quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Hotel Adelphi,
um velho mito de Liverpool

Detalhe de um dos salões do Adelphi
Meu mergulho em Liverpool foi tão intenso que até na hora de escolher a hospedagem eu quis um ícone da cidade. O Adelphi Hotel é uma instituição britânica. Fundado em 1826, quando o Porto de Liverpool era uma importante porta de comunicação com as colônias, ele rapidamente se tornou um emblema da opulência, considerado o mais luxuoso hotel da Inglaterra fora de Londres, pouso da nobreza e de celebridades, como o escritor Charles Dickens.

O lounge já foi um salão de baile. Hoje é ponto de encontro dos aposentados, principal público do hotel
O edifício original era uma adaptação de duas townhouses que confrontavam os Ranelagh Gardens. Foi posto abaixo para dar lugar a um prédio maior e mais moderno em 1876 — esse tinha até um tanque para criação de tartarugas, no subsolo, já que uma das razões da fama da casa era a sopa do quelônio, servida em seu restaurante, que atraía gourmets de todas os quadrantes da terra.

Em 1914, foi inaugurada a versão atual do Adelphi, puro luxo Belle Époque.

A escadaria
Os tempos de glória do Adelphi ficaram para trás  —   em 2010, ele quase foi fechado pela fiscalização sanitária pela precariedade dos serviços de limpeza, o que obrigou a casa a mudar a administração   — mas ainda é perfeitamente possível adivinhá-los na suntuosidade de cada detalhe dos forros, colunas, candelabros e claraboias.

Os quartos standard, porém, são hoje quase espartanos. Apesar de amplos, faltam-lhes os confortinhos básicos, como telefone, cofre e secador de cabelos. No meu, por exemplo, a TV era velhíssima, do tipo "bunduda", e desligava sozinha. Mimo, mesmo, só a jarra elétrica para fazer chá e café.




Mesmo assim, adorei me hospedar no Adelphi. Tirando a sensação de que a menininha do Iluminado ia aparecer a qualquer momento, quando eu andava pelos compridíssimos (e larguíssimos) corredores desertos, e a chatice do WiFi (gratuito) que sismou de não funcionar no meu quarto, eu me diverti muito explorando os belos ambientes. Uma viagem ao passado que permanentemente me fazia ouvir um charleston ou um foxtrot, acompanhados pelo chiado de um disco de carnaúba tocado num gramofone (bem que podia ser Honey Pie, a adorável extravagância que Paul compôs para o Álbum Branco...).

Os quartos são bem básicos
O Adelphi hoje é administrado pela cadeia hoteleira Brittania e seu principal público é bem diferente dos nobres e milionários que fizeram a fama da casa. Excursões de aposentados provocam filas intermináveis na recepção para check in ou check out.

Prepare-se para sempre ceder seu lugar na fila do elevador à velhinha com o andador. É gente simpática, que puxa conversa com um sotaque quase ininteligível e sonha em voltar para passar o Natal no hotel, a ceia natalina do Adelphi ainda é famosa ceia — as reservas começam a ser feitas em julho.

Os corredores (à direita) são meio lúgubres,
mas os salões são um escândalo
Na minha última noite em Liverpool, quando fotografava os diversos ambientes do hotel, percebi um senhor de seus 60 anos, funcionário da casa, que me acompanhava com um olhar cúmplice e sonhador. Quando o olhei, ele sorriu, suspirou e comentou "She's a beauty, isn't she?". Eu podia ter respondido com uma torrente de adjetivos encantados, mas só consegui responder "Yes, it is". Só depois é que me toquei que, ao ignorar a humanização do Adelphi, eu tinha citado um verso dos Beatles. Em Liverpool, até a minha secura involuntária virou poesia.

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O Adelphi está precisando de uma reforma, 
mas a imponência do edifício ainda está toda lá
The Britania Adelphi Hotel- Ranelagh Place, Liverpool, L3 5UL, a cerca de 400 metros da Estação Ferroviária de Lime Street. O edifício é tombado pelo Patrimônio Histórico britânico. Tem 402 apartamentos, restaurantes e uma legendária piscina coberta, no sétimo andar. Fica a menos de 20 minutos de caminhada da Albert Dock e do Cavern Club. Diárias no apartamento single por £ 58. Não espere muito dos quartos, mas se você é como eu e não resiste a um cenário fascinante, aposto que vai curtir.

São só 400 metros entre o hotel
 e a Estação de Lime Street
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A Inglaterra na Fragata Surprise
Bath


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