domingo, 20 de maio de 2012

Ouro Preto: equilíbrio delicado

A Praça Tiradentes, a imagem mais conhecida de Ouro Preto, clicada dos jardins da Escola de Minas
Na última vez que tinha estado em Ouro Preto, em 2002, a cidade estava vivendo uma comoção. Um caminhão, carregado de cerveja para a famosa Festa do 12, tinha perdido os freios numa ladeira, colidindo e danificado gravemente um chafariz do Século 18. 

O acidente animou a polêmica sobre os danos que o tráfego de automóveis e veículos pesados provoca na cidade. No rastro do caminhão desgovernado, pipocaram denúncias de maus tratos ao casario colonial, especialmente sobre os "puxadinhos" construídos nos sótãos dos sobrados para abrigar quartos de pousadas. 
O patrimônio da cidade está sob constante pressão...
A comoção não acalmou as investidas contra os monumentos tombados. Em 2009, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional-Iphan contabilizava pelo menos uma centena de ações civis públicas na Justiça contra obras irregulares que mutilavam os edifícios e a paisagem histórica da cidade. A situação chegou a tal gravidade que a Unesco ameaçou com a cassação do título de Patrimônio da Humanidade, que Ouro Preto ostenta desde 1980 — a primeira no Brasil a ter esse reconhecimento. 
... enquanto a cidade cresce e se adensa
A maior parte dos visitantes vem à cidade apenas para passar o dia. A pouco mais de 100 quilômetros de Belo Horizonte, Ouro Preto fervilha, entre as 10 da manhã e as quatro da tarde, com os excursionistas disputando a vez de posar diante dos mais conhecidos cartões postais. A cacofonia dos guias de turismo no interior das igrejas exige concentração de iogue para admirar entalhes, curvas e imagens. A beleza, pensada para inspirar reflexão, vira mero objeto de consumo. 

A partir das 16 horas, porém, os ônibus de excursão começam a ir embora, o calor diminui e a luz dourada do cair da tarde começa a devolver às montanhas e às fachadas as cores de tempos menos acelerados.
No fim da tarde, a cidade sossega
A cidade não para, é verdade. Os bares e restaurantes daqui a pouco estarão cheios, grupos de estudantes farão alguma algazarra e uma balada pode até pipocar por trás das paredes de um centenário casarão.

Até as primeiras horas da manhã, entretanto, Ouro Preto oferece a possibilidade de brincar que ela está lá só para mim. É por isso que recomendo vivamente que os visitantes tentem dormir ao menos uma noite na cidade — todas as cidades coloniais ficam muito mais encantadoras à luz dos lampiões.


Quando o sol esquenta, Ouro Preto volta a se defrontar com seus dilemas. O turismo é uma atividade econômica essencial, mas nem sempre trata os tesouros da cidade com o devido carinho. Os empregos gerados pelo turismo e pela mineração fazem bem à economia, mas contribuem para a ocupação desordenada, a favelização e a degradação ambiental. Ônibus e automóveis trazem visitantes, mas danificam calçamento e paredes seculares, com sua trepidação. 

Ouro Preto continua linda, mas tem muitas equações delicadas a resolver. Encontrar o equilíbrio é tarefa do poder público e dos moradores. Mas os visitantes também podem fazer sua parte: nada de lixo no chão, um pouco mais de silêncio e um pouquinho menos de correria podem fazer milagres.

O desafio é encontrar o equilíbrio entre a atividade econômica do turismo e a preservação
(Detalhe da fachada da Casa de Câmara e Cadeia, hoje Museu da Inconfidência)
Os viajantes também podem contribuir tratando bem dos bens tombados, prestigiando empreendimentos que também cuidam do patrimônio histórico (sabe aquela pousadinha que o dono não mutilou com puxadinhos horrendos, e que, por ter menos quartos, cobra um pouco mais pela diária?), prestigiando a produção local, preferindo comprar artesanato, doces, queijos e outros produtos feitos na região, em vez dos industrializados.

Novas construções avançam sobre a edifícios seculares

Festa do 12
Ouro Preto tem uma longa tradição universitária. Em 1876, por determinação do imperador Pedro II, foi fundada na cidade a Escola de Minas, pioneira no estudo da geologia no Brasil. Em pleno ciclo do café — atividade econômica que desbancou a mineração do ouro — a escola pode ter sido decisiva para impedir que a antiga Vila Rica caísse no sono que tomou conta de outras cidades que deveram seu esplendor à exploração do minério.

Hoje, a cidade conta com mais de cinco mil estudantes universitários e suas centenárias repúblicas — cerca de 200, entre as pertencentes à Universidade e as particulares — continuam a ditar o ritmo boêmio de Ouro Preto. Cada uma tem sua festa, mas todas se reúnem numa grande celebração no 12 de Outubro, aniversário de fundação da Escola de Minas. A "Festa do 12" atrai estudantes do Brasil inteiro e esse autêntico Carnaval dura quase uma semana.

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Um comentário:

  1. hahaha reconhece a 1a foto desse meu post? http://taindopraonde.blogspot.com.br/2013/10/hospedagem-ouro-preto-tiradentes.html. Pois é, esse casarão na Rua Direita que vc tirou foto é justamente o hotel que fiquei em Ouro Preto!!! rs O hotel era bom mas já fomos sabendo que poderia ser muito barulhento a noite...

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