quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Grécia e Turquia:
Confesso que comi

Jantar no Mercado de Rodes. Polvo e mexilhões inesquecíveis
O leitor da Fragata deve estar estranhando o pouco que falei de comida nos posts sobre a Grécia e a Turquia. O silêncio (só falta de tempo para escrever) até andou dando margem a interpretações totalmente injustas com a maravilhosa culinária dos dois países — imagina se eu, que fico inventando desculpas para ir a Sampa, só para comer no Acrópole, iria desgostar de comida grega saboreada in loco...

Pois saibam, leitores, que minha passagem por aquelas bandas do mundo foi uma tremenda festa para o paladar. Uma festa de simplicidade, celebrada muito mais nas feiras, mercados, barraquinhas de rua e em restaurantezinhos quase anônimos (às vezes, até sem placa na porta).

Frutas fresquíssimas: o melhor café da manhã
Mercadinho em Hidra, no Arquipélago Argo-Sarônico
Algumas das melhores lembranças de viagem (cheiros e sabores, por exemplo) não podem ser reproduzidas num blog. Ainda assim, e tentando ser objetiva, listo a seguir as memórias gastronômicas mais gostosas que trouxe da Grécia e da Turquia. Olha só:


Mesinhas na calçada, cafés charmosos... O da esquerda fica em Nafplio, o da direita, no bairro de Pláka, em Atenas
Panqueca Turca
Tão bom quanto o sabor desse crepe finíssimo, sempre acompanhado por algum tipo de carne ensopada e bem condimentada, é apreciar sua preparação. A massa é assada sobre uma superfície abaulada, de cobre, uma espécie de grelha, colocada sobre um braseiro. Com um rolinho de madeira, a massa é esticada até ficar quase transparente.


Preparação da panqueca turca em um restaurante (à esquerda) e barracas de iguarias no Bazar Egípcio de Istambul 

Dönner Kebab
O famoso "churrasco grego" é presença incontornável nesta lista, até porque as barraquinhas da iguaria estão por toda a parte, tanto na Grécia quanto na Turquia (os turcos, aliás, reivindicam a paternidade do churrasquinho, que em terras helenas é chamado de giros).

A favor do kebab, diga-se que naquelas latitudes ele tem aparência, cheiro e sabor muito mais respeitáveis do que os encontrados nas lanchonetes do Centro de São Paulo e naquele pedacinho do Quartier Latin, em Paris, chamado de "Petit Athenes"— e que deve ser o único lugar da capital francesa onde se come miseravelmente mal...

Até dá para comer nas barraquinhas da Praça de Sultahahmet, em Istambul, mas aceitar o tomate e a alface expostos àquele calorão foi muita imprudência...
Pessoalmente, tenho lembranças conflitantes do churrasquinho. Fico dividida entre o exemplar que quase me mandou para o túmulo, comido na Praça de Sultanahmet, em Istambul (também, aceitar tomate e alface conservados fora da geladeira, naquele calorão...) e o respeitável churrasquinho servido pela lanchonete Giros, na praça principal de Nafplio, um lanchinho-que-valia-por-um-bifinho, por módicos € 2,5.

Lukum ou turkish delight
Gregos e turcos jamais vão chegar a um acordo sobre
 a paternidade dessa balinha de goma
A balinha de goma, mais conhecida no ocidente como turkish delight (ou delícia turca), também é reivindicada como iguaria local nas Ilhas do Dodecaneso, em mais uma daquelas disputas intermináveis entre gregos e troi..., quer dizer, entre gregos e turcos.

Fora a grafia (em grego, a palavra é transliterada como lokoum), não há muita diferença no preparo. Feito de amido e açúcar, perfumado com limão (hummm), romã (ahh), laranja (êêê), tangerina (humm ao quadrado) e outras frutas, muitas vezes incrustado com nozes, amêndoas ou pistaches, o lukum é a prova definitiva que uma simples jujuba pode ascender a píncaros gastronômicos que não são deste mundo.

Barraca especializada em lukum, no Bazar Egípcio de Istambul
Ainda me resta meia caixa de balinhas (com limão!!!), comprada no Mercado de Rodes. Tenho economizado tão direitinho que creio estar habilitada a administrar um racionamento pós hecatombe nuclear...


Na Grécia, come-se bem demais até em restaurantezinhos simples e anônimos. Esse fica em Nafplio, bem ao lado de uma antiga fonte otomana
Giouvetsi
É por causa de obras como essa que os gregos são os gregos (o Parthenon ajuda um pouquinho na reputação, claro, rsss). O ensopado de carneiro, frango ou carne de boi, generosamente enriquecido por um molho de tomates perfumado com canela, vem acompanhado de uma massinha de grano duro, os kritharaki, com o formato e o tamanho de um grão de arroz. Um luxo...

Giouvetsi (à esquerda) e tatziki, uma misturinha tão gostosa
 que até quem odeia pepino adora
Tatziki 
É tão bom, mas tão bom, que mesmo quem detesta pepino, como eu, não consegue resistir. É um clássico grego, facílimo de fazer em casa (mas fica melhor saboreado aos pés da Acrópole): iogurte (de leite de ovelha ou de cabra, de preferência) com pepino, cortado em cubinhos, e um temperinho de alho, sal, azeite, pimenta e endro.


Barraca de doces no Bazar Egípcio, em Istambul
Restaurante com mesinhas ao ar livre em Istambul
Ahtapot 
O polvo grego é excelso, mas o polvinho turco, servido como mezze (porções, como as tapas espanholas) também bate um bolão. Super macio, com temperinhos muito familiares (aos baianos, pelo menos), como salsa e coentro, sempre na medida certa, azeite de oliva... Hummm.

Pilaki 
Outra simpática opção de mezze turca:  feijões bracos cozidos, servidos sem caldo, quase uma saladinha.

Bem ao lado dos imponentes portões do Palácio de Dolmabahçe fica um café (à direita) que tem vista matadora para o Bósforo e serve um flã de fazer qualquer um levitar
Flan de leite e amêndoas
Simples e sublime, essa sobremesa turca. Depois de experimentá-la, no Tower Clock Café, nos jardins do Palácio de Dolmabahçe, achei que a única homenagem à altura seria atravessar o Bósforo a nado.

Chá de maçã
Taí um aroma que vou guardar para o resto da vida como uma das melhores memórias da Turquia.

Pudim de arroz 
Geladinho e aromatizado com baunilha, cardamomo e sabe-se lá que outros engenhos, essa sobremesa turca simplesmente vale a viagem.

Não bastasse a vista para o Parthenon, o restaurante do Museu da Acrópole ainda serve uma comidinha grega de responsa
Almôndegas ao molho de limão
Com uma tremenda cara de comida da casa da avó, caldinho na medida certa e um arroz simplezinho, o prato, típico da Ilha de Lesbos, faz parte do cardápio do (bom) restaurante do Museu da Acrópole e agrada em cheio pela sutileza dos condimentos.

Placa de um café na Ilha de Spétses, no Arquipélago Argo- Sarônico (esq) e um restaurante à beira mar, em Monemvasia, Peloponeso
CaféA Grécia tem o menor consumo anual de álcool per capita da Europa e a bebida mais popular entre os gregos é o frapê, um café com leite cremoso e gelado. Eu acho café frio (e com leite) uma violência, mas gostei bastante do equivalente ao nosso cafezinho, tanto na Turquia quanto na Grécia, forte e saboroso.

Esse cafezinho é preparado sem coar, direto no recipiente onde será servido. Na Grécia, é mais comum o uso de xícaras. Na Turquia, em geral, o café é servido em copinhos de vidro, muito coloridos e delicados. Como o café não é coado, sempre se pergunta antes do preparo se queremos ou não açúcar, que é acrescentado durante a feitura da infusão, pois a bebida não pode ser mexida, para não espalhar o pó do café que se assenta no fundo do recipiente.

Vinho Malvasia 
Faz parte da alma de MonemvasiaMalvasia é o nome italiano dessa preciosa vila do Peloponeso, um lugar tão lindo que só de vê-lo a gente sente que a nossa existência está plenamente justificada. Saboreado à beira mar, enquanto nossos olhos não conseguem desgrudar do rochedo que abriga a cidade medieval, desbanca o néctar e a ambrosia facinho, facinho...

Um cálice de Malvasia à beira mar ou uma dose de Metaxa,
 que ninguém é de ferro :)
Metaxa
Eu tenho mania por esse brandy grego há muito tempo, especialmente pelo sete estrelas, mais delicado e à altura de um bom conhaque. Certa vez, encontrei um maluco em Berlim que dizia que a gente tem que tomar uma dose para cada estrela. E nem tive ressaca, no dia seguinte. Experimentar o velho Metaxa na Grécia fez o bichinho ficar ainda mais gostoso.

Doce de amêndoa 
Outra especialidade de Monemvasia, com uma consistência um pouco mais dura que a do doce de leite. Perfumado, suavemente temperado e totalmente de rasgar a roupa.

Kataief e baclava: a humanidade pode escapar do juízo final só alegando ter inventado esses doces
Baclava, kataief, ekmek kataief... 
Melhor que entrar na briga sobre a nacionalidade dessas delícias, reivindicadas tanto pelos gregos quanto pelos turcos, é fazer um campeonato para decidir onde se come o melhor exemplar de cada um. Por causa deles, quase tive que voltar pra casa no compartimento de cargas do avião, mas tendo a crer que a melhor baclava que provei foi a de uma lojinha do Bazar Egípcio (ou Bazar  das Especiarias), em Istambul. O melhor kataief, sinceramente, não consegui decidir qual foi (e não foi por falta de teste...).

Já o Ekmek Kataief, não tenho dúvidas: o mais arrebatador foi o da Confeitaria Xátzi que tem algumas filiais em Atenas e, só de pirraça, inventou de colocar uma bem na Rua Metropoleous, quase em frente ao Hotel Arethusa, onde eu estava hospedada. Do doce, simplesmente escandaloso, já falei em outro post e até publiquei uma fotinha do bonitão. Vá lá conferir. Aposto que você vai sair correndo para pegar o avião...

O ekmek kataief da Confeitaria Xátzi, em Atenas (esq) e essa massinha emaranhada, frita, e cheia de gergelim e pistache que eu comi no caminho para Meteora
Marzipan com Laranja 
Bem do lado do meu hotel, em Nafplio, tem uma confeitaria simplesmente inacreditável. Não bastassem as baclavas e os kataief delicadíssimos, a especialidade da casa é uma espécie de alfajor feito com marzipan, recheado com doce de casca de laranja (quase desmanchando, de tão cozido) e recoberto com açúcar de confeiteiro. Espetacular.

Kleftiko
Sou suspeita, porque adoro carneiro, mas amei esse prato, um ensopado preparado com batatas, tomates, ervilhas e queijo feta, acrescentado no finalzinho do preparo e que chega à mesa quase desmanchando, por conta do calor. Provei em um restaurantezinho de Pláka, em Atenas.

Kleftiko, ou ensopado de carneiro, para os íntimos
Tsargana - Provei esses peixinhos na Ilha de Hidra, no Arquipélago Argo-Sarônico. Parece peixe agulha, com o sabor mais parecido com o de uma boa sardinha. Fritinhos, com bastante limão, são de arrasar.

Os figos do velhinho
A primeira vez que encontrei o meu freguês dos figos, eu estava esperando o pôr do sol no Porto de Mandráki, em Rodes. O que me chamou a atenção foi o tom de angústia que havia na voz dele, mercando as frutas. É um senhor já de bastante idade, que vem todos os dias de uma aldeia para vender a produção de sua terrinha.

Ele fala pouquíssimo inglês, mas acabei entendendo que, com a crise grega, era o produto dessa venda que vinha garantindo o mínimo indispensável na casa dele, onde acolheu dois filhos desempregados. Apesar da história triste, as frutas eram muito doces, perfumadas e suculentas. Eram minha festa de final de tarde.


A vitrine de perdições da Xátzi, em Atenas
Dicas para organizar uma viagem à Grécia

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2 comentários:

  1. Por favor, Fragata Sunrise é um Cruzeiro lá na Grécia? ou o nome do site? não entendi muito bem. Pergunto pq vamos para Grecia em 03 casais, em OUT/17, e estamos um tanto perdidos no eu fazer...

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