quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Viajar sozinha: dicas de segurança

Laranjeiras: nesta cidade linda, levei o susto
mais barra pesada que já me aconteceu numa viagem
"Hoje, por volta das 10h, sofri uma tentativa de assalto a mão armada na cidade de Laranjeiras (SE). Foi no ponto mais alto da cidade, um pico sobre o qual está a igrejinha do Senhor dos Navegantes, lugar com uma vista inacreditável. 
“Estava sozinha, fazendo fotos, quando vi um sujeito se aproximando, já no topo da ladeira que dá acesso ao lugar. Não gostei da cara dele, entrei no carro e dei a partida. Quando passei, a cerca de dois metros do homem — eu tinha que passar por ali, para descer a ladeira — ele saltou na frente do carro e apontou uma arma. Por um centésimo de segundo, cheguei a pensar em parar, mas só acelerei, pirambeira abaixo (a ladeira é uma pirambeira). Não recomendo a ninguém fazer o que fiz. Não foi coragem, foi puro medo".
Foi isso que postei no Facebook, no domingo, 30 de outubro, poucas horas depois da experiência — e, passadas quase duas semanas, ainda me pego pensando no que poderia ter acontecido: “Se eu tivesse parado?”, “Se ele tivesse atirado porque não parei?”...

Mas não estou escrevendo este post para remoer o quase mais barra-pesada que já encarei numa viagem. O importante aqui é refletir sobre as pequenas e grandes imprudências que eventualmente a cometemos nas nossas andanças, por mais experientes que sejamos.

Apesar do susto, eu super recomendo Laranjeiras, uma cidade linda! Na foto, o Quarteirão dos Trapiches
Um personagem de Stendhal dá a receita: “Quando chego numa cidade, procuro logo saber quem são as mulheres mais bonitas, os homens mais ricos e quem é que pode mandar me enforcar”. Pra mim, as belas senhoras e os abonados cavalheiros podem passar batidos, mas acho essencial ficar de olho em pessoas, lugares e situações que ameacem o meu pescoço.

Já viajei sozinha para cidades enormes, paisagens ermas, lugares que conheço muito, países onde não sabia nem dar "Bom Dia" na língua local. Em Laranjeiras, talvez por estar numa cidadezinha com 27 mil habitantes, esqueci de uma regra básica: antes de ir a um lugar afastado e/ou deserto, convém perguntar às pessoas do local como é o astral por lá — ou perguntar a si mesma por que será que um ponto que lhe parece tão atraente está às moscas.

Confesso que a bucólica igrejinha no alto do morro me pareceu o cantinho mais inofensivo do mundo, ainda mais sob o lindo céu azul da manhã de domingo. Depois da tentativa de assalto é que descobri, com os policiais e moradores — extremamente solícitos e simpáticos — que o lugar vem sendo assolado pela bandidagem que vem das cidades maiores se esconder em Laranjeiras.

A igrejinha de Bom Jesus dos Navegantes, 
cenário do "acontecido"
Quando eu era criança, lembro da verdadeira epidemia de afogamentos de turistas que acontecia, todos os verões, na Praia do Jardim de Alá, em Salvador. O lugar é realmente encantador, um vasto coqueiral em frente ao mar, as pedras que formavam pocinhas na maré baixa.

Mas os baianos, conhecedores da área, usavam o belo coqueiral no máximo como área de piquenique, evitando o mergulho, já que as correntes ali são fortes e traiçoeiras. O número de vítimas daquelas águas poderia ter sido muito menor, se os forasteiros tivessem procurado saber o motivo de haver tão poucos banhistas na Praia do Jardim de Alá.

Um recurso que costumo usar em viagens, para avaliar o grau de segurança nas cidades menores é ler a página policial dos jornais locais. É batata: se um furto ou outro crime sem violência estiver na manchete, é porque a cidade ainda não está calejada com os casos escabrosos. A forma como a imprensa destaca os fatos dá uma boa ideia sobre o grau de ineditismo dos mesmos. Em um lugar violento, acostumado a crimes brutais, dificilmente uma carteira batida será notícia de jornal.

Algumas providências são bem óbvias: não caminhar sozinha por áreas desertas, prestar atenção à bolsa e aos objetos de valor (com os quais deve-se evitar de dar bandeira), jamais embarcar em táxis clandestinos (o Rio de Janeiro tem um monte!) e por aí vai.

Pergunte sempre ao pessoal do hotel como é a vizinhança da sua hospedagem, no quesito segurança, pra saber o melhor jeito de voltar da rua, à noite. Prefira sempre se informar sobre questões de segurança com outras mulheres — não é que essas coisas não aconteçam com os homens, mas eles, menos visados, terão sempre uma percepção diferente da nossa.

Um truque que eu uso, especialmente à noite, quando não estou me sentindo segura, é procurar caminhar perto de outras mulheres ou casais. Até hoje, ninguém achou esquisito ser "seguido" por mim. Mas, na dúvida, eu não pensaria duas vezes em pedir: "Deixa eu andar perto de você porque estou sozinha". 

Sobrado na Rua Getúlio Vargas,
Eu adoraria dizer que essa tentativa de assalto foi meu único sufoco em viagens. Só que não. Em Cartagena (Colômbia), eu estava tão encantada com a beleza da cidade que não reparei na tampa enferrujada de um bueiro na calçada. Resultado: pisei e desabei no buraco que se abriu aos meus pés. Estava sozinha (melhor: mico sem testemunhas, rss), me machuquei superficialmente (como arderam, aqueles cortes e raladuras) e segui em frente.


Pior foi no Ano Novo de 2007/2008, quando me empolguei demais com as taças de cava (espumante catalão) e virei um alvo fácil para o batedor de carteiras que acabou com a minha viagem — e olha que eu nem estava viajando só. É por essas e por outras que eu recomendo manter o teor alcoólico sempre perto de zero, nas viagens. Bebida interfere na nossa capacidade de perceber os riscos. longe de casa, é melhor evitar.


Também aconselho a jamais acreditar no “mito do bom selvagem”: seja em Nova Iorque, Berlin ou nas Ilhas Marquesas, é preciso saber distinguir a acolhida calorosa de um povo hospitaleiro do interesse desproporcional que a sua simples condição de forasteira venha a despertar. Muitas perguntas, assédio e aquela simpatia forçada e excessiva são péssimos sinais.

Essas são algumas providências simples e que valem para todo mundo, não só para mulheres que viajam sozinhas. Turistas ou viajantes, tanto faz: seremos sempre mais vulneráveis, porque não conhecemos o lugar. Porque estamos mais dispostas a explorar e descobrir. Porque, encantados com as descobertas, vamos sempre tender a nos concentrar na beleza e negligenciar a atenção ao prosaico, seja ao sujeito mal-encarado que nos segue à distância, seja ao necessário cuidado ao atravessar a rua.

Em Laranjeiras, tudo acabou bem. Mas preciso reconhecer que fui imprudente. Com o prazer de viajar intacto, apesar do susto, juro que ficarei mais atenta. Afinal, quem está ligada vai mais longe.


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2 comentários:

  1. Realmente, quando viajamos costumamos baixar a guarda encantados que ficamos com o lugar.

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