que serviam à Catedral.

O Dean Garnier Garden
Um antigo claustro na área da catedral
A divisão da cidade em setores, ainda no tempo dos saxões, acabou criando um encanto a mais para a Catedral de Winchester. Ao contrário de suas irmãs famosas, que geralmente ficam nas praças principais de suas cidades, ela fica numa área muito sossegada, cercada de jardins, pátios e antigos claustros que acabam formando um parque meio apartado do mundo e que contribui para a sensação de volta no tempo que nos acompanha por todo o passeio.

O adorável "jardim" da Catedral é um antigo cemitério, mas os frequentadores não têm o menor medo de assombração. Eu adorei deitar nessa grama :)

A parte mais gostosa desse parque é o antigo cemitério, em frente à fachada Oeste, um gramado delicioso, daqueles que convidam a levar uma manta, uma almofadinha e muita vontade de esquecer da vida (e os moradores da cidade fazem isso mesmo, nos meses de verão, sem se importar com as lápides e urnas funerárias do Século 19 que ainda estão por lá).

Muitos reis de Wessex estão sepultados na catedral. Mas comovente mesmo é ver o túmulo de Jane Austen (à direita)

O túmulo do Bispo Wilberforce, em alabastro, é uma das obras de arte famosas no interior da catedral. À direita, a decoração do forro da igreja
Esse pedacinho da cidade era o meu canto favorito. Nos três dias que fiquei em Winchester, bati ponto todos os finais de tarde (lá pelas 20 horas) para ver o sol caindo sobre as pedras milenares da velha Catedral.

E aproveitava para agradecer à generosidade da cidade que, em vez de me puxar as orelhas por ter pretendido dar só uma passadinha por lá, teve a paciência de me mostrar todos os seus encantos e me transformar numa apaixonada para toda a vida.

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Como chegar a Winchester 
Da Estação de Waterloo, em Londres, partem trens diretos para Winchester a pelo menos cada meia hora. A viagem dura cerca de 60 minutos. O preço do bilhete varia de acordo com o horário escolhido e a antecedência da compra, mas prepare-se para gastar em torno de £30 para cada perna do trajeto.

Estação de trens de Winchester.
São só 60 minutinhos de Londres até aqui
Nesta viagem à Inglaterra, pesquisei e comprei minhas passagens de trem pelo site The Train Line e achei muito prático. Dá para comprar com bastante antecedência ou em cima da hora. O cliente recebe um código de confirmação e depois, com o mesmo cartão de crédito usado na compra, pode emitir o bilhete nas máquinas de qualquer estação. Basta colocar o cartão na máquina e digitar o código que a máquina lhe "reconhece".


Onde Ficar
Winchester tem farta oferta de hospedagem, com opções do tipo charmozinhas rurais ou no centro da cidade. Eu fiquei (e adorei) no Winchester Royal, que ganhou um post só para ele, mas dá para pesquisar alternativas no site Visit Winchester, mantido pelo escritório de turismo da cidade.

The Winchester Royal Hotel:
só o jardim dessa antiga abadia já valeria a viagem
Para visitar a Catedral
O horário de abertura anunciado é das 9h às 17h, de segunda a sábado, e das 12:30h às 15h aos domingos. Nos dias que estive lá, porém, as visitas se estenderam além das 19 horas, talvez por ser verão. A entrada custa £6, mas não estava sendo cobrada. Quando for comprar o ingresso, pergunte pela agenda de apresentações do coral da Catedral, que canta várias vezes por semana.

Esse edifício precioso passou por uma série de reformas, entre o Século XI e o Século XVI. Não é um lugar para ser visto em meia hora. Visite-o com calma, saboreando cada detalhe. São oferecidas visitas guiadas e esse é o único jeito de ter acesso à torre. Aqui também estão guardados tesouros inestimáveis, como a Bíblia de Winchester, do Século 12. Infelizmente o museu estava fechado no período em que estive na cidade (vai ver, essa é a pegadinha da cidade comigo, para me obrigar a voltar).



Quando você for, pare um minuto em frente ao túmulo de Jane Austen, do lado esquerdo da nave da Catedral. A escritora de "Orgulho e Preconceito" e "Persuasão" passou seus últimos dias em Winchester, para ficar mais perto do médico que tratava, e morreu na cidade. Sua sepultura simples e sem identificação ganhou uma placa de homenagem mais de 100 anos depois de sua morte.



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4 comentários:

  1. Você não cansa de surpreender com seus posts extremamente bem escritos, né, Cyntia? hehe.
    Estou apaixonada pelo seu blog. Você é incrível. :)
    Parabéns mesmo!

    Winchester nos encantou demais, também. E pensar que a nossa parada na cidade aconteceu ao acaso. Em uma roadtrip resolvemos entrar lá... foi a melhor decisão do mundo. :)

    Beijobeijo,
    Nah.

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    1. Puxa, Nah, chego a ficar vermelhinha (pena que ainda não habilitei os emoticons aqui no blog, rsss). Obrigada meeeeeesmo. Superbeijo

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  2. Em dezembro estivemos na cidade (minha esposa apresentou um trabalho num congresso acadêmico) e foi bem legal passear pela cidade. Achamos na internet um grupo de guias informais, gente que mora na própria cidade e se dispõe a apresentá-la aos visitantes. Foi muito bacana!

    P.S.: de Heathrow é possível pegar também o ônibus da National Express.

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  3. Boa dica, Patrick! Ver a cidade acompanhado de um morador deve ser ainda mais bacana.
    Agoooora, pegar esse ônibus aí, sem passar por Londres, hummmm, acho que eu não encaro, não, rsss (Sou capaz de fazer a volta em Londres até para ir à Conchinchina). Beijo

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