terça-feira, 11 de outubro de 2011

Feiras pelo mundo:
O lado lúdico das hortaliças

Feira livre em Carcassonne, França: chuchu com sotaque
(Por justiça, a foto tinha que ser da Feira da Vila, mas eu não tenho nenhuma)
Uma das coisas mais divertidas que eu conheço é fazer feira (e experimentar comida de rua em mercados). Foi graças a São Paulo que descobri o inimitável prazer de apalpar laranjas, inspecionar goiabas e eleger o mais belo ramo de couve da semana. Antes de ir morar em Sampa, sequer suspeitava do lado lúdico que palpita nas frutas, hortaliças e assemelhados.

A primeira vez que eu vi a luz foi numa manhã de sábado, na Vila Madalena (a original, não essa que está lá hoje, muito da mauricinha). Eu morava em Perdizes, não usava automóvel — a mania de pedestre vem de longe — e tinha sérias dúvidas de que pudesse haver um peixe fresco sobre a face da terra que compensasse o trajeto de ônibus, ainda mais na companhia de um trambolho chamado carrinho de feira. Admito: eu era uma mulher de pouca fé.


Porque a verdade é que, naqueles tempos, um tomate jamais seria apenas um tomate na esquina da Aspicuelta com a Fradique.

Feira de Tristan Narvajas,
Montevidéu
A Feira Livre da Vila Madalena batia um bolão: infinitos balcões exibiam os mais tentadores legumes, verduras fresquíssimas, as frutas mais suculentas, coloridas e cheirosas. Um quarteirão inteiro de barracas era dedicado às massas frescas, caseiras, carregadas daquele sotaque anasalado, tão essencial ao tempero do molho de tomante quanto o manjericão. A área dedicada aos pescados era um corredor polonês de tentações: lulas, polvos, peixes de todos os tipos. Sem contar os setores das frutas secas, das conservas, dos frios, dos embutidos, dos queijos...

O segredo era chegar em jejum e, de provinha em provinha, a gente enchia o estômago na mesma velocidade que enchia o carrinho. O melhor café da manhã do mundo -- OK, se Belmondo saísse da tela, em Acossado, e me servisse croissants na cama eu ficaria tentada a mudar de ideia...

Olha só quem está aqui! Fatias de jaca numa barraca do Viktualienmarkt, em Munique
E tinha o pastel. Só quem já teve a felicidade de comer um pastel de feira em São Paulo vai saber do que estou falando. Porque o pastel de feira de Sampa é indescritível, inimitável e inesquecível.

Além de ser um espetáculo no quesito víveres, a feira da Vila também arrebentava nos mórteres. A oferta de batidas de frutas, vinho, pinga, infusões e outras poções não identificadas era tanta -- e o esquema da provinha tão generoso-- que lá pras tantas ficava impossível pronunciar "macadâmia" ou "alcachofra" de maneira inteligível.

Sem contar que os legendários botecos da Vila funcionavam a pleno vapor, a partir do meio dia. Seria uma falta de educação deixar de ir cumprimentar os garçons do Bartolo, do Sujinho da Wisard e do Martin Fierro (as mais antológicas empanadas do planeta) estando tão perto. O resultado é que não era incomum voltar da feira na madrugada de domingo, geralmente amparada por um peixe outrora fresquíssimo, mas que, a essas alturas, já estava com uma cara pra lá de suspeita.

Graças à Vila Madalena, aprendi que as feiras e os mercados são visitas obrigatórias para quem quer ver uma cidade mais de perto, sem maquiagem, bem à vontade. A Feira de São Joaquim, em Salvador, é uma experiência antropológica, mas não é para iniciantes. Além das muitas feirinhas anônimas que fizeram  a minha alegria pelo mundo afora, também recomendo vivamente o Viktualienmarkt, em Munique, o Naschmarkt de Viena e o Grünmarkt de Salzburgo. A Feira de Tristan Narvajas, de Montevidéu, é simplesmente maravilhosa. Mas a minha preferida é a do Campo dei Fiori, em  Roma.

Hummm, pastel de feira...
Pastel de feira
Pra mim, deveria figurar no topo da lista de iguarias nacionais, ao lado do acarajé de Salvador, do bolinho de bacalhau do Rio e do açaí com farinha de piçarra de Belém. 

O meu favorito é o de queijo. Adoro acompanhar todo o processo, ver o bichinho ser jogado no tacho fumegante e ir ganhando volume, ondulações, a casquinha cada vez mais dourada e crocante. E, depois, tem aquela primeira mordida, um teste de perícia e agilidade: abocanha-se o cantinho do pastel e afasta-se o rosto bem rápido, para evitar o vapor escaldante que emana das entranhas da maravilha.

Recentemente, um concurso elegeu o pastel da Barraca da Maria, na Feira do Pacaembu (Praça Charles Miller, em frente ao estádio, terças e quintas, das 7h às 12:30h), como o melhor de São Paulo. A pasteleira Maria Kuniko Yonaha também senta praça nas feiras de Perdizes e da Mooca, e tem pastelarias em Pinheiros e na Casa Verde. Confira endereços e horários no site.

Endereços
Feira de São Joaquim 
Avenida Oscar Pontes s/n, São Joaquim (Cidade Baixa). De segunda a sábado, das 6h às 17h. Aos domingos, das 6h às 13.

Já avisei que não é para amadores, tá? Prepare-se para sentir calor e alguns cheiros nauseabundos, para se perder no labirinto de 35 mil metros quadrados de boxes e tabuleiros e para descobrir uma Bahia pobre, simples e afetuosa.

Se for de táxi, nem caia na besteira de dar o endereço que citei acima. Na Bahia, tem um monte de nomes oficiais de rua que não pegam (só ET chama o Campo Grande de "Praça Dois de Julho" e a Baixa do Sapateiros de "Rua JJ Seabra"). Peça apenas ao taxista pra lhe deixar na feira. Como fica do ladinho do terminal dos ferry boats que fazem a ligação com a Ilha de Itaparica, quem sabe você não conjuga os dois programas?

Viktualienmarkt 
Uma quadra ao sul de Marienplatz, de segunda a sexta, das 10h às 18h. Sábado, das 10h às 15h.  

Uma das melhores lembranças que tenho de Munique é esse mercado ao ar livre, com suas infinitas tentações. Frutas, hortaliças, frios, embutidos, queijos... O que você imaginar, tem lá -- basta ver que eu encontrei jaca, vendida em fatias (!) e a peso de ouro, coisa dificílima de acontecer em feiras fora do Nordeste brasileiro. Bom lugar pra tomar café da manhã, almoçar ou merendar. Mas vou logo avisando: pelamordedeus, não apalpe as frutas! Os feirantes ficam furiosos 😉


Para ver todas as comidas e bebidas citadas aqui no blog, acesse Comes&Bebes - Índice

Para descobrir feiras e mercados mundo a fora, clique aqui 

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