sábado, 12 de novembro de 2011

Laranjeiras:
Encantamento interrompido

A bela e esquecida Laranjeiras, segunda cidade mais antiga de Sergipe
Domingo, 30 de outubro de 2011, quase oito da manhã. O primeiro som que escuto no velho Porto das Laranjeiras é o ronco reconfortante dos pneus do carro no calçamento de pedras irregulares. A primeira visão promete: fachadas centenárias, o sossego da vizinhança que ainda não acordou direito, o céu muito azul do quase-verão nordestino.

As cores fortes nas portas e janelas restauradas foram amor à primeira vista. E basta erguer um pouquinho os olhos para ser seduzida de vez: o horizonte de Laranjeiras é verde, dominado pelos dois morros, muito altos, de onde as igrejinhas de Bom Jesus dos Navegantes e do Senhor do Bonfim olham para a cidade, aqui em baixo.
A Igreja do Bonfim vista do morro onde está a igrejinha do Senhor dos Navegantes
O Mercado Municipal
Logo na entrada da cidade está Quarteirão dos Trapiches, uma área de antigos armazéns do porto fluvial, na margem Oeste do Rio Cotinguiba. Os prédios estão em processo de restauro (alguns já prontos e em funcionamento) para abrigar o Campus da Universidade Federal de Sergipe na cidade. 

De lá, basta uma curta caminhada até a Praça da Matriz, onde a cidade se espreguiça na expectativa da missa de domingo. Nem o estrondante som do "arrocha" — quem foi que inventou essa "música" dos infernos? — providenciado por um lavador de carros estraga o prazer do encontro.


Quarteirão dos Trapiches: os antigos armazéns do porto fluvial estão sendo restaurados para abrigar o Campus de Laranjeiras da Universidade Federal de Sergipe

Laranjeiras foi fundada em 1605 — a segunda cidade mais antiga de Sergipe, mais nova apenas que São Cristóvão. A vila de jesuítas cresceu impulsionada pelo movimento do porto, no Rio Cotinguiba, e pelos engenhos de cana-de-açúcar. A prosperidade plantou por aqui belos casarões, 16 igrejas barrocas e a primeira Igreja Presbiteriana do estado, inaugurada em 1884.

A Matriz do Sagrado Coração, na praça principal da cidade
A cidade é Patrimônio Histórico Nacional e, assim como São Cristóvão, vem recebendo muitos investimentos em restauração do Iphan/Ministério da Cultura. Tanta beleza, tão próxima de Aracaju, deveria atrair multidões, mas Laranjeiras também parece esquecida pelo turismo  — no escritório de turístico local, é impossível encontrar sequer um folheto descrevendo as principais atrações da cidade.

A fachada da Igreja Matriz ainda está castigada pelo tempo,
 mas seu interior está muito bem cuidado

Os encantos de Laranjeiras, porém não são difíceis de achar, basta estacionar o carro e dar uma volta pela cidade. Como era comum antigamente, cada grupo social tinha seu local de culto, o que explica a profusão de igrejas em uma cidade tão pequenininha.

Igreja Matriz, do começo do Século 18, marca o coração da antiga povoação e era frequentada pela elite da cidade. Um pouco mais afastada está a Igreja da Conceição dos Pardos, do Século 19, que recebeu até doação de D. Pedro II para sua construção. No alto de uma ladeira está a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, santos protetores dos escravos, construída e frequentada pelos cativos.

A herança africana do Rosário é forte até hoje: lá, além dos ritos católicos, a comunidade mantém vivas as tradições do Cacumbi (folguedo ritual semelhante à Congada, brincado apenas por homens), da Taieira (dança ritual só de mulheres), da Chegança (folguedo de Natal típico de tradições marujas que reproduz a luta entre mouros e cristãos) e de São Gonçalo (outra celebração de forte tradição marinheira, dançada por homens vestidos de mulher).

A Conceição dos Pardos e o Rosário (abaixo): a segregação social explica a quantidade de igrejas em uma cidade tão pequena


Além de igrejas e dos velhos trapiches, a cidade tem muitos casarões preservados ou em processo de restauração. Fora da cidade, ficam dois tesouros: a Capela de Sant'Aninha, com sua fachada espanholada e peças de ouro maciço, e a Igreja da Conceição da Comandaroba, considerada um dos monumentos barrocos mais importantes de Sergipe.

Plantadas no alto de dois morros, as igrejas que mais vão chamar a sua atenção em Laranjeiras são o Bonfim e a Capela do Bom Jesus dos Navegantes — mais duas devoções com forte relação com marinheiros, prova de que o passado de importante porto fluvial da cidade ainda está muito vivo. 

A capela dos Navegantes (não vá lá sem escolta!!) e o Bonfim


Infelizmente, no alto do morro do Bom Jesus dos Navegantes (um mirante espetacular sobre a cidade), fui alvo da tentativa de assalto que mencionei no post anterior. A partir daí, já não tive mais disposição para descobrir as belezas da cidade, apesar da gentileza dos policiais militares que me atenderam e da boa vontade do guarda municipal Rosivaldo, destacado pelos PMs para me acompanhar pelo resto da visita.

Fica a dica para quem vier ver essa pequena preciosidade colonial: antes de se aventurar pelos cenários mais distantes, procure o posto da PM, pois eles se prontificam a acompanhar os visitantes.


Eu preferi voltar para Aracaju e afogar o susto numa gamela de inebriantes caranguejos. O encanto de Laranjeiras, porém, continua todo lá, esperando a próxima vez. Meu namoro com essa linda cidade foi interrompido, mas não não acabou: eu vou voltar.

As informações sobre como chegar a Laranjeiras estão no post Sergipe: informações práticas


Sergipe na Fragata Surprise
Aracaju: que surpresa gostosa!
Dicas práticas de Aracaju, Xingó, Laranjeiras e São Cristóvão
Comer em Aracaju: a Passarela do Caranguejo 
São Cristóvão, delicada como um bricelet
Canion de Xingó: Vontade de virar peixe
E dicas de Mangue Seco, que fica na Bahia, mas é facinho de chegar por Aracaju



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2 comentários:

  1. Olá!! Conheci Laranjeiras ontem e como vc fiquei encantada e inconformada pelo descaso com que o estado toca a cidade. Ainda mais por me deparar com duas mega construções logo no início da cidade, uma da Nassau e outra da Votorantim. Muita pobreza, as construções todas deterioradas... a população não sabe informação alguma sobre a cidade e violência... não me aconteceu nada, mas não tive coragem de me demorar no lugar. Que triste. Parece que o campus da UFS tambem teve de ser desativado por conta da violência. Vi que sua postagem foi feita em 2011, estamos em 2017 e continua na mesma.

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  2. Que pena. A cidade é preciosa e merece ser vista...

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