sexta-feira, 6 de maio de 2011

Viajar sozinha: o começo

Vai deixar o mundo te esperando lá fora?
(Cartagena, fevereiro de 2007)
Música deste post: Gracias a la Vida, Mercedes Sosa

Conheço umas três ou quatro pessoas que não gostam de viajar. Fora esses casos terminais de excentricidade, viagem é coisa que todo mundo adora, embora um monte de gente ande viajando muito menos do que gostaria. Falta de dinheiro, de tempo e de companhia são os obstáculos mais citados.

Dinheiro e tempo eu até entendo. Mas deixar de viajar por “falta de companhia” é um pecado imperdoável. Viajar sozinha é uma experiência deliciosa, que permite mergulhar de cabeça nos lugares visitados, um encontro com o inesperado e um tête-à-tête com a gente mesma.

Sou uma viajante-solo militante — viajo acompanhada, também, mas acho que as duas atividades são completamente diferentes. Talvez o único ponto coincidente seja o deslocamento espacial. Andando por aí, tenho testemunhado o crescimento vertiginoso da tribo: é cada vez mais comum encontrar gente que cai no mundo desacompanhada, especialmente mulheres com mais de 40 anos.

Claro que a primeira viagem desacompanhada foi bem mais difícil.  Alguns truques, porém, me ajudaram a reforçar a autoconfiança no início. Quem sabe você também não se anima?

Basta um pouquinho de ousadia. Nem precisa dessa marra do Boca Juniors 😀
(Buenos Aires, outubro de 2006)

1- Comece a jornada por um lugar mais “fácil”
Falar o idioma local é um bom começo. Todo mundo se sente mais seguro quando consegue se comunicar. Conhecer o lugar ou ter referências significativas sobre ele também ajuda. Melhor deixar os grandes choques culturais para mais adiante. Depois de alguns dias, já ambientada ao “diferente”, a gente vai se sentindo cada vez mais aventureira e capaz de experimentar cenários e contextos mais "radicais".

Uma das minhas primeiras viagens-solo foi para os Lagos Andinos, na Patagônia (fiz a travessia dos lagos, de Bariloche a Petrohué/Puerto Varas), em 2002. Antes de chegar lá, os dois dias que passei curtindo a minha querida Buenos Aires foram essenciais para que eu me aclimatasse à falta de companhia, tipo achar normal jantar sozinha, sair à noite sem maiores receios e perder a vergonha de colar o nariz no livro quando aparecia um paquerador chato. Quando chegou a vez de explorar as paisagens mais selvagens, eu estava tirando de letra a aventura.

2- Ter sempre reserva de hospedagem para o primeiro ponto do roteiro
Por mais fofa que seja a praça, chegue sempre com reserva de hotel
(Bratislava, julho de 2005)
Nossa autoconfiança não precisa ser desafiada logo na chegada, né? Desembarcar cansada da viagem, com bagagem e ainda por cima ter que procurar lugar para dormir é um estresse que ninguém merece, mesmo que tenhas décadas de viagens-solo no currículo — sem contar que, no sufoco, sempre há o risco de ir parar num hotel muito caro ou muito ruim. No início da viagem, quando a gente ainda está "no aquecimento", é pior ainda.

Em abril de 2006, no meio de uma greve geral, resolvi ir de Paris a Rouen para visitar o castelo de Ricardo Coração de Leão. Cheguei debaixo de chuva, sem reserva de hotel e encontrei a cidade às moscas (era domingo). As duas horas que passei procurando hospedagem, morrendo de frio, foram o estresse mais desnecessário que já vivi numa viagem. E olha que eu já estava na estrada havia duas semanas...

Para não engessar o roteiro (caso a viagem não se limite a uma única localidade), deixo para reservar a hospedagem das próximas paradas quando decido para onde quero ir. Uso a internet sem susto. Sites como booking.comedreams.com e venere.com funcionam muito bem. Dormir na praça só é engraçado nos filmes.

3- Saber como vou me deslocar do aeroporto (ou da Rodoviária, porto, estação de trem) até o hotel
Em Madri, dá para ir do aeroporto até o centro de metrô facinho
(Paseo del Prado, janeiro de 2014)
Rodar feito barata tonta é um horror. Carregando a bagagem, então, é penitência das brabas. Para evitar o mico, pesquiso sempre a melhor opção (santa internet!). Se vou para um lugar com bom transporte público, não hesito: é mais barato e mais eficiente.

Entretanto, se meu destino tem problemas de segurança ou serviço de transporte precário, não descarto serviços de vans, transfers ou táxis. Dá para contratar pela internet ou até com o hotel. O que não faço nunca é embarcar em qualquer tipo de “transporte alternativo” oferecido aos turistas. Na dúvida, pago mais caro, mas não corro riscos desnecessários.

4- Pesquisar sobre a vizinhança do hotel
Quem vê cara não vê coração: apesar da aparência caótica, o Centro de La Paz é bastante seguro
Antes de reservar o hotel, procuro me informar sobre a área onde ele está localizado e faço "passeios" por lá, com o GoogleEarth ou com o StreetView do GoogleMaps. Ver a "cara" e conhecer a fama da vizinhança ajuda a evitar surpresas desagradáveis. Checo, também, as opções de transporte público e a distância das coisas que me interessam mais. 

Claro que o site do hotel sempre vai falar maravilhas sobre sua localização, mas basta pesquisar no Google pelo nome do bairro para descobrir se há esqueletos no armário da vizinhança. O contrário também vale: pela aparência do Centro de La Paz, jamais teria me hospedado no bom e barato Eva Palace, na Calle Sagarnaga. Mas todas as informações que obtive sobre a área me tranquilizaram. 


5- Procuro chegar durante o dia e em dias de semana
Viena: mesmo as cidades mais lindas e seguras têm seu lado dark (Quarteirão dos Museus, julho de 2005)
A ideia é me sentir confortável e segura, certo? Então, nada melhor que a luz do sol e o movimento da vida normal para abençoar os primeiros passos de cada viagem-solo. A noite sempre me parece muito mais simpática quando eu a recebo já hospedada, livre da bagagem, banhada e cheirosa. Aí, é só convidar a mim mesma para um jantarzinho de boas vindas.

Certa vez, indo de Veneza para Viena, tive que escolher entre o trem diurno, com direito a nove horas de paisagens na janelinha (os Alpes, principalmente!!!) e chegada às 19 horas, ou a chatice do trem noturno. Não tive dúvidas: preferi passar a noite chacoalhando e chegar de manhãzinha. Quando deparei-me com a barra pesada no Metrô de Karlsplatz, parada obrigatória para ir da estação ferroviária para o hotel, felicitei-me pela decisão. De dia já é esquisito. À noite e com mochila, estou fora!

5- Bagagem de mão, nem pensar!
Roma: ainda bem que eu estava com pouca bagagem
(Piazza della Rotonda, novembro de 2007)
Economizo na bagagem despachada (afinal, terei que carregá-la, ao chegar ao destino) e nem sonho em levar aquela malinha de mão — quem vai tomar conta dela, quando eu correr para conferir uma mudança de última hora do portão de embarque ou outro imprevisto deste tipo?

Ficar atolada com sacolas e maletas é tiro e queda para minar a capacidade de reação, autonomia e segurança. Na última vez que estive em Roma, levei 40 minutos rodando as desertas redondezas da Estação Ferroviária de Trastevere (era final de tarde de sábado) para conseguir um táxi. Já pensou se eu estivesse carregada de tranqueiras?

Além disso, mesmo que a gente não acrescente nada à bagagem, ela parece que vai ficando "mais pesada" a cada dia de viagem. Aquela sacolinha de mão, "utilíssima" no começo, vira sempre o estorvo inominável do quarto ou quinto dia. Para não sucumbir à "compra irresistível", imagino-me carregando o trambolho pelo resto da viagem. Pode ser a coisa mais linda do mundo, com o preço mais inacreditável: se não cabe na mala ou se não for chegar inteiro se for posto lá, nem morta!

6- Levar livro, IPod e bloquinho de anotações
Brasília: adotei os hábitos de viajante na cidade onde moro e já nem reparo os olhares
(Memorial dos Povos indígenas, outubro de 2006)
Outro dia eu estava num restaurante de Brasília e, de repente, reparei que estava todo mundo olhando para mim. "Putz, derrubei comida na roupa outra vez!!", pensei. Conferida a blusa (imaculada) foi que me toquei para o motivo dos olhares: eu estava jantando sozinha.
Sou tão acostumada a fazer isso em viagens que nem ligo mais. No início, porém, ficava meio desconfortável. Ler ou escrever ajudavam a esquecer da "plateia" e ofereciam um ponto para onde olhar, sem o risco de encarar involuntariamente algum dos observadores.

Sou suspeita, porque não vivo sem um livrinho. Mas mesmo pelo lado mais "pragmático", esses acompanhantes-impressos são indispensáveis para preencher o tempo nos longos deslocamentos ou para desencorajar gente com papo-furado. Ouvir música também é perfeito para ambos os casos — mas em situações que exijam sentidos em alerta, prefiro não correr o risco de me distrair com os fones de ouvido.

O bloquinho preenche as duas funções, com o bônus de registrar minhas melhores memórias e impressões de viagem. A Fragata Surprise só existe por causa das dezenas de bloquinhos que carreguei comigo por aí.

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15 comentários:

  1. Ola tenho 43 anos e nao realizei nd.q.tenha de fato me feito feliz. Agora quero mt.conhecer a Europa.Meu desejo Grecia.Fui a uma agencia e me proporam 7 paises em 15 dias.Minhas duvidas as agencias te oferecem seguranca mas a frieza de passeios cronometrados fora txs.mas caras. Nao tenho pessoas proximas ou em forma fisica disposta a viajar comigo para dividir despesas de hospedagem.Viajo a trab.no Brasil e sinceramente as companhias do trab.desanimadoras. To nav.na web e me decidindo a viajar sozinha mas acho q.3 paises e mas proveitoso Grecia Italia Portugal.Me ajuda.

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    1. Olá, parabéns pela decisão de pegar a estrada. Esse é o primeiro passo!
      Se seu sonho é conhecer a Grécia, vá fundo. O país é lindo e bastante seguro para uma mulher viajando sozinha. Se você fala um pouco de inglês, será o suficiente para se virar por lá.
      Realmente, enxugar o roteiro e visitar uma quantidade menor de países é melhor, pois você perde menos tempo em deslocamentos e aproveita melhor o seu tempo. Se essa é a sua primeira viagem sozinha, sugiro que você comece por Portugal, onde o idioma vai lhe ajudar a se sentir mais desenvolta e aí você vai ganhando confiança.
      Se você detalhar melhor o tipo de ajuda que precisa, acho que fica mais fácil organizar as informações. Manda suas dúvidas que tentarei ajudar;
      Um abraço

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  2. Ola, boa tarde. Já li seu blog quase todo e cada vez gosto mais. Nunca viajei sozinha, mas a primeira e ultima viagem que fiz pra fora do país (Uruguai e Argentina) com uma amiga de desestimulou a viajar com outra pessoa quando o negocio é conhecer outro país. Gastei e não aproveitei nada da viagem. Hoje estou amadurecendo a ideia de fazer o caminho de Santiago de Compostela sozinha. Vc acha que não terei problemas em estar sozinha? Não falo nenhum outro idioma além do nosso português, isso é um empecilho para minha viagem? Aguardo sua resposta.

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    1. Oi, Estudando Direito,
      Acho bem tranquilo fazer o Caminho de Santiago sozinha. Você vai conhecer bastante gente nos albergues de peregrinos e pode escolher caminhar com essas pessoas ou ir no seu próprio ritmo - eu fui com uma amiga, mas andei quase todo o tempo sozinha e achei bem seguro. Tem gente do mundo todo na rota, mas, se você se sentir insegura por causa do idioma, faça o Caminho Português. Além do mais, o Galego é muito parecido com o nosso idioma (até mais que o Castelhano), então, acho que você conseguirá se comunicar sem dificuldade. Em geral, os moradores das cidades e aldeias ao longo da rota são bem solícitos com os peregrinos. Aqui no blog tem vários posts sobre o Caminho de Santiago>>>

      http://www.fragatasurprise.com/search/label/Caminho%20de%20Santiago

      Boa viagem pra você!

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    2. Ah, e obrigada pelos elogios à Fragata :) :)

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  3. Adorando seus posts CyntiaParabéns!!! A primeira vez que viajei sozinha foi em junho deste ano, passei 40 dias no Caminho Francês de Santiago de Compostela desde SJPP e foi maravilhoso, não tive nenhum problema, a maior parte do tempo caminhei sozinha e algumas vezes acompanhada com italianos, americanos, franceses. Detalhe não domino inglês ou espanhol mas consegui me virar numa boa, realizei um sonho antigo aos 62 anos de idade. O bom de viajar sozinha é que você faz o que o coração manda, claro que sempre alerta.

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    1. Que legal, Ana! Fico sempre muito feliz quando vejo que, nós, as meninas, estamos aprendendo o prazer de cair na estrada sem depender de companhia. Quando nos damos conta de todas as coisas que fazemos sozinhas no dia a dia, percebemos que viajar e curtir o mundo na nossa própria companhia é muito menos arriscado ou trabalhoso que o resto, né?

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  4. Ótimas dicas já fiz várias viagens sozinha, incluindo a Ásia e seus tigres kkkkk Suas dicas e as tecnologias atuais teriam me poupado algumas dificuldades, mas até essas foram parte integrantes da exótica experiência de viajar sozinha. tb não curto roteiros fixos,

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    1. E é tão bom, né, Renata? Aos pouquinhos, a gente vai pegando o jeito e viajar só com a gente mesma vai ficando mais e mais interessante. Hoje, pra mim, é necessidade básica :)

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  5. Esqueci de comentar que adorei a música do post

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  6. Devemos ter medo de ficar sentados no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar... e não ir sozinha viajar!!

    Boas viagens, sempre!!

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  7. Também recomendo. Tem suas muitas delícias. E as dicas aí de cima, tudo a ver.

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