sábado, 5 de novembro de 2011

São Cristóvão,
delicada como um bricelet

A Igreja e o Convento de São Francisco, 
patrimônios da humanidade, segundo a Unesco
Chamam-se bricelets os biscoitos, fininhos como hóstias, feitos pelas freiras do Lar Imaculada Conceição, o antigo orfanato de São Cristóvão (SE). O sabor é o mesmo da taboca, guloseima anunciada pelo toque do triângulo nas antigas tardes de verão de Salvador e Itaparica. Mas a textura é mais delicada, daquelas que desmancham na boca e se rompem com o toque mais afoito.

A mesma suavidade parece se espalhar por toda a Cidade Alta, o bairro histórico de São Cristóvão, neste começo de manhã de sábado. Sequer são oito horas, o sol já não está para brincadeiras, mas uma brisa leve refresca o passo de quem vai pelo calçamento de pedras, a caminho da feira. O silêncio faz parte do encanto. Como é agradável poder ouvir um som que vem de longe, trazido pelo vento. A sensação é que a delicadeza necessária para segurar os frágeis bricelets contagia o jeito dos moradores lidarem com a cidade.

Lar Imaculada Conceição (à esquerda)
e o Museu Histórico de Sergipe
Na Praça de São Francisco um vendedor ambulante madrugador já está a postos, à sombra da única árvore, esperando turistas que não virão. São Cristóvão é uma preciosidade fora de moda. No balcão da Emsetur (empresa estadual de turismo), no Aeroporto de Aracaju, não há sequer um folheto informativo sobre a velha capital de Sergipe ou sobre a também histórica Laranjeiras.

"Falta divulgação sobre as cidades", confirma Marta, dona da Casa das Queijadas, na Praça da Matriz — não bastassem os bricelets, São Cristóvão também é famosa por esses docinhos feitos de coco, deliciosos. “As agências preferem levar os turistas para Xingó e para a Foz do São Francisco. O povo só pensa em praia e banho do rio”, lamenta.

A Praça da Matriz. A Casa das Quejadas é a casinha salmão
Marta é um ótimo papo (e as queijadas que ela vende são de responsa). Ainda muito jovem, conhece bem a história da cidade e lamenta que todo esforço de revitalização dos edifícios do sítio histórico não esteja sendo acompanhado de uma política de estímulo ao turismo. Até o tradicional Festival de Cultura, que a cidade realizava desde a década de 70, deixou de existir. 


“Foi ficando cada vez pior, invadido pelo axé e pelo pagode”, conta ela. “Era uma disputa entre a prefeitura, que queria encher isso aqui de gente, e a Universidade, que queria uma coisa com mais qualidade”.

E o Festival nem precisava dos baladeiros para fazer sucesso. “Nos bons tempos, a cidade lotava nos dias do evento, a gente quase não conseguia atravessar daqui [da Praça da Matriz] até a Praça de São Francisco”, recorda Marta.

Dá até para ouvir a banda...
(Praça da Matriz de São Cristóvão)
Exatamente quando deveriam estar renascendo como atrações para os viajantes — na esteira das restaurações promovidas pelo Programa Monumenta, do Ministério da Cultura, em parceria com a Unesco — e em pleno boom do turismo em Sergipe, São Cristóvão e Laranjeiras estão ofuscadas por destinos praianos e ribeirinhos. Nesta manhã de sábado, além de mim, só um grupo de alunos de uma escola pública de Aracaju e um ônibus de excursionistas de uma cidade próxima apareceram para ver a cidade.

Os estudantes tomavam notas das informações do guia com evidente má vontade — atividade extra-classe valendo nota? — enquanto os excursionistas estavam mais interessados em tirar fotos ao lado do ônibus, estampado com as caras sorridentes da dupla "Forró dos Gordinhos".

A Igreja do Amparo, aguardando a restauração.
À direita, detalhe da fachada do Carmo
Conjunto do Carmo
Na Praça de São Francisco, patrimônio da Humanidade pela Unesco, alguns guias locais esperam resignados por turistas interessados em seus serviços. Apesar de me constituir em 100% dos clientes em potencial, não sofro o assédio característico das cidades turísticas. Só Fernandes, o mais velho entre a meia dúzia de guias, tenta a abordagem tímida, contando histórias da cidade — aprendi com ele que os bricelets devem seu nome à marca das máquinas suíças que prensam os biscoitos.

Eu, porém, preferi caminhar só e em silêncio. A Cidade Alta de São Cristóvão é pequena e os principais monumentos ficam bem próximos. Basta seguir na direção das torres das igrejas, que a gente avista de longe.

A Matriz da Vitória
Com poucos passos além da Praça de São Francisco, onde estão a Igreja e o Convento convertidos em cartão postal, chega-se às linhas simples da Igreja do Rosário dos Homens Pretos, à fachada enegrecida e ainda em restauro da comovente Igreja do Amparo, à beleza luminosa do Conjunto do Carmo e à Matriz de Nossa Senhora da Vitória, abençoando a pracinha com coreto e árvores centenárias. O guia não faz falta, pois sempre há um morador solícito para informar o nome da igreja, sua idade e um pouco de sua história.

São Cristóvão foi a primeira capital de Sergipe, fundada na última década do Século XVI — a quarta cidade mais antiga do país, como orgulhosamente anunciam seus moradores — no tempo que os portugueses suspiravam pela volta de D. Sebastião e tanto o Brasil quanto Portugal estavam anexados ao Império Espanhol.

Na primeira vez que visitei a cidade, nos Anos 70, tinha ficado de coração partido de ver o rico patrimônio colonial quase em escombros. Na última década, porém, São Cristóvão vem recebendo grandes investimentos em restauração e revitalização e seus principais monumentos ressurgem, encantadores, e merecem uma visita sem pressa.

O Lar Imaculada Conceição, à direita, 
e o Convento de São Francisco ao fundo
Os bricelets
Não deixe de comprar uma boa provisão de bricelets na passagem por São Cristóvão. Além de deliciosos "em pessoa", eles combinam muito bem com sorvete, geleias, doces... Eu trouxe só seis pacotinhos (R$ 3 cada) para Brasília e morri de arrependimento. Eles são vendidos no Lar da Imaculada Conceição, que fica bem na praça principal da cidade (Praça de São Francisco nº 12). Se quiser encomendar uma quantidade grande, ligue para as irmãs. o telefone é o (79) 3261-1235.

O Museu de Arte Sacra tem um acervo  absolutamente arrebatador
Um museu imperdível
São Cristóvão abriga um dos mais importantes acervos de arte religiosa do país. Instalado no Convento de São Francisco, o Museu de Arte Sacra tem cerca de 500 peças, oriundas de igrejas, capelas de fazendas e casas de famílias abastadas de todo o estado de Sergipe, construindo um rico panorama da representação artístico-religiosa dos Séculos XVI ao XIX.

Entre imagens, custódias, paramentos religiosos e castiçais, não deixe de ver uma Fuga para o Egito, do Século XVIII, na qual as figuras de Maria e José ganham a companhia de elementos regionais, como as cabaças. Uma peça linda, trazida de Propriá, nas margens do São Francisco.

Dois altares em madeira policromada são simplesmente arrebatadores, o de Santa Elizabeth da Hungria e o de Nossa Senhora de Lourdes, do Século XVIII. Espetacular, também, é o teto da igreja, pintado por José Teófilo.

Além do acervo maravilhoso, o Museu de Arte Sacra tem uma equipe pequena, mas muito dedicada. Eu, por exemplo, tive a sorte de ser guiada por todas as salas pela funcionária Magna Lúcia, cujo carinho e conhecimento das peças expostas contagia os visitantes.

Museu de Arte Sacra de São Cristóvão- Praça de São Francisco, das 10 às 17 horas. Entrada: R$ 5,00. Fone (79) 3261 1580. 

A chegada a São Cristóvão pela estrada João Bebe Água
Como chegar
De Aracaju, saindo de Atalaia, são 28 quilômetros até São Cristóvão. Peguei a estrada bem cedinho, para evitar o trânsito na direção do Campus da Universidade Federal. Os 14 km da Rodovia João Bebe Água (SE-065) cortam uma paisagem muito bonita, de colinas suaves, pequenos sítios e mangueiras frondosas. Mas é bom prestar atenção às curvas e às subidas íngremes e tortuosas, que nos levam a verdadeiros mirantes.

Os mais prudentes podem acrescentar cinco quilômetros à viagem, fazendo o trajeto pelas rodovias BR-349 e BR-101, menos perigosas, mas cheias de caminhões.

A estrada João Bebe Água corta uma região de sítios e fazendas
Apesar das curvas, da pista estreita e sem acostamento, achei a João Bebe Água o prólogo perfeito para o encanto de São Cristóvão. A primeira visão da cidade — os telhados e campanários coloridos pelo sol de antes das oito da manhã, cercados pelo relevo verde e suave — é daqueles quadros que iluminam a alma da gente. Bem nessa hora, Gonzaguinha invadiu o rádio do carro, garantindo que “começaria tudo outra vez”. Eu, que nem gosto do cara, tive que concordar com ele. 

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Um comentário:

  1. Deu até vontade de conhecer São Cristóvão e provar dos biscoitos acho que é de lá também uns doces e frutas cristalizadas. O Festival de Inverno de São Cristóvão era bem conhecido antes dessa febre axé.
    Cristiano

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