quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Ilha de Páscoa:
trate bem do paraíso

Ahu Akivi: distante do mar, mas seus moai olham na direção do oceano
Em 2009, lideranças rapa nui bloquearam a pista do Aeroporto de Mataveri, na Ilha de Páscoa, para forçar o governo chileno a debater suas reivindicações sobre o controle de visitantes e imigrantes. Foi um deus nos acuda, com centenas de passageiros de todos os cantos do mundo retidos em Santiago, impedidos de embarcar para a ilha. 

O protesto não foi inspirado pela xenofobia, mas pela sobrevivência.

Com pouco mais de 160 quilômetros quadrados, a Ilha de Páscoa não tem qualquer fonte perene de água potável. O abastecimento da ilha (de alimentos a combustíveis) vem do Chile, de navio ou de avião. O lixo faz o caminho inverso. Na década passada, a população da ilha cresceu 55%, chegando a quase 6 mil pessoas. Hoje, algumas estimativas já falam em 10 mil moradores, das quais apenas 1.000 são rapa nui, a população original.

Pinturas rupestres na caverna de Ana Kai Tangata representam os pássaros sagrados dos rapa nui
A imigração crescente de “continentais” (chilenos) e de estrangeiros para esse pedacinho de terra no lado mais distante do mundo é apenas uma das ameaças ao frágil equilíbrio de uma ilha que até hoje paga o preço de um modelo perverso de colonização.

No final do Século 19, Rapa Nui foi arrendada pelo governo do Chile a uma empresa estrangeira que converteu a ilha inteira em uma fazenda de ovelhas. Por mais de 70 anos, até meados do Século 20, a população original da Ilha de Páscoa ficou confinada na vila de Hanga Roa (supostamente para impedir que os ilhéus roubassem e comessem osanimais), sem poder plantar ou manter rebanhos. Até hoje, a produção de alimentos por lá é mínima.

No topo do vulcão Rano Kau, a vila cerimonial 
de Orongo era sede do ritual do Homem-Pássaro, que decidia a tribo que governaria a ilha
Os rapa nui ainda lutam para reaver o controle sobre seu território ancestral, num conflito que vai muito além da questão fundiária. O clã Hitorangi, por exemplo, reivindica as terras onde hoje se ergue o luxuoso Hanga Roa Ecovillage & Spa. Segundo os rapa nui, o empreendimento ocupa a área do Ahu Makere.

Os ahu são plataformas rituais onde geralmente se depositam os ossos dos mortos de determinado grupo e podem ou não ser adornados com moai, a depender da importância militar ou política dos guerreiros ali sepultados. Na tradição local, o hotel foi construído sobre o altar onde os Hitorangi reverenciariam seus matamúa (antepassados).

Te Pito Kura ("o umbigo do mundo"): os rapa nui acreditam que essas pedras têm poderes curativos. Elas são fortemente magnetizadas e esta pode ser uma das explicações para a "mágica"
Mesmo nós, bem intencionados turistas, representamos um impacto importante para o equilíbrio local. Os números variam de acordo com a fonte, mas Rapa Nui recebe entre 50 mil e 65 mil visitantes por ano em 12 voos semanais que partem de Santiago, Lima e Papeete, no Taiti.

Ao mesmo tempo em que movimentamos a principal economia da ilha, contribuímos para a geração de lixo, a demanda por mais automóveis, o encarecimento dos gêneros alimentícios e pelo crescente interesse de “continentais” em abrir pousadas e restaurantes por aqui.

Por lei, estrangeiros não podem ser proprietários em Rapa Nui, vedação facilmente driblada pelos contratos de “sociedade” pelos quais os ilhéus arrendam terrenos para “parceiros” que montam e tocam seus empreendimentos, desalojando moradores para habitações mais precárias, como os quase barracos construídos em alguns trechos da Calle Policarpo Toro, em Hanga Roa.

Me senti pequenininha caminhando pelo parque dos moai, nas encostas do vulcão Rano Raraku
Conhecer Rapa Nui era um sonho que eu trazia desde a adolescência. Se você também quer ir para lá, dou a maior força, mas faço um pedido: trate a ilha como uma delicada preciosidade, um patrimônio da humanidade que só faz sentido se for, antes de tudo, patrimônio de sua população original.

Além daqueles cuidadinhos básicos de gente educada (recolher seu lixo, evitar o desperdício de água, etc), prefira sempre contratar guias e agências mantidas pelos locais. E, principalmente, ouça a história daquele povo, respeite sua cultura e solidarize-se com uma gente linda, que construiu maravilhas para o deleite de todos nós.

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O Chile na Fragata Surprise:

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