sábado, 20 de outubro de 2012

Meus motivos para amar Atenas

O Parthenon já valeria a visita. Mas Atenas é mais, muito mais...
Quase meia noite e eu vinha voltando a pé para o hotel, percorrendo as ruas estreitas e já quase desertas de Pláka, o bairro mais antigo de Atenas. Tinha acabado de assistir Para Roma com Amor, de Woody Allen, no Cine Paris, deliciosa “sala” de exibição que funciona num terraço ajardinado, com direito a cheiro de jasmim e vista para a Acrópole. Vinha respirando aquela felicidade rara que brota das sutilezas e agradecendo intimamente por jamais ter sido prevenida sobre a cidade maravilhosa que eu encontraria em Atenas.

A Biblioteca de Adriano, na Ágora Romana. Lá no alto, Acrópole
Porque esse encontro eu devo exclusivamente à minha teimosia. Se tivesse seguido os (muitos) relatos de viajantes que circulam na internet, teria resumido a minha passagem pela capital grega ao mínimo necessário para ver seus principais sítios arqueológicos e museus. Hoje, refletindo sobre as razões do silêncio sobre os encantos da cidade, só posso atribuí-lo ao desejo de cada visitante de guardar Atenas só para si.

Na área próxima ao Thisio, as encostas da Acrópole 
são muito verdes e cheias de pequenas maravilhas
O Odeon de Herodes Atico (esq), do Século 2 d.C. Esse teatro romano chegou a ser incorporado às muralhas de Atenas, mas foi escavado, no Século 19, e voltou a abrigar espetáculos. À direita, a Torre dos Ventos, na Ágora Romana, em Pláka
Cidades especiais costumam ter um narizinho empinado que pode intimidar visitantes mais tímidos. Paris, por exemplo, tem o tipo de beleza que nos olha de cima. Exibe suas maravilhas com pompa e um certo arzinho de mofa ante o encantamento escancarado dos turistas.

Atenas é o contrário disso: a cidade tem um jeito franco, acolhedor, sem pedestais ou trombetas — você vem andando pela rua e tromba com ruínas de dois mil anos de idade, como se fosse a coisa mais normal do mundo elas estarem ali.

Jardim de uma casa, em Pláka
O melhor exemplo disso é a área do Thisio, pavimentada com mármores talvez milenares, cercada pelos bosques de pinheiros e ciprestes que sobem as encostas da Acrópole e do Pnyx (rocha que "apenas" acolhia as assembleias da primeira democracia do planeta) e pontilhada por pequenas preciosidades, como os restos de um mosaico, vestígios de um templo de Zeus ou colunas elegantes entre as árvores.

Decoração de telhado típica dos bairros de Pláka, Thisio e Monastiráki
A ausência de afetação é tanta que a gente esquece que está caminhando entre maravilhas — e corre o risco de fazer como os atenienses, que aproveitam a temperatura mais amena da região para um footing despreocupado, no anoitecer de verão, mais atentos a suas casquinhas de sorvete do que ao Parthenon, que nos olha lá de cima.

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Cidades maravilhosas, em geral, têm cara de sala de visitas. Atenas não. Ela tem um certo ar de terreiro de fazenda, de varanda, uma simplicidade de quintal que nem seu trânsito infernal e o vai e vem de seus três milhões de habitantes conseguem perturbar. Uma metrópole que não cheira a fuligem, mas a manjericão, a jasmim e a pinho. Onde as portas das casas parecem dar direto para a rua, sem antessalas, corredores ou mordomos.

Plateia (praça) Monastiráki, coração de um dos bairros mais simpáticos de Atenas
Cidades espetaculares costumam ser caras. Em Atenas, a gente se hospeda por €50 em hotéis infinitamente melhores que os de €80 ou €90 de Veneza, até os restaurantes pega-turistas servem refeições decentes (por menos de €10) e a entrada nos museus de primeira linha (de rasgar a roupa, como o da Acrópole e o de Arqueologia) custa pouco mais que a metade do ingresso de seus correspondentes em outras cidades badaladas da Europa. 

As preciosidades de Atenas estão por toda parte, sem pedestais nem trombetas, como esses vestígios arqueológicos no jardim da Igreja de Santa Catarina, em Pláka (esq). À  direita, um pátio no bairro de Anafiótika
Na capital grega, o requinte gastronômico tem o gosto de comida da casa da avó. Por exemplo, moussaka: fatias de batata e berinjela, arrumadas como numa lasanha, e entremeadas com carne moída ao molho de tomate.

Isso sem falar nas lulas, polvos, sardinhas, carneiros e, claro, salada grega: tudo muito saboroso e sem frescuras. A comida grega vai direto ao ponto, não desliza em cascatas, não se esconde em nuvens nem espumas. 

O Ekmek Kataifi e, à direita, uma baclava gigante. Os doces gregos são maravilhosos
Se o capítulo salgado da culinária grega é em linha reta, os doces são rococós. A combinação de sabores e texturas, as caldas de mel, os cheiros de especiarias, o visual sofisticado... Quase hipnóticos, semi-alucinógenos, voluptuosos, sensuais.

Qualquer um que experimente uma porção de Ekmek Kataifi vai saber do que estou falando. É uma  massa delicada, feita de amêndoas, embebida em calda de açúcar temperada com limão e canela. A cobertura é uma espécie de chantili sem açúcar, feito de leite de búfala. O requinte de crueldade é o pistache moído, polvilhado por cima disso tudo. 

Francamente, não sei onde os deuses estavam com a cabeça quando chancelaram o néctar e a ambrosia como menu oficial do Olimpo, em detrimento do Ekmek Kataifi...

Em que outro lugar do mundo a gente sai do metrô e dá de cara com a Acrópole?
(Estação de Thisio, Linha Verde)
Só numa coisa Atenas é igualzinha a todas as outras cidades maravilhosas do planeta: ela vive lotada de turistas. E é isso que me intriga. Por que a internet não está abarrotada de relatos apaixonados pela capital grega? Talvez porque a maioria dos visitantes se limite a ver apenas os monumentos da cidade e rumar para as ilhas. Outros, talvez, não queiram concorrência.

 Tenho certeza que em algum lugar do mundo deve funcionar uma sociedade secreta — daquelas que têm estatutos e mantos com capuz — de adoradores de Atenas. Eles ficarão furiosos com este post e até peço desculpas se acabei com a brincadeira. Mas estou encantada demais para ficar de bico calado. 


Mais sobre Atenas
Hospedagem em Atenas
Dicas de transporte em Atenas e arredores
A Acrópole
O Museu da Acrópole 
A Ágora Antiga
O bairro de Thisio, um dos pedacinhos mais gostosos de Atenas
Cinema ao ar livre em Atenas (com vista para a Acrópole)
O Templo de Zeus Olímpico
Museu de Arqueologia de Atenas

A Grécia na Fragata Surprise
Cidade de Rodes: a memória dos cruzados e a herança otomana  


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6 comentários:

  1. Olá Cyntia, adorei o relato sobre Atenas, cidade que muita gente diz mal, mas que merece ser enaltecida ou não fosse ela o berço da civilização ocidental e da democracia, obrigada por partilhar momentos deliciosos que viveu em Atenas,

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  2. Texto excelente! Vai além do informativo. Voce conseguiu descrever com um entusiasmo que nos faz desejar viver a mesma experiência. Tem algo poético com um toque sarcástico. Adorei!! Também quero ir para Athenas!!! Parabéns!

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  3. Que graça de relato. É de emocionar e fazer a gente sonhar junto.

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    1. Olá, Cyntia; Confirmo a sua suspeita: existe sim, uma sociedade secreta dos admiradores apaixonados por Atenas - eu faço parte dela, assim como você.

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    2. Atenas merece, José Carlito :)

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