domingo, 15 de janeiro de 2012

Vila do Diogo:
Tão Longe, tão perto...

Diogo: para esquecer do mundo
Até hoje, lá para as bandas da Península Ibérica, quando alguém some no mundo diz-se que o gajo “deu às de Vila-Diogo”. A origem da expressão vem do direito de santuário assegurado aos judeus pelo rei castelhano Fernando III, no Século XIII: vítimas de uma feroz perseguição, eles estavam a salvo em Villadiego, graças à ordem real.

Essa história está a sete séculos e um oceano de distância da Vila do Diogo, no Litoral Norte baiano. A força do nome, porém, parece persistir: poucos lugares inspiram tanto o desejo de trancar o mundo lá fora e esquecer da vida, tendo por única turbulência o balanço da rede na brisa leve do cair da tarde.
No final da tarde, todo mundo se encontra 
no restaurante de Sandra e Ivan
O mais fascinante, no Diogo, é como essa pequena vila permanece distante da agitação do Litoral Norte. A 18 quilômetros da praia do Forte e a 12 da muvuca de Porto Sauípe, o lugar permanece fiel a sua origem de aldeia de jesuítas (como Trancoso) e seus cinco séculos como vila de pescadores e de pequenos agricultores. É como estalar os dedos e chegar à placidez idílica da velha Arembepe.

Quem dá o nome ao lugar é Diogo Álvares Correia, o Caramuru, primeiro português a se estabelecer na Bahia, em 1509, e que teria iniciado a povoação como base para a exploração de pau-brasil.

Eu (à direita) e minha irmã Simone começando a travessia das dunas do Diogo, a caminho da Praia de Santo Antônio
Pequeno, sossegado, envolto pela mata nativa e debruçado sobre uma curva suave do Rio Imbassaí, o Diogo é tudo que aquela sua tia hippie lhe contou sobre os paraísos de outrora: rua de terra, galinhas ciscando nos terreiros sem muro e a cordialidade de um lugar onde todo mundo se conhece. Tudo aqui acontece devagar e com uma suavidade que a gente esquece que existe, mas continua por aí, esperando o cenário certo para dar as caras.

"Cena urbana" no Diogo
A comunidade original vem ganhando cada vez mais a companhia de “refugiados” das grandes cidades, gente que chega de todas as partes do mundo para viver perto da natureza, sem afetação e sem qualquer apego à parafernália da vida moderna: há alguns anos, uma empresa de telefonia celular inventou de colocar uma antena na Vila. Longe de ser celebrado, o magérrimo monumento é alvo da mais sincera antipatia, por interferir na paisagem.

Um dos segredos da preservação do Diogo é que a vila fica afastada do mar. Para chegar à Praia do Santo Antonio, é preciso atravessar o Rio Imbassaí (hoje já tem ponte. Há alguns anos, era uma pinguela digna de Indiana Jones) e cruzar as belíssimas dunas, muito bem preservadas e que dão um charme especial ao lugar.

Euzinha (em primeiro plano, à direita) com amigos na praia de Santo Antônio
Quando bate a preguiça — ou quando o sol está muito forte para se caminhar nas dunas — basta descer as encostas suaves até o Imbassaí e refrescar-se nas águas cristalinas do rio.

Sem túnel do tempo e tão perto de Salvador, ainda é possível saborear o prazer de estar a anos luz de um mundo cada vez mais trepidante. Da próxima vez que eu sumir, podem apostar: dei às de Vila Diogo.

O entardecer no Diogo
Dicas práticas
Paraíso é um artigo cada vez mais escasso, portanto, se você vier, seja fiel ao espírito do lugar: recolha seu lixo, não faça barulho (para ouvir "Ai se eu te pego", basta descer alguns quilômetros até a cidade cenográfica de Porto do Sauípe) e respeite o modo de viver da comunidade. Como recompensa, o Diogo estará sempre lá, maravilhoso, esperando por sua próxima escapada. O Diogo é conhecido pelo artesanato de piaçava. Com a palha tingida, as mulheres tecem belos tapetes, bolsas e outros objetos.

Como chegar
A Vila do Diogo está a cerca de 90 km de Salvador, pela Estrada do Coco/Linha Verde (Rodovia BA-099). Uma estradinha de terra — de humor imprevisível, a depender do tempo — liga a Vila do Diogo à estrada, cinco quilômetros depois da entrada do Imbassaí.

Na chegada, deixe o carro no estacionamento de Dona Maruzinha (que também serve uma galinha caipira de responsa) e desacelere. Da Rodoviária de Salvador partem ônibus para Sauípe e dá para descer antes na entrada do Diogo, mas é preciso disposição para vencer as subidas e descidas da estradinha até à vila (mas a bagagem vai estar leve: aqui, qualquer coisa além de biquíni, camiseta e sandália havaiana é o cúmulo da peruagem. Mas não esqueça o chapéu, o protetor solar e o repelente.).

Bares e Restaurantes
Restaurante Caminho do Rio: uma super moqueca, conversa boa e preços honestos
A moqueca do Restaurante Caminho do Rio (ou "Restaurante de Sandra e Ivan", como todo jundo chama) é imperdível, assim como o papo agradável com os dois proprietários. É como almoçar na varanda da casa de amigos. Pra saber mais, leia o post sobre bons restaurantes na Estrada do Coco/Linha Verde:

B de Babette: Onde comer muito bem no Litoral Norte da Bahia

Na Praia do Santo Antônio, algumas barracas garantem cerveja gelada e petiscos. No centro da pequena povoação, tem o Restaurante de Tomás, super recomendado, e o Maria Moqueca. Mas imperdível mesmo é tomar uma cerveja em Dona Sônia, moradora antiga do Santo Antônio, que faz artesanato de piaçava e adora contar histórias.

A oferta de bares no Diogo também é pródiga. Experimente o Sombra da Mangueira, onde também são servidas boas moquecas, e o Bar de Seu Domingos. Para nunca mais querer ir embora, vá ao Restaurante Caminho do Rio, mais conhecido como restaurante de Sandra e Ivan, que é tão bom que vai ganhar um post especial aqui na Fragata. Aguarde.

Charme e sossego: Um Chalé no Meu Jardim
Hospedagem
Se você faz questão de ar condicionado, TV a cabo e hidromassagem, escolha outro lugar. As opções de pouso no Diogo são simples, geralmente quartos nas casas dos moradores da vila e dos estrangeiros que decidiram ficar por aqui. 

Meu amigo Silvio Perera, morador do Santo Antônio por mais de uma década, recomenda a Pousada TooCool, da belga Sophie. Depois de viajar o mundo inteiro, ela montou um lugar super charmoso, com chalés temáticos, decorados com objetos trazidos dessas andanças. O máximo do requinte é acampar numa das tendas que ela trouxe da Índia e arma no quintal.

Eu super recomendo o chalé da artista plástica Consuelo, rústico e chamosíssimo, e que fica no jardim do sítio onde ela vive, no alto de um morro.

Consuelo e o chalé
Construído à moda do Litoral Norte, com muita madeira e nenhuma frescura, tem uma varanda deliciosa, cercada de verde, quarto com cama de casal e mosquiteiro de algodão, banheiro e uma pequena cozinha americana. À noite, graças à parcimônia com que se usa a luz elétrica por aqui, dá para lembrar que o céu tem muito mais estrelas do que a gente consegue ver na cidade. As diárias são de R$ 150,00.

No sítio ao lado, a canadense Genô também tem um chalé maravilhoso, alugado nas mesmas condições. A vista da varanda do quarto, que fica no mezanino, é simplesmente matadora. Confira as imagens de Um Chalé no Meu Jardim no youtube. Contato: 71-9238-5045.

Caramuru
Para saber um pouco mais sobre essa figuraça que ajudou a inventar Salvador, recomendo Uma História da Cidade da Bahia (Versal Editores), de Antonio Risério, uma leitura deliciosa. Nosso Diogo também é personagem de destaque em O Fundador, que já citei aqui na Fragata e continua na minha fila de leitura (que, aliás, está dobrando o quarteirão: 20 dias na Bahia e o que mais li foi cardápio de barraca de praia...)

O Litoral Norte na Fragata Surprise
A sossegada Barra do Itariri, presente de Oxum
Imbassaí tem sossego e badalação
Castelo da Praia do Forte: Idade Média nos Trópicos
Mangue Seco, um paraíso resgatado

Onde comer bem

Três restaurantes que valem a viagem
Do lado da Praia do Forte, um restaurante escondido e delicioso
Banquete pé-na-areia em Mangue Seco



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2 comentários:

  1. Maravilha, Cyntia! Esse lugar é muito mágico mesmo e a travessia para a praia é um dos programas mais gostosos que temos aqui por perto. Sem falar na comida deliciosa de Sandra no Caminho do Rio. bjs

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  2. Adoroooo! Faz uma data que não vou para estas bandas mas tenho doces lembranças... Mas uma vez em viagem pela Fragata! Obrigada Cyntia. bjoooo

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