domingo, 9 de dezembro de 2012

Lindos, assim mesmo, no plural...

O Templo de Atena, na Acrópole de Lindos
Não sei o que quer dizer Lindos (Λίνδος) em grego. Em português, porém, a palavra descreve com precisão essa antiga cidade dórica, na Costa Leste da Ilha de Rodes. E assim mesmo, no plural — linda enseada, linda vila de casinhas brancas penduradas na montanha, linda Acrópole sobre o mar, cercada pelas muralhas dos Cruzados. Bastaria usar a palavra no feminino :)

Foi em Lindos que fiz minha despedida de Rodes, depois de quatro deliciosos dias de praia e dolce far niente à moda do Dodecaneso. E foi grande estilo, com direito a um banho de mar inesquecível, uma escalada quase épica até a Acrópole e um polvinho de rasgar a roupa, à sombra das parreiras e dos bougainvilles, que ninguém é de ferro.

O mar, a vila e a Acrópole: lindos...
 Eu tinha planejado ir de Rodes a Lindos de barco, mais uma chance de navegar nas águas inacreditáveis do Egeu. Mas acordei tarde e acabei chegando ao Porto de Mandráki por volta das 10h — depois de uma parada estratégica na barraquinha de loukoumades, os donuts gregos que viraram minha nova adição química e presença obrigatória no meu café da manhã. Sem problemas: os ônibus da KTEL partem de hora em hora do terminal rodoviário que fica logo atrás do Mercado (Nea Ágora).

A viagem até Lindos acabou sendo uma imersão na vida cotidiana da Ilha. São só 50 quilômetros, mas prepare-se para mais de uma hora de percurso, com paradas nas diversas vilas do caminho, em companhia de passageiros carregando as compras da semana e estudantes a caminho da escola. A maioria dos turistas prefere os ônibus de excursão, seguramente mais confortáveis, mas muito menos saborosos.

A vila vista do alto da Acrópole...
... e suas ruas estreitas. sombreadas pelos bougainvilles
Carros e ônibus são proibidos de circular em Lindos — basta ver as ruazinhas da vila para entender a razão. O ônibus deixa os passageiros na estrada, onde uma árvore solitária e o quiosquinho da KTEL fazem as vezes de estação rodoviária.

De lá, é preciso descer cerca de um quilômetro, por uma estradinha sinuosa, até a praça principal de Lindos. Até as 13 horas, um micro-ônibus faz o percurso. Depois desse horário, o jeito é ir a pé ou no lombo dos “táxis lindenses": uns jumentinhos tão baixinhos que dão pena só da gente pensar em colocar peso em suas costas.

Os burricos são o único meio de transporte na vila e para a subida à Acrópole. Francamente, não tenho coragem de colocar peso num bichinho desses
Claro que cheguei louquinha para conhecer a Acrópole, considerada uma das mais belas da Grécia pela sua localização espetacular, numa escarpa sobre o mar, e pela conservação dos edifícios. O sol de quase meio dia, porém, desencorajava qualquer escalada. O jeito foi me “conformar” em descer para a Praia de Megalos Gialós e esperar, mergulhada até o nariz, que a temperatura ficasse mais amigável à sobrevivência.

Imaginem o aperreio que foi ficar mergulhada nesse mar, esperando o sol baixar

O mar de Gialós é totalmente grego: águas cristalinas, na temperatura exata (nem quente, nem gelada) e muito mansinhas. Dá para esquecer da vida. O piso é menos pedregoso, de uma areia grossa, cor de mel, deu até para tirar as minhas queridas sapatilhas de hidrobike.

Para subir a Acrópole, há duas trilhas. Uma brasileira que conheci em Rodes já tinha me dado a dica: a subida da praia é a menos inclemente, pois tem muito mais rampas que degraus, além de ser refrescada pela brisa que vem do mar. Mesmo assim, a escalada é pesada e o piso, pavimentado com pedras seculares e milenares, já muito gastas, é bem escorregadio, embora mais confiável que o do caminho que vem da vila, mais escorregadio ainda e cheio de degraus.

A subida é assim - com essa paisagem

No ziguezague da subida, tem sempre cantinhos sombreados para um descanso, como o adro dessa capelinha, e fachadas floridas para alegrar o olhar
Repare a elegância dos portais das casas ao longo da trilha. E na descida a gente entende a utilidade do corrimão que aparece na foto da esquerda :)
Embora não haja qualquer sinalização na trilha, é impossível se perder: basta seguir os cocôzinhos que os burricos que carregam os turistas vão deixando pelo caminho, numa versão levemente escatológica de Joãozinho e Maria (eu achei bem bucólico...).


No caminho, há vários recantos onde se pode parar e respirar, admirando os cubinhos brancos que são as casinhas de Lindos, sempre com uma parreira ou um bougainville emoldurando a fachada. A vista para o mar é sempre maravilhosa.

Um bom lugar para descansar é à sombra de uma velha árvore frondosa, no adro da igrejinha bizantina que fica bem no ponto onde as trilhas que vêm da praia e da vila se encontram -- a partir daí, os degraus ficam mais frequentes e é bom repor um pouquinho as forças.

A Acrópole está cercada por fortificações erguidas pelos Cruzados
Devo ter levado cerca de 40 minutos para chegar à portaria da Acrópole, marca bem razoável para uma fumante cinquentona que, ainda por cima, esqueceu de levar uma garrafa d'água para aplacar o calor da subida. Socorri-me na Mike's, uma lanchonete que fica junto da bilheteria, tem uma vista escandalosa e, certamente por isso, cobra €4 por um copo de 500 ml de Coca Cola (sedenta como eu estava, achei até barato...).

As ameias das muralhas dos Cruzados (esq) e uma embarcação esculpida na rocha, que decorava um antigo altar
As fortificações dos Cruzados

É preciso atravessar o cinturão de fortificações medievais para chegar à Acrópole, que fica no ponto mais alto da montanha
A presença humana em Lindos remonta a 3.000 antes de Cristo. No Século 10 a.C., a cidade era um importante porto da Civilização Dórica, que ergueu a bela Acrópole no alto da montanha, debruçada sobre Megalos Gialós, ao Norte, e a Baía de São Paulo, ao Sul (onde o santo teria aportado, ao chegar à Grécia para pregar o cristianismo).

No Século 14, chegaram os Cruzados, que ocuparam Rodes e fortificaram diversos pontos da Ilha. Em Lindos, eles construíram muralhas, bastiões e um castelo em torno dos vestígios do Templo de Atena Líndia e das demais construções da Acrópole.

A escadaria monumental que dá acesso à Acrópole
O Propileu (pórtico) da Acrópole,
colunata que serve de entrada cerimonial
As muralhas cruzadas são impressionantes, mas arrebatadores, mesmo, são os edifícios dóricos. Logo na entrada, dei de cara com uma antepassada da Fragata, linda, uma trirreme esculpida na rocha, num altar onde muitos homens do mar, com certeza, vieram pedir proteção. 

Depois de atravessar os bastiões medievais, subir a escadaria que leva ao Propileu (pórtico de entrada) da Acrópole, com aquele marzão azul a meus pés, foi realmente uma experiência para a vida inteira. 

A Estoa da Acrópole é do Século 2 de nossa era,
possivelmente uma adição romana

Uma oliveira resiste aos ventos a à aridez,
 ao lado do Templo de Atena
No Século 8 a.C., Lindos já era um importante polo comercial, concentrando o poder e a influência da Civilização Dórica na região. Sua Acrópole reflete essa majestade — e talvez devamos ser gratos aos Cruzados, que não destruíram as belas construções helênicas, permitindo que elas chegassem tão bem preservadas aos dias de hoje, apesar de adendos romanos, bizantinos e otomanos, além das intervenções feitas por eles, os mesmos Cavaleiros da Ordem de São João que nos legaram a Cidadela de Rodes.

O edifício central da Acrópole é o Templo de Atena Líndia, reconstruído, em parte, dando uma ideia clara de seu aspecto original e onde ainda se pode identificar a mesa de oferendas, em sei interior. O Propileu, com sua escadaria monumental e colunata também exige pouco de nossa imaginação para que desenhemos suas feições originais.

A mesa de oferendas ainda persiste no interior
 do Templo de Atena
Não bastasse tudo isso, ainda tem aquele azulão do mar como moldura. A Acrópole de Lindos foi uma das coisas mais arrebatadoras que vi na Grécia (e olha que a concorrência não estava para brincadeira...) e eu recomendo muito que você a coloque em seu roteiro. 

Deu vontade de ir? Veja as dicas práticas para visitar Lindos


O mar aos pés da Acrópole
Dicas para organizar uma viagem à Grécia

A Grécia na Fragata Surprise



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