domingo, 28 de julho de 2013

Praias de Curaçao: modo de usar

Kanepa Grandi, considerada a melhor praia de Curaçao, é pública e tem pouca estrutura. Nem pense em ir no domingo, se não quiser duelar por um lugarzinho para esticar a canga
Eu não conheço o mundo todo. Mas, no mundo que conheço, garanto que é difícil encontrar praias mais bonitas que as de Curaçao. Melhor que bonitas: são praias gostosas, onde o cenário de fazer o coração dar uma paradinha quase vira coadjuvante das águas mansas, límpidas e com temperatura perfeita. Porto Marie, Cas Abao, Kanepa Grandi (Grote Knip, pronuncia-se neip), Playa Lagun e Santa Cruz fizeram a minha felicidade, durante os seis dias que passei na ilha.

Esses paraísos amnióticos ficam na Costa Sul de Banda Abou, o lado Oeste e mais selvagem da ilha. Depois que a gente pega a manha, fica bem fácil chegar a todas elas, mas confesso que, no primeiro dia, penei um pouquinho para chegar aonde queria. Sorte a sua, porque a Fragata reuniu algumas dicas para facilitar o seu caminho para essas águas inesquecíveis.

Veja como aproveitar as praias de Curaçao:
Um mergulho em Porto Marie é assim
Alugue um carro
Mesmo uma pedestre militante, como eu, tem que se render: Curaçao fica muito melhor quando dispomos das quatro rodinhas para ir e vir. A ilha é pequena — de uma ponta à outra, em linha reta, são apenas 60 quilômetros — e até é possível usar o transporte público para ir à praia. Mas lembre-se que as linhas de ônibus não foram pensadas para os turistas, e sim para as pessoas que moram nas vilas e povoados do caminho, e as vans que levam diretamente a algumas praias têm horários meio incertos.

Não perca o precioso tempo que você poderia dedicar àquele mar azul chacoalhando num ônibus — mas, se quiser tentar, o melhor ponto de partida é o terminal de Otrobanda, que fica quase em frente ao Forte Rif.

Santa Cruz tem águas esverdeadas, menos cristalinas,
mas é bastante sossegada fora dos fins de semana

Dirigir na ilha é tranquilo para quem está acostumado às grandes cidades do Brasil. Para alugar um carro, basta apresentar a carteira de motorista brasileira e o passaporte. O Aeroporto Hato tem um setor exclusivo para as empresas de locação — para encontra-lo, basta seguir a linha pontilhada amarela que guia o viajante até lá, a partir do portão de desembarque.

Controle o Sebastian Vettel que mora em você
O trânsito em Willemstad me pareceu muito tranquilo, típico de cidade pequena, mas fique atento a barbeiragens eventuais de motoristas que param de repente, sem dar sinal. A mesma atenção vale nas estradas: muita gente prefere aguardar no meio da pista para entrar à esquerda, em vez de parar no acostamento, e coisas desse tipo.

O controle de trânsito parece ser bem relaxado na ilha: vi apenas um carro de polícia na estrada e uns três ou quatro na cidade. Aliás, tão relaxado que eu comecei a esquecer de levar os documentos do carro comigo — não tentem fazer isso em casa, crianças.

A contagiante placidez de Porto Marie

Pista dupla nas estradas de Curaçao é coisa rara — pelo que eu vi, apenas no trecho entre Willemstad e a rotatória que dá acesso ao caminho para o Aeroporto Hato. O estado de conservação de algumas estradinhas secundárias deixa a desejar, com asfalto irregular e alguns buracos. A sinalização é sempre muito precária e acostamento é uma eventualidade.

Embora não tenha visto sequer uma placa indicando o limite de velocidade, o bom senso me recomendou — e eu obedeci — a evitar andar acima dos 90 km por hora. No dia que uma motorista doida entrou na pista, sem dar qualquer sinal, na estrada para Porto Marie, essa providência me salvou de um acidente que, ainda que não fosse grave, ia estragar as minhas férias. Se eu estivesse correndo um pouquinho mais, duvido que conseguisse desviar da maluca com tanta elegância e continuar na estrada.

Na cidade, o limite de velocidade varia entre 40 e 50 km por hora e também recomendo que você respeite essa regra — nem tanto pela fiscalização, mas para sua própria segurança.

Pequenininha e sossegada, Playa Lagun ficou famosa como cenário do filme A lagoa azul, com Brooke Shields, que fez muita adolescente suspirar, no começo dos Anos 80. A construção de dois hotéis sobre as rochas quebrou um pouco o encanto da paisagem, mas as águas continuam perfeitas

(Re)Aprenda a ler mapas
Eu até aluguei um GPS, mas só para descobrir que o aparelhinho é de pouquíssima ou nenhuma utilidade em Curaçao: ele não reconhece a maioria das localidades da ilha — exatamente aquelas aonde você mais quer ir. Portanto, ressuscite aquela sua memória analógica e estude o mapa que a locadora certamente vai lhe entregar, junto com as chaves e os documentos do carro.

Em Willemstad, é bem fácil rodar, pois a cidade é bem sinalizada. Na estrada, porém, a história é outra. Primeiro, porque as placas geralmente não indicam o caminho para as praias, mas para as vilas e povoados — só quando você já está em cima da entrada para a estradinha meio escondida é que uma timidíssima plaquinha marrom, geralmente encoberta pela folhagem, avisa que é a ali que você tem que dobrar para chegar à praia escolhida.

Cas Abao tem as águas mais transparentes que encontrei
 em Curaçao. Perfeita para mergulhar, 
boiar ou esquecer do mundo


Segundo, porque vai ser bem raro encontrar alguém no caminho para pedir informações. Eu consegui rodar mais de uma hora na estrada que leva a Westpunt (o ponto extremo no Noroeste da Ilha), sem ver um único ser humano, exceto os eventuais motoristas que passaram por mim. Na dúvida, entre num povoado ou pare em algum mercadinho que encontrar pelo caminho e tente se informar.

St Willibrordus: decore este nome
O povoado tem menos de mil habitantes, uma igreja católica do Século XIX que se destaca na paisagem e as ruínas da antiga Landhuis (casa grande) da propriedade rural que explorava as salinas de Saint Marie. Mas não é por nada disso que você tem que ficar ligada em Sint Willibrordus, e sim porque esse é o caminho das pedras para as melhores praias.

O alagadiço onde brincam os flamingos e, lá no fundo, a igreja de Sint Willibrordus: faça desse campanário o seu farol
Num mundo ideal, a estrada principal para o Oeste deveria ter placas indicando as entradas para Porto Marie, Cas Abao e Kanepa Grandi. Na vida real, porém, é esse santo desconhecido dos brasileiros que vai lhe indicar onde virar à direita esquerda (para quem vem de Willemstad na estrada principal para Westpunt) e seguir para os nossos paraísos amnióticos.

Atenção, porque até o santo faz pegadinha: a primeira entrada para o povoado, na localidade de Daniel (procure a placa do Daniel Market, um mercadinho de beira de estrada) pode até passar despercebida, mas é o acesso para Porto Marie — prepare-se para uma parada para admirar os flamingos desfilando no campo alagadiço, logo depois que você pegar a estradinha.

Um pouquinho antes da entrada para Porto Marie (siga a placa Playa Porto Marie, para não ir parar nas ruínas da Landhuis), uma placa indica o caminho para Soto e Lagun (Playa Lagun é linda!) e pode ser um caminho alternativo para Cas Abao e Kanepa Grandi (procure as placas Knip, mas fique esperto, porque a praia mesmo é identificada nas placas como Playa Abao).

E agora, os flamingos que eu fiquei devendo na imagem anterior
Se você pegar a segunda entrada para St Willibrordus, com sinalização melhor e pista mais larga, já perderá a entrada para Porto Marie e a primeira praia deslumbrante será Cas Abao (as placas são quase invisíveis, mas não dá para não notar o muro e portal meio decadente, pintados de salmão, à sua esquerda, que é onde você deve entrar).

Se não entrar em Cas Abao, essa pista também levará você, na sequência, a Playa Lagun (também acessível pela estrada para San Juan), Santa Cruz e Kanepa Grande

Mantenha o tanque do carro bem abastecido, pois postos de gasolina não são exatamente abundantes em Banda Abou.

Kanepa é bonita e vaidosa: tem um mirante, para a gente poder admirá-la bastante, quando chega e quando sai
Não deixe suas coisas de bobeira nas praias 
Essa é a primeira recomendação que os moradores vão lhe fazer e é importante leva-la a sério. Para quem está acostumada aos índices de criminalidade do Brasil, a ilha pode parecer até ingênua, mas Curaçao não é a Grécia, onde se pode deixar a mochila na areia, sozinha e recheada com câmera fotográfica e carteira, confiando em encontra-la intocada, depois do mergulho. Infelizmente, são cada vez mais frequentes relatos de turistas roubados na ilha, principalmente nas praias públicas de Banda Abou. Se você estiver sozinha, peça a algum outro banhista para olhar seus pertences, quando for para a água. Geralmente, costumo apostar nas famílias ou nos casais para esse tipo de pedido.

Atenção também nos estacionamentos. Procure não parar o carro num lugar ermo ou distante e jamais deixe coisas de valor em seu interior— e, se deixar alguma coisa, trate de trancá-la no porta malas. Assaltos são raríssimos em Curaçao, mas arrombamentos de automóveis, infelizmente, não são.

Acredite: só fui a Santa Cruz por acidente:
topei com a placa, a caminho de Kanepa
A pesar disso, é preciso registrar que em nenhum momento eu me senti insegura nas praias. Mesmo viajando sozinha, bastam os cuidadinhos básicos para tudo correr bem em Curaçao.

Algumas praias são públicas. Outras cobram ingresso
Kanepa Grandi e sua irmãzinha caçula, Klein (pequena) Knip, Playa Lagun e Santa Cruz são praias públicas. Isso significa que você não paga nada para entrar, mas também que contará com menos infraestrutura.

Até vi meia dúzia de espreguiçadeiras em Kanepa Grandi, mas o mais provável é que você tenha que sentar na areia mesmo, se não der sorte de conseguir lugar num dos poucos quiosquinhos cobertos de palha, com mesa e banquinhos de madeira, que há nessas praias. É importante levar seu suprimento de água e também algum lanchinho, pois não é garantido que você vá encontrar vendedores por lá.

Como na maioria das praias, os restos de coral  podem machucar os pés de quem entra ou sai do mar, em Cas Abao
Se não quiser duelar por um lugarzinho na areia, evite as praias públicas nos fins de semana — eu passei por Kanepa Grandi no domingo e tomei um susto com a multidão e a fila de carros precariamente estacionados ao longo da estradinha, a mais de um quilômetro da praia.

Cuidado para não machucar os pés ao entrar e sair do mar
A "arrebentação" — chega a ser meio ridículo dar esse nome àquela marolinha suave — acumula muitos restos de coral e pedriscos, bem incômodos de pisar e que também podem proporcionar escorregões e quedas, como a que tomei em Kanepa. Uma boa maneira de evitar isso é calçar sapatilhas, como as usadas nas aulas de hidrobike. As minhas, eu comprei em Rodes, na Grécia (e esqueci de levar, no dia que fui a Kanepa), mas são fáceis de encontrar em lojas de material esportivo.

Os guarda-sóis e as palhocinhas de Cas Abao
 são disputadíssimos
A falta de sombra é um problema na maioria das praias públicas
A galera de Curaçao simplesmente não acredita em guarda-sol. O jeito é disputar um espacinho à sombra dos coqueiros e caprichar no chapéu e no protetor solar. Cas Abao e Porto Marie oferecem poucos e disputadíssimos guarda-sóis. Se você tiver sorte de conseguir se instalar ao abrigo de um deles, não vai pagar nada por isso, mas lembre-se que terá que compartilhá-los com outros banhistas.

Porto Marie e Cas Abao são praias particulares, com estrutura mais confortável — estacionamento com seguranças, aluguel de espreguiçadeiras e equipamento de mergulho, chuveiros e restaurante. Em Porto Marie, dá até para contratar massagistas, manicures e pedicures.

Eu seria capaz de passar o resto da vida ancorada em Porto Marie
O ingresso para Porto Marie custa US$ 2,50 por pessoa e mais US$ 3,50 pela espreguiçadeira. Basta chegar e ocupar, que uma funcionária da praia virá cobrar esses valores e lhe entregará os comprovantes, que você deverá conservar. O aluguel do snorkel sai por US$ 6 no dive shop local. Vale a pena, porque esta praia, com seu especialíssimo recife de coral, é um dos melhores pontos de mergulho da ilha.

Cas Abao tem espreguiçadeiras e serviço de bar


Já em Cas Abao é difícil dizer quanto custa o ingresso, pois o senhor que toma conta da guarita leva muito em conta a cara da freguesa. Como o cumprimentei com um “Bom djiia” bem baianês, ele logo sacou que eu era brasileira (em papiamento, idioma local, fala-se como na maioria do Nordeste: bom dhia) e cobrou apenas US$ 5 pela minha entrada, nas duas vezes em que estive lá, embora a placa afixada na entrada estabeleça que o ingresso vale US$ 10 para cada automóvel, de segunda a sábado, e US$ 12 aos domingos. Mas não me pergunte por que esse anjo de criatura favorece os brasileiros... Esses valores já incluem o uso do estacionamento e chuveiro. A espreguiçadeira (US$ 3,50) precisa ser paga à parte.

A estrutura mais organizada é a de Porto Marie
É tudo verdade: o mar é mesmo desta cor
Tenha sempre dinheiro trocado
Especialmente nas praias, onde vai ser quase impossível pagar com cartão de crédito. Não esqueça que a moeda local é o florin antilhano (o guilder, em holandês) e não o dólar. A moeda americana é regularmente aceita na ilha, o que nos livra da chatice de correr atrás de câmbio. Mas já é querer demais que eles tenham troco em notinhas gringas, né?

Pronto, agora que você já sabe o caminho das pedras, é só se jogar nas águas inimitáveis de Curaçao. Para outras dicas da ilha, aguarde os próximos posts.


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3 comentários:

  1. Imprimi e levei vários posts seus para minha viagem em Curaçao. Suas dicas foram fundamentais para o sucesso da viagem. Por exemplo: alugar carro e não perder tempo nem dinheiro com transporte público, comprar as sapatilhas para entrar no mar e fazer a hospedagem em Willemstad. Ao voltar, li vários blogs contando os problemas de quem não seguiu essas "regras de ouro".

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  2. Realmente há muita propaganda mas pouca orientação para chegar nas melhores praias, especialmente nas de Westpunt. Levei impresso o seu post sobre como chegar nas praias e, junto com o mapa da empresa de aluguel do carro, chegamos rapidamente em todos os locais. Foi ótimo!
    Deixo a sugestão para você tirar "direita" e colocar "esquerda" no trecho abaixo, para corrigir a orientação de quem está na estrada:
    Na vida real, porém, é esse santo desconhecido dos brasileiros que vai lhe indicar onde virar à direita(retirar) / esquerda(incluir) (para quem vem de Willemstad na estrada principal para Westpunt) e seguir para os nossos paraísos amnióticos.

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    1. Tem razão, Paula, é esquerda, mesmo! Já corrigi. Que bom que as dicas da Fragata foram úteis :)

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