quarta-feira, 29 de junho de 2011

Um giro pelo Recôncavo

Detalhe da Igreja do Rosarinho dos Pretos, em Cachoeira 
(agosto de 2006)
Música deste post: Trilhos Urbanos, Caetano Veloso

Em março de 1998, fui escalada pela Revista Veja para uma reportagem sobre as belezas do meu lugar favorito no mundo, o Recôncavo Baiano, ao qual eu já fiz outras declarações de amor, aqui na Fragata. Neste post, reproduzo a matéria publicada na edição 1536 da revista, que contava com fotos maravilhosas de meu parceiro de pauta, o fotógrafo Fernando Vivas -- vale a pena conferi-las no acervo digital de Veja.

De 1998 para cá, muita água rolou sob a Ponte Dom Pedro II, centenária ligação entre as cidades de Cachoeira e São Félix. O clima de renascimento descrito na reportagem murchou, para ser retomado, anos mais tarde, com grandes investimentos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em parceria com a UNESCO (Projeto Monumenta). No final do post, tentei atualizar as informações e agradeço do jornalista Geraldo Muniz, assessor de imprensa do IPAC-Ba (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural).

Na reportagem original, contei com a colaboração da jornalista Cândida Silva, que fez a pré-apuração dos dados. Algumas fotos desse post pertencem a sites de prefeituras e órgãos de turismo e estão devidamente creditadas. As demais imagens foram feitas por mim, nas muitas idas ao Recôncavo, uma região que não canso de visitar e de recomendar aos amigos.

O manguezal em Maragogipe
(agosto de 2006)

Além de Salvador*

4 de março de 1998- Quem pensa na Bahia se lembra das igrejas barrocas, dos casarões coloniais, da moqueca e daquela música ritmada e sensual que só os baianos sabem fazer. Foi esse apelo histórico, gastronômico e musical que fez de Salvador um dos principais destinos turísticos do país, estimulado pelos investimentos do governo do Estado — só a restauração do Pelourinho, iniciada em 1991, já consumiu 50 milhões de reais.
 Mas o tempo dos prósperos engenhos e das plantações de fumo também deixou uma rica herança em cidades como Cachoeira, Santo Amaro, Nazaré das Farinhas, Maragogipe e São Félix, localizadas no Recôncavo Baiano — aquela porção de terra que, partindo de Salvador, contorna a Baía de Todos os Santos e encosta do outro lado, na Ilha de Itaparica, segundo polo turístico mais conhecido da região.
Cemitério dos Nagôs, Rosarinho dos Pretos, Cachoeira 
(25 de agosto de 2006, na entrega das obras de restauro,
 executadas pelo IPHAN/Monumenta/ MinC)
 Como os investimentos públicos para promover o turismo no Recôncavo ainda são parcos (7 milhões de reais desde 1995), os próprios baianos estão se encarregando de corrigir essa falha. Muitos filhos da boa terra, entre eles algumas celebridades, têm-se esforçado para atrair investimentos em hotelaria e na restauração de edifícios que estão recolocando as cidades próximas da capital baiana no mapa dos passeios que valem a pena.
Matriz da Purificação, 
em Santo Amaro
(foto: Secretaria de Turismo-Ba)
Em Santo Amaro da Purificação, a 81 quilômetros da capital, existem atrações como a Matriz de Nossa Senhora da Purificação que, graças a sucessivas campanhas de Dona Canô — mãe do compositor Caetano Velloso —, teve restaurado seu interior, com pinturas sacras nas paredes, teto e altar. A obra custou 1 milhão de reais.
O governo estadual restaurou o Solar do Biju, prédio do Século XVIII, onde funciona o campus avançado da Universidade Estadual de Feira de Santana. As obras estão começando no Museu Wanderley de Pinho, antiga sede de fazenda com pinturas, móveis e objetos sacros.
Santo Amaro oferece a comida típica do Recôncavo, que vai da moqueca de siri a pratos como a maniçoba, mistura de carnes salgadas com folhas de mandioca. Quem gosta de turismo ecológico pode ainda partir pelas trilhas que levam à Mata de Saubara, a 10 quilômetros da cidade.
 Depois do ferryboat, que liga em 45 minutos Salvador à Ilha de Itaparica, pode-se alcançar de carro Nazaré das Farinhas a 58 quilômetros de distância pela estrada. As atrações locais são o manguezal nativo, o histórico Solar dos Arcos e o Cine Rio Branco — inaugurado em 1927, é considerado pelo Instituto Britânico de Cinema o mais antigo prédio do gênero no mundo. Fechado desde 1995, o Rio Branco está sendo restaurado e reabrirá em outubro como cinema e centro cultural.
O Cine Rio Branco, em Nazaré (foto Nazaretur)
 Quem paga a conta é Marcos André Batista Santos, o Vampeta, jogador do Corinthians. Vampeta comprou o prédio por 80 mil reais e vai gastar mais 100 mil com a restauração. “Queria que uma parte do dinheiro que ganhei com o futebol revertesse em benefício da cidade onde eu nasci”, diz o jogador. 
Jaguaripe: a Casa de Câmara e Cadeia, 
em primeiro plano, ainda em 
reformas. No alto, a Igreja da Ajuda
(foto: Pousada Porto Jaguaripe)
 A 22 quilômetros de Nazaré está Jaguaripe, uma das mais antigas cidades da Bahia. Sua povoação começou em 1546, três anos antes da fundação oficial de Salvador. Merecem visita a Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, de 1613, e a Casa de Câmara e Cadeia, concluída em 1697. As obras de restauração dos dois prédios, que custarão 950 mil reais, estão sendo iniciadas pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural do Estado, o Ipac.
Rio Jaguaripe
(Foto: Pousada Porto Jaguaripe)
A cidade é muito procurada por amantes da pesca, que encontram nos rio Jaguaripe e da Dona um viveiro de badejos, tainhas e robalos. Há um ano, a advogada Célia Arandas transformou sua fazenda, às margens do Jaguaripe, numa pousada com piscina, atracadouro e lagoa artificial para pesca. “O Recôncavo tem muito a oferecer em ecoturismo, culinária e sossego”, diz ela.
 A 116 quilômetros de Salvador pela recém recuperada BR-420, Cachoeira é o principal destino turístico do Recôncavo. Tombada como monumento nacional, é um museu a céu aberto a ser percorrido a pé e com calma, com paradas na Fundação Hansen Bahia, nas Praças da Aclamação e Aristides Milton, na sede da Capela da Irmandade da Boa Morte, organização religiosa fundada por escravas libertas há 200 anos. Dilapidada pelo tempo, a cidade tem cerca de 200 casarões em estado periclitante.
Detalhe da Igreja do Carmo, em Cachoeira
 Foi inaugurada em janeiro a primeira etapa do Resort Vale da Cachoeira, dos irmãos Paulo e Eduardo Lobo, advogados de Salvador que nasceram na cidade. O resort, às margens do Rio Pitanga, com três cachoeiras e ruínas de dois antigos engenhos, vai custar no total 1,1 milhão de reais.
Ligada a Cachoeira pela secular Ponte Dom Pedro II, do outro lado do Rio Paraguaçu, São Félix tem o clima das antigas cidades coloniais. Sua principal atração é o centro cultural mantido pela antiga fábrica de charutos Dannemann.
Comunidade cachoeirana comemora a restauração
 do Carmo e da Ordem Terceira
(agosto/2006)

 Dali, com mais 30 quilômetros de estrada precária e belas paisagens, se chega a Maragogipe. Tradicional porto do Recôncavo, a cidade oferece uma verdadeira farra gastronômica de peixes e camarões. Muito maltratado num tempo de pouca consciência ecológica, seu manguezal está sendo replantado. Um passeio de barco revela ruínas históricas do Convento de São Francisco e as antigas sedes dos engenhos Novo, Velho e da Ponta.
Padroeiro da cidade, São Bartolomeu tem 
uma bela igreja do Século XVIII, em Maragogipe
Como quase tudo no Recôncavo, Maragogipe pode ser alcançada por via marítima, a partir de Salvador, pela Companhia de Navegação Baiana. A passagem custa 4,70 reais. Dá direito à paisagem da Baía de Todos os Santos e, com sorte, um balé de golfinhos em torno do barco.
* Matéria Publicada originalmente na Revista Veja, edição n° 1536

O Rio Paraguaçu em Maragogipe

Atualizações: Treze anos depois desta reportagem, o Recôncavo Baiano está ainda mais lindo. O surto de investimentos descritos na matéria teve fôlego curto, mas, a partir da segunda metade dos Anos 2000, a região voltou a receber a atenção dos órgãos ligados ao Patrimônio e à Cultura e da iniciativa privada. 

A criação da Universidade Federal do Recôncavo trouxe uma nova vida a esse pedaço tão especial do Brasil, especialmente a Cachoeira. Todos os anos, no dia 25 de junho, a cidade assume o posto de capital do estado, em homenagem ao levante de 1822, início da Guerra de Independência da Bahia. 

Não consegui apurar o que aconteceu com o Resort Vale da Cachoeira. A Ponte Dom Pedro II acabou de passar por uma reforma e foi reaberta ao tráfego. A Companhia de Navegação Baiana não existe mais. Foi privatizada e o transporte naval de grande porte, nas águas da Bahia de todos os Santos, foi entregue ao consócio TWB, que opera o sistema de ferries entre Salvador e Bom Despacho. Como o Vapor de Cachoeira do velho samba de roda, o navio de Maragogipe também não navega mais no mar.

Museu Wanderley de Pinho, infelizmente, continua fechado. Segundo a assessoria da Diretoria de Museus do IPAC, o prédio acabou de receber uma nova reforma, mas não há prazo para sua reabertura. Quando eu era criança, adorava visitar o velho casarão do Século XVIII, antiga sede de engenho de cana.

A Bahia na Fragata Surprise
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