sábado, 8 de dezembro de 2012

Panormiti e os milagres do mar

Essas garrafas com mensagens chegam
de toda parte. Qual será a força
que as traz até aqui?
Desde a Antiguidade, o temperamento inconstante do Egeu é um edificador de devoções fervorosas: tão plácido e, de repente, ele rugia, indócil, e lá ia mais uma trirreme para o fundo do mar azul. Os navegadores daquelas bandas mantêm as divindades ocupadas com suas preces deste tempos imemoriais.

A pequena Ilha de Sými, a 30 quilômetros de Rodes, no Arquipélago do Dodecaneso, é uma ilha de marinheiros, profundamente marcada pelas manifestações de fé dos homens do mar.

Fé que estava estampada no rosto do tripulante do Panagia Skiadeni, o ferry que me trouxe à ilha. Era um marinheiro muito jovem, que esperava na fila para acender as duas velinhas de cera de abelha que recebem todos os visitantes do Mosteiro do Arcanjo Miguel (Moni Taxiárchi Michail), em Panormiti, a primeira escala da embarcação em Sými. O olhar do rapaz enquanto ele murmurava suas preces foi uma das imagens mais comoventes que vi, nessa temporada na Grécia e na Turquia.

A entrada da Enseada de Panormiti...
...guardada por um singelo moinho de vento
Para entender aquela devoção, é preciso conhecer um pouco da história de Panormiti. O povo do Dodecaneso atribui muitos milagres ao ícone do Arcanjo, tesouro maior da igrejinha do mosteiro. As velas que o jovem marujo acendeu naquela manhã servem para acompanhar um pedido e uma promessa a São Miguel. Uma vez alcançada a graça, é preciso voltar a Panormiti para agradecer e retribuir. E nem pense em tentar driblar o Arcanjo: dizem que ele é capaz de parar o motor dos barcos e levantar tempestades, impedindo a partida de quem estiver em dívida com ele.

O mosteiro foi construído no Século XVIII, 
para abrigar o ícone do Arcanjo
Ninguém sabe como o ícone chegou a essa enseada de beleza mágica, com uma entrada muito estreita, que se alarga e se recorta, sinuosa, nas montanhas áridas e pontilhadas por moinhos. O que o povo conta, porém, é que a imagem teimava em voltar a Panormiti, misteriosamente, toda vez que a Igreja tentava instalá-la em Gialós, principal porto de Sými.

Ex-votos: cada um desses barquinhos
conta a história de um milagre
A profunda ligação da imagem milagrosa com o lugar levou à construção do mosteiro, no Século XVIII. Desde então, marujos de todo o mundo passam por aqui, pedindo proteção contra os caprichos do mar.

Os que não conseguem chegar a Panormiti contam com o encanto das águas para apresentar seus pedidos ao Arcanjo: mensagens encerradas em garrafas, atiradas ao mar nas mais diversas latitudes, boiam  até chegar à prainha em frente ao mosteiro. Muitas delas estão expostas no pequeno museu que funciona ao lado da igrejinha do lugar.

Também acendi minha velinha para o Arcanjo
O campanário e a decoração do teto do portal que dá acesso ao mosteiro
Desde criança, sou fascinada por ex-votos. Nas primeiras sextas-feiras de cada mês, quando minha mãe me levava à Igreja do Bonfim, passava horas tentando decifrar as histórias de cura, salvação e amparo contadas pelos traços ingênuos das pinturas ou contidas nas figuras de cera que reproduziam partes do corpo livres de alguma doença pela intervenção divina.

Meu ateísmo precoce perdia feio para a mágica daqueles relatos cifrados, diálogos entre os agraciados e o milagreiro, que eu esquadrinhava com a curiosidade que não me fez devota, mas que talvez tenha me feito jornalista.

O encanto que encontrei na sala de ex-votos do Mosteiro de Panormiti me devolveu à infância. São centenas de representações de barcos salvos das vagas furiosas das tempestades, dos rochedos traiçoeiros e de piratas perversos pela intervenção do Arcanjo Miguel. O museu do mosteiro também exibe peças sacras bizantinas, manuscritos e pinturas.

O museu exibe ícones bizantinos e manuscritos antigos
Essas representações do Cristo morto, muito antigas,
 estão entre os tesouros do museu do mosteiro 
Prestei meus respeitos ao Arcanjo (sim, eu fiz um pedido e vou voltar a Panormiti para agradecer) e tratei de relaxar um pouquinho no adorável pátio interno do mosteiro, admirando a decoração do campanário da igreja, com seu jeitinho de bolo confeitado. O pátio tem um requinte que só a simplicidade permite: o piso em choklákia — o mosaico típico do Dodecaneso, feito com pedrinhas brancas e pretas — e muitos, muitos vasos com pezinhos de manjericão, que perfumam o ambiente de um jeito encantador.

O campanário parece um bolo confeitado
O pátio do mosteiro é tão agradável
que mais parece um local de lazer,
não de vida monástica
Manjericão e choklákia
Depois, foi só esperar o apito do ferry, chamando para mais uma hora de navegação, rumo a Gialós.

Dicas práticas
Navegar é um dos prazeres da Grécia
O salão de passageiros do
Panagia Skiadeni
O passeio a Panormiti costuma ser combinado com a visita à Vila de Sými (Gialós), com partidas diárias de Rodes. A escala na enseada dura cerca de uma hora. 

Se quiser ficar mais tempo, a hospedaria do mosteiro tem capacidade para 500 pessoas, geralmente peregrinos que vêm fazer e pagar promessas ao Arcanjo Miguel. Ao lado da entrada do mosteiro, um restaurante serve frutos do mar muito tentadores.

Para quem já está em Sými, há transporte regular para Panormiti, tanto de barco como pela estradinha sinuosa que corta as montanhas.

O convés superior do Panagiá Skiadeni, embarcação que me levou de Rodes a Panormiti e à Vila de Sými. Á direita, o reembarque, depois da visita ao mosteiro
O cais de Panormiti
Além do museu, não deixe de visitar o interior da igreja para ver as belas pinturas que recobrem todas as paredes e o ícone do Arcanjo Miguel, recoberto em prata (essa parte não pode ser fotografada).

É preciso usar roupas "decorosas" (mulheres precisam estar de saia). Para resolver a indumentária da maioria dos visitantes, geralmente trajados para o banho de mar, funcionários distribuem uma espécie de canga, usada para cobrir os ombros ou enrolar na cintura, cobrindo os joelhos.  

Para ver a igreja, é preciso pagar uma contribuição de €2. Em troca, o visitante recebe duas velinhas, um "santinho" reproduzindo o ícone do Arcanjo e um frasquinho de óleo bento, proteção para os navegantes.

Dicas para organizar uma viagem à Grécia


A Grécia na Fragata Surprise:



O Panagiá Skiadeni atracado em Panormiti
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