sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Robert Plant ao vivo:
The heart remains the same


Em 1973, eu era uma garota míope e magricela, de 12 anos de idade, que colocava a calça US Top de molho na água sanitária, tentando reproduzir aquele desbotado que os jeans só ganham de verdade com muitos e muitos quilômetros de estrada. Minha literatura preferida era a Revista Pop, publicação que dava aos adolescentes da época um vislumbre de um mundo distante, onde não havia repressão, censura ou aula de Educação Moral e Cívica.


Em 1973, a ditadura militar parecia ter vencido. Para os fedelhos de então, ouvir Rock’n’Roll no máximo volume permitido por nossas radiolas Phillips era o máximo de transgressão possível. O Brasil ia mal, fora do meu “quarto de som”, território livre construído em cima da garagem da casa dos meus pais, onde a molecada do bairro se reunia para descobrir as novidades sonoras. Lá dentro, porém, íamos treinando para virar rebeldes, questionadores, irreverentes.

A capa do Houses of the Holy
Pois foi em 1973 que meu coração parou por alguns segundos, ao som de um agudo de Robert Plant. O disco era Houses of the Holy — nem é o melhor disco do Led Zeppelin, mas eu ainda não sabia disso — presentaço que meus pais trouxeram do Rio de Janeiro pra mim, (junto com o The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd. Como é que eu ia crescer sem ter com quem me revoltar?).

Quando eu coloquei a agulha da vitrola sobre o vinil, restavam apenas um minuto e 27 segundos — o tempo entre a a primeira pancada de Jimmy Page nas cordas da guitarra, no solo de introdução da primeira faixa (The song remains the same, ou "a canção permanece a mesma"), e a entrada de Plant nos vocais  — para me despedir da menininha e virar roqueira de uma vez. Vocês não fazem a menor ideia de como eu sonho em experimentar aquela sensação de novo...



Estou falando tudo isso porque ontem (25/10)  eu fui ver o velho Robert, que se apresentou aqui em Brasília. Fui sem grandes expectativas , depois de ler as críticas gélidas publicadas na imprensa, após os primeiros shows da turnê no Brasil. E não é que o filho da mãe me fez cair do cavalo outra vez, como em 73?

O que eu assisti no Ginásio Nilson Nelson foi um grande show de Rock'n'Roll. É verdade que Plant não atinge mais aqueles agudos que dilaceravam minha alma  — e aquele corpinho de deus viking foi levado pelo tempo  —, mas who cares? O fundamental está todo lá: uma voz privilegiada, a emoção roqueira em cada nota e a paixão pela busca de outras sonoridades, que tanto enriqueceu o som do Zeppelin.



Melhor: o horizonte de Plant hoje vai muito além do experimentalismo de inspiração "druídico/galesa" para ir buscar na África e no Oriente os timbres que temperam lindamente a base simples, pura e inimitável do blues.

Como ele e Page já tinham feito no primoroso Unledded, show que assisti, arrepiada, no Hollywood Rock de 1997, no Rio (o disco com o repertório dessa turnê, No Quarter, toca pelo menos uma vez por semana, aqui em casa). Fora que emendar Whole Lotta Love com Who Do You Love (de Bo Diddley) é revelar o óbvio que ninguém enxergava, tipo covardia, mesmo.


Com oito canções do Zeppelin (a maioria com arranjos bem diferentes dos originais), Plant também fez a festa de quem foi apenas em busca de um reencontro com um sobrevivente da banda. Showzaço, daquele para soltar todos os bichos.
Hoje eu não preciso mais colocar o jeans de molho na água sanitária. São décadas de estrada, muito bem vividas. Graças a momentos como os de ontem, porém, eu posso dizer sem susto: meu coração permanece o mesmo.


Veja o que Robert Plant cantou em Brasília             
1- Tin Pan Valley
2- Another Tribe
3- Friends
4- Spoonful
5- Somebody Knocking
6- Black Dog
7- Song to the Siren
8- Bron-Y-Aur Stomp
9- Enchanter
10- Four Sticks
11- Ramble On
12- Fixing to Die
13- Whole Lotta Love
14- Who do you Love?
Bis
15- Going to California
16- Rock And Roll

E confira 20 segundinhos do show em vídeo (tá meio tremido, porque eu estava dançando...)

video



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2 comentários:

  1. Eu também assisti a esses shows, mas em São Paulo: 1994 (Plant) e 1996 (Plant & Page) no Hollywood Rock, 2012 (Plant) no Espaço das Américas. Um post como esse me emociona, parabéns!

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