domingo, 6 de maio de 2012

Pampulha:
Quando o futuro não era careta

O Iate Clube, na Pampulha
Quem não gosta, que bata o pé e puxe os cabelos. Eu sou fã de carteirinha de Oscar Niemeyer. E não venham me falar da “falta de funcionalidade” dos edifícios projetados por ele: já trabalhei em alguns, sem queixas — fora o bônus de poder admirá-los, na pausa para o café.

Nesta visita a Belo Horizonte, fiz questão de ir ver com mais calma esse brilhante ensaio geral para a construção de Brasília que é o conjunto arquitetônico da Pampulha — uma Brasília idílica, que hoje evoca muito mais o lazer do que a minha correria diária na Capital Federal. A gente olha para aquela lagoa e já pensa em deitar na grama, pegar um livro e esquecer da vida.


A lagoa e os jardins de Burle Marx não fazem 
cerimônia para invadir os salões do Museu de Arte
As obras da Pampulha foram encomendadas a Niemeyer pelo então prefeito de BH, Juscelino Kubitschek, no bojo de um projeto de modernização da cidade — aliás, que saudade do tempo em que planejar expansões urbanas era muito mais do que sair correndo atrás das decisões da especulação imobiliária. 

Niemeyer chamou a galera — Burle Marx para o paisagismo, Ceschiatti para as esculturas, Portinari para os painéis — e nos legou um espaço que, ainda hoje, parece futurista.

O Museu de Arte da Pampulha, antigo Cassino
Detalhes do interior do museu
Enquanto o olhar acompanha as curvas da Igreja de São Francisco e da Casa do Baile e se deleita com o verde que invade o Cassino — hoje Museu de Arte — pelas generosas vidraças, é inevitável uma certa nostalgia: o futuro proposto por Niemeyer, na Década de 40, parecia tão mais moderno, ousado e instigante do que essas barbaridades que andam plantando por todo canto nas nossas cidades...

A Casa do Baile


A escultura de Alfredo Ceschiatti deu muito o que falar
O projeto original do Iate Clube — o prédio avançava sobre as águas da lagoa, como um veleiro zarpando de um porto — foi adulterado por aterros que deixaram o barco imaginado por Niemeyer bem plantadinho no chão, vítima da mesma falta de imaginação que hoje mutila Brasília.


A paisagem da lagoa, com a Casa do Baile em destaque (à direita)
Na Capital Federal, as áreas de pilotis dos blocos residenciais, concebidas para se integrarem ao verde das quadras, andam cada dia mais sitiadas por grades, portarias e cercas vivas. O cobogó — solução simples, barata e criativa — agora é uma espécie em extinção, substituído pela moda das esquadrias de alumínio e das “fachadas em cerâmica”. 

Dizem que são “os novos tempos”. Francamente, acho que já houve tempo em que o futuro era bem menos careta. 

A igrejinha de São Francisco
É verdade que a ousadia da Pampulha não chegou a ser aclamada pelo público dos Anos 40. A maior polêmica foi em torno da Igreja de São Francisco, considerada a obra prima do conjunto arquitetônico.

Suas linhas, nada convencionais para um edifício religioso, provocaram a fúria dos conservadores, especialmente a torre, que parece "apontar" para o chão. Inaugurado em 1943, o prédio só recebeu o aval da Igreja Católica para funcionar como templo em 1958. 

Os mosaicos laterais da igrejinha são de Paulo Werneck

A "torre invertida" e as curvas ousadas do templo irritaram a cúpula de igreja católica, na época da inauguração
Outro bafafá foi provocado por uma das esculturas de Ceschiatti para os jardins do Cassino: um beijo trocado entre duas mulheres nuas, que escandalizou a sociedade mineira. Não consta, porém, que tenha havido atos de vandalismo contra qualquer das obras. 

Painéis de Portinari na igrejinha da Pampulha. O São Francisco, pra mim, é a cara do personagem de Henfil
Acho a igrejinha da Pampulha uma das obras mais lindas de Niemeyer. Adoro suas curvas — seriam as ondas do mar ou as montanhas? — e simplesmente babo com os painéis de Portinari. (Cá pra nós, sempre jurei que Henfil se inspirou no São Francisco do pintor paulista para rabiscar o Fradim Cumprido, doce contraponto ao sarcasmo do meu ídolo maior, o Baixim).

Mesmo quem não é apaixonado por arquitetura modernista tem muito o que fazer na Pampulha, um espaço que o belorizontino aproveita para caminhar, pedalar ou simplesmente ver as garças desfilando de um lado para o outro, na orla da lagoa.

A Lagoa da Pampulha
Esse pequeno paraíso só tem um defeito -- que, coincidência ou não, também é a cara de Brasília. É muito difícil circular aqui sem automóvel. Chegar de ônibus até que é fácil. Complicado é se deslocar de um prédio para o outro. O perímetro da lagoa é de 18 quilômetros e os prédios ficam distantes uns dos outros, tornando o carro fundamental.

Parque e Conjunto Arquitetônico da Pampulha

Igreja São Francisco de Assis
De terça a sábado, das 9 às 17 h. Domingo, das 9 às 13h


A igrejinha de São Francisco foi o último edifício a ser inaugurado na Pampulha e Niemeyer realmente caprichou na bichinha, considerada uma pequena revolução arquitetônica pela ousadia do autor no emprego do concreto armado. 

Portinari assina os famosos painéis de azulejo que revestem o exterior do edifício, representando cenas da vida de São Francisco de Assis. Também são dele os 14 painéis da Via Crúcis que estão no interior da igreja. 


Os jardins em torno da igreja são, naturalmente, de Burle Marx. Outro parceiro recorrente de Niemeyer, Alfredo Ceschiatti, é o autor dos baixos-relevos que adornam o batistério. Os mosaicos geométricos na lateral do edifício são de Paulo Werneck.

Museu de Arte da Pampulha 
De terça a domingo, das 9 às 19h

A antiga boate do cassino
Projetado para abrigar o Cassino da Pampulha, é um dos mais espetaculares dos edifícios de Niemeyer que conheço. Escancarado para a exuberância do verde que o cerca, o prédio envidraçado faz seu interior brincar com os reflexos da lagoa, com a variação da luz do sol ao longo do dia e as tonalidades do céu, num diálogo incrível da geometria rigorosa de suas linhas e o desenho ana´rquico e sem régua da natureza lá fora.


O cassino, inaugurado com o resto do conjunto da Pampulha, em 1943, funcionou apenas três anos, até o jogo ser proibido no Brasil. O edifício ficou quase uma década sem uso contínuo, até a abertira do Museu de Arte, em 1956.

O acervo do museu tem obras de Guignard, Di Cavalcanti, Bruno Giorgi, Antonio Dias, Frans Krajcberg, Iberê Camargo, Tomie Ohtake e Volpi, entre outros artistas.

Os painéis acolchoados que circundam a antiga boate integram um engenhoso sistema de amplificação do som
Os jardins de Burle Marx são maravilhosos. Não deixe de ver a antiga boate e seu engenhoso sistema de painéis que direcionam o som, permitindo aos cantores da que aqui se apresentavam dispensarem os microfones. 

Casa do Baile
De terça a domingo, das 9 às 19h
Jardins, é claro, de Burle Marx
Usada originalmente para festas elegantes, hoje é sede Centro de Referência de Urbanismo, Arquitetura e do Design de Belo Horizonte. O edifício foi construído sobre uma ilha artificial próxima à margem da lagoa.Foi palco de noitadas animadas entre 1943, ano de sua inauguração, e 1948, quando foi fechada.


A construção circular, com uma marquise em curvas que avança para o jardim, é considerado um dos desenhos mais ousados da primeira fase de Niemeyer. Eu acho simplesmente encantadora.

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2 comentários:

  1. Cyntia, ficou lindo o skyline do blog!! Minha viagem a BH teria sido muito melhor com estas dicas! Mas não faltarão oportunidades...

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    1. Que bom que vc gostou, Nívia. BH é uma cidade muito bacana. Dá vontade de voltar sempre

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