quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Rodes, a cidade dos Cavaleiros

A Porta d'Amboise, acesso Leste à cidadela de Rodes. 
Esta ponte cobre um largo fosso,
 que separa o cinturão externo das muralhas dos bastiões internos
Por mais que eu tente me comportar como uma mocinha, tem horas que é difícil: quando dei de cara com as muralhas da Cidade Medieval de Rodes, a primeira coisa que me escapou foi um palavrão — daqueles de fazer corar frades tão de pedra quanto o colosso diante de mim. E olha que Istambul e Atenas já haviam me adestrado um bocado nas artes de não perder a compostura frente a maravilhas.

Essa esplanada fica entre o cinturão externo das defesas
 e a Porta da Marina, que dá acesso à cidade
Voltando ao palavrão, ou melhor (muito melhor, pois desconfio que minha mãe lê este blog), voltando ao meu espanto: eu não tinha visto nada, ainda. Quando cruzei a Porta de São Paulo, estava apenas transpondo a primeira linha das defesas de Rodes, um cinturão externo de muralhas e bastiões que começa a nos dar uma ideia do motivo de esta ter sido considerada a mais inexpugnável das cidadelas cristãs, no Século XVI.

A Porta de São Paulo: do alto da muralha, 
a vista para o mar muito azul e um por do sol inesquecível

Os quatro quilômetros de muralhas e 11 portas ajudaram a repelir ataques e desestimularam intenções de conquista por mais de mais de dois séculos. No assédio final, resistiram seis meses inteiros ao implacável cerco otomano, defendidos por apenas 650 cavaleiros da Ordem de São João. Quando os hospitalários se renderam, em dezembro de 1522, eram apenas 180 sobreviventes. Suleiman II, o sultão que comandou a conquista, deixou-os partir em paz para Malta — atitude bem diferente da adotada pelos ocidentais, que aplicavam pilhagens e massacres sempre proporcionais à resistência dos vencidos.

Depois de atravessar a Porta de São Paulo, vencendo
 o primeiro cinturão de muralhas, era preciso transpor
 o Portão da Marina, antes de entrar na cidade
Rodes não foi pilhada nem destruída. Ao contrário, e para nossa sorte, foi muito bem tratada pelos otomanos, que a adornaram com novas construções. A marca mais forte da cidade, porém, ainda é a herança deixada pelos cruzados.

Logo após a porta de São Paulo, onde as muralhas são um privilegiado camarote para se contemplar o azul do Egeu, fica a formidável Porta da Marina, que dá acesso à cidade. Depois do sossego da esplanada entre as muralhas, Rodes parece ferver no tumulto do comércio da Rua Socratous, o coração do antigo bazar turco. Letreiros, toldos, mesas e mercadorias se esparramam sobre fachadas e calçamento seculares, numa poluição angustiante. Os enormes grupos de turistas, desembarcados dos navios de cruzeiro, parecem não ligar muito para o tumulto.

A cidade medieval, no interior das muralhas
Enquanto eu procurava uma rota de fuga da muvuca da Plateia (praça) Ippookratous, quase fui atropelada pelos convivas de um casório. Todos enormes, uniformizados com camisetas de uma agência de turismo e naquela animação tonitroante de quem já caiu na vodka (às dez da manhã!!).

A fonte medieval na Plateia Ippokratous, passagem obrigatória para quem chega pela Porta da Marina  (só não me perguntem como é que alguém consegue disposição para casar naquele calorão...)
O calor de 35 graus estava derretendo meu meio século de praia, mas não parecia fazer nem cócegas naqueles eslavos, corados feito bebês. A noivinha, então, parecia ter saído de uma página de revista, nem uma gotinha de suor para conspurcar a maquiagem. Depois eu descobri que está na moda casar em Rodes, embora o cenário preferido sejam as casinhas brancas da Vila de Lindos.

A Rua dos Cavaleiros se estende desde a parte baixa da cidade até o Palácio dos Grãos Mestres, no alto de uma colina. Nesta rua, divididos por idioma, ficavam os alojamentos dos cavaleiros hospitalários. Os edifícios mais conservados são o italiano e o francês
Diferente da maioria das cidades medievais, o traçado de Rodes surpreende pelas linhas retas, herança da ocupação grega iniciada aqui há mais de quatro mil anos. Uma curta caminhada para a esquerda da praça leva até a Rua dos Cavaleiros (Odós Ippotón), impressionante conjunto de edifícios góticos destinado aos alojamentos dos membros da Ordem dos Hospitalários. Ao longo e 250 metros estão dispostas as fachadas austeras das hospedarias, onde os "monges combatentes" se dividiam por idiomas.

O antigo Hospital dos Cavaleiros, do Século XV, hoje abriga o Museu Arqueológico de Rodes. No acervo, peças dos períodos Clássico e Geométrico, além de lápides dos cavaleiros da Ordem de São João
No topo da Rua dos Cavaleiros, essa arcada monumental
 dá acesso ao pátio de entrada do Palácio do Grão-Mestre
Detalhe da fachada de um dos alojamentos da Rua dos Cavaleiros
As hospedarias dos franceses e dos italianos estão abertas à visitação, com pequenas exposições artísticas, mas o que vale mesmo é ver as construções por dentro, seus pátios e escadarias de pedra. Assim como o imponente Palácio dos Grãos Mestres, no alto da ladeira, todos esses edifícios foram severamente danificados após perderem seus ocupantes originais. No Século XIX, pouco restava de seus pavimentos superiores. Durante a ocupação italiana da ilha, no início do Século XX, os prédios foram reconstruídos.

O palácio do Grão Mestre da Ordem dos Cavaleiros de São João
Da construção original do Palácio dos Grãos Mestres da Ordem dos Cavaleiros Hospitalários, do Século XIV, resta apenas o pavimento térreo. O edifício foi severamente danificado pela explosão de um paiol de pólvora, no Século XIX. O que se vê hoje (impressionante, sem dúvida), é fruto de uma reconstrução inspirada no, digamos, voluntarismo do ditador fascista Benito Mussolini.

O pavimento superior do palácio foi reconstruído
 no início do Século 20

Convertido em museu, o palácio dos Cruzados tem uma rica coleção de peças, como esses mosaicos da Ilha de Cós




Hoje, o palácio abriga um museu imperdível, com achados arqueológicos das antigas ocupações existentes na ilha e objetos pertencentes aos cruzados. Lindíssimos são os mosaicos encontrados na Ilha de Cós e trazidos para cá durante a restauração.

A Oeste do Palácio, na direção da Porta d'Amboise, fica a parte mais sossegada da cidadela. Árvores de copas generosas tornam a caminhada ao longo das muralhas muito mais agradável. A ausência de bares e restaurantes restringe a muvuca. Não deixe de ver o larguíssimo fosso que separa o cinturão externo das defesas das muralhas interiores.


A Oeste do palácio fica a parte mais gostosa
da cidade medieval, sossegada e arborizada



O fosso Oeste da cidadela Medieval
A Grécia na Fragata Surprise
Atenas

O exterior das muralhas de Rodes
Dicas gerais


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