sábado, 17 de setembro de 2011

O Rio que me faz falta

Chafariz das Musas, no Jardim Botânico, 
para fugir do calor 
No início de agosto, me despedi da condição de moradora do Rio de Janeiro. Estou de volta a Brasília, trocando o mar e as montanhas pelo Cerrado e o Planalto. Vou sentir saudade, mas não dos grandes cartões postais. Os espetáculos do Rio continuam lá, a uma hora e meia de voo da minha nova casa.

Minha saudade é mais doméstica: estou reaprendendo a voltar do trabalho sem a escolta das fragatas que tomam o céu do Rio, todo final de tarde. Compensando a falta das palmeiras imperiais da Rua Paissandu com a beleza dos ipês. E tentando me conformar com a mania brasiliense de colocar as melhores livrarias em shoppings que ficam lá onde Judas perdeu as botas...

A Enseada de Botafogo e o Pão de Açúcar era só a vista do fumódromo. Agora, volta a ser cartão postal
Sempre que deixo as minhas cidades, elas readquirem essa condição de “lugar de férias”, de playground e novidade. A intimidade não acaba, mas os sabores se reacendem na memória e temperam os reencontros.

O Corcovado continua lá, mas deixou de ser a paisagem corriqueira de quem sobe a Paissandu, voltando para casa. A cúpula do Theatro Municipal e o vão livre do Palácio Capanema não são mais os companheiros da caminhada do metrô para o trabalho. O Pão de Açúcar deixou de ser um lugar para descansar os olhos, cada vez que eu ia fumar um cigarro no terraço do Botafogo Praia Shopping.

Escadaria do Ministério da Fazenda, no Centro do Rio
O Jardim Botânico volta a ser um programa, e não mais a escapadinha aconchegante para admirar o velho Chafariz das Musas, nos dias infernais de dezembro e janeiro. O desfile da Banda de Ipanema é de novo uma efeméride, não mais o painel que adorna a estação de metrô, desembarque a caminho do sorvete de pitanga da Mil Frutas e das prateleiras da Livraria da Travessa.

O Rio que me faz falta não aparece nos guias de viagem. Ninguém vai à cidade para ver o saguão do Auditório da ABI, ou a escadaria do Ministério da Fazenda  — que eu namorava, entre uma pauta e outra, mas nunca tive tempo de fotografar decentemente — ou o Casarão do Instituto Alves Affonso, na Rua Ipiranga — um dos meus caminhos para o supermercado...

Instituto Alves Affonso, em Laranjeiras
Talvez eu mesma esqueça a alegria que sentia, num dia comum qualquer, ao olhar para cima e ver a mania iluminada dos cariocas de construir jardins suspensos nos edifícios mais insuspeitos — mas, se eu esquecer, talvez seja para resgatar a felicidade de descobrir de novo essas paisagens.

Afinal, deixar uma cidade é sempre perda e resgate. Perdi a companhia das fragatas e das palmeiras, mas também perdi aquele olhar dono do pedaço. O que era cotidiano agora é cartão postal. O Rio que me faz falta agora é pessoal e intransferível. É memória, é afeto. É aquela saudade boa, fadada a muitos reencontros combinando surpresa e intimidade.


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