segunda-feira, 30 de maio de 2011

Do outro lado da ponte

Vai dizer que não é bonita?
(Conjunto Nacional, Avenida Paulista)
Música deste post: Lá vou eu, Rita Lee

Sinto muito, pessoal, mas este não é um post sobre Niterói. Os petiscos do Caneco Gelado do Mário e os camarões do Mercado de São Pedro bem merecem uma ode, mas não será agora.

A "ponte" a que me refiro começa no Santos Dumont e acaba em Congonhas, de frente para o emaranhado urbano onde moram memórias e amigos queridos. Lá estão a São Paulo que eu vivi e a São Paulo que prossegue, indiferente à minha saudade, mas sempre acolhedora nos reencontros.

As "minhas" cidades são muitas — Salvador, onde nasci e cresci, o Rio, onde moro, Brasília, que me abraçou por oito anos... Todas elas generosas companheiras de muita coisa feliz. Mas, em nenhuma outra, a felicidade foi tão intensa quanto em São Paulo. Não era a cidade. Era eu, vivendo aquela mistura de auto-suficiência e quase-certeza  da imortalidade que nos assola aos trinta e poucos anos.

Conjunto Nacional
Lá se foram duas décadas, mas a alma que eu tinha aos 30 ainda volta inteirinha, basta cruzar a Paulista com a Consolação. Danem-se os detratores que não conseguem enxergar a minha Sampa: viva, instigante e bonita — é, sim! Se você duvida, experimente atravessar o Viaduto do Chá debaixo de chuva, cantarolando, “Vitrines”, de Chico... Dá de dez em Paris.

Tá certo, viver em São Paulo exige perícia: esqueça o automóvel (e olha que morei lá na década de 90!), aprenda a cozinhar (as filas dos restaurantes serão sempre insuportáveis, no fim de semana) e permaneça sempre aberto ao inesperado (você vai desistir de ver o filme, quando der de cara com a fila do cinema. Mas, virando a esquina, sempre haverá um café simpático, ou um boteco atraente, ou uma banca de livros usados...). Do jeito que andam as coisas ultimamente, recomenda-se, ainda, aprender a nadar e fazer um curso de rafting, caso tenha que remar nas correntezas das enchentes.
Viver em Sampa 
exige perícia
(Monumento a Anhanguera,
entrada do Parque Trianon)

Principalmente: tenha uma cozinha grande em casa, pois é lá que você vai passar a maior parte do tempo, com os amigos. Rio é calçadão, Brasília é shopping e Salvador é varanda. Programa de paulista é bater papo na cozinha.

Se viver em Sampa não é para iniciantes,  passear aqui  é uma das melhores coisas do mundo: enquanto a multidão passa, afoita, os museus, livrarias, cinemas, teatros e restaurantes parecem que são só meus. O segredo é flanar, sem pressa e sem horário, enquanto o resto da humanidade vai trabalhar. Estar de férias em São Paulo tem o mesmo sabor transgressor de matar aula e ir ao cinema numa tarde de segunda-feira.

Meus programas-xodó continuam (quase) todos lá, resistindo às enchentes e aos congestionamentos indescritíveis. E dá para fazer quase todos de metrô — meio de transporte rápido, eficiente e confortável, fora da hora do rush.

Na Paulista, é obrigatória a passada no Conjunto Nacional, um dos lugares que mais gosto de fotografar — sem contar a disneylândia para traças de óculos que tem lá dentro, a gigantesca matriz da Livraria Cultura. Três quadras adiante, está o Parque Trianon, onde eu gostava de ler o jornal, nas manhãs de sábado.

Bem em frente ao Trianon, mora o quadro que me ensinou a gostar de pintura: uma Anunciação, de El Greco, amor à primeira vista, desde que eu tinha uns sete ou oito anos de idade. A tela é apenas uma das maravilhas do acervo do MASP, que tem Calder, Diego Rivera, Torres-Garcia, Frans Post, Modigliani e um Van Gogh que eu amo, O Escolar — por mais que eu saiba o nome do quadro, sempre penso nele como "o jornaleiro", sei lá por que.

Detalhe do Estádio do Pacaembu
Outro roteiro delicioso é ir à Liberdade comprar quimonos, darumas e quinquilharias (tem sempre um descascador de batatas matador) e tropeçar num restaurantezinho simpático, anônimo e delicioso. Também adoro descer do metrô na linda Estação da Luz, visitar a Pinacoteca e depois ascender ao Olimpo, traçando uma lula recheada ou um carneiro, nas mesas simples do Acrópoles.

E tem o Pacaembu, o estádio mais lindo do mundo — como sampaulina, eu devia citar o Morumbi, mas não dá pra competir. Satisfaço-me com o hexacampeonato brasileiro. Além de namorar as linhas elegantíssimas do estádio, adoro passar horas no Museu do Futebol, que funciona aqui desde 2008. Esqueça o Louvre, o Metropolitan e o Prado: os mestre dos pincéis ficam pálidos, diante da arte enfeitiçante de Leônidas da Silva, Pelé, Garrincha, Falcão, Sócrates, Zico, Ronaldo...

Estação da Luz
Quem andou sofrendo abalos foi meu roteiro boêmio. Fecharam o Riviera e a Baguette. O Bar Brahma virou um pastiche. Sabe-se lá que fim levou o Longchamps. E o Bar das Putas, depois da reforma, deveria ter trocado de nome para “Lounge das Senhoras que Comercializam Sexo”. Em compensação, ganhamos preguiçosos almoços de sábado, na varanda do Canto Madalena, um lugar da Vila que ainda parece com a Vila de antigamente.

São Paulo muda todo dia, mas a essência está sempre lá. Em caso de emergência ou de estranheza, é só recorrer aos talismãs: as cadeiras vermelhas do Frevinho, o alho crocante do Filé do Morais e o marzipan da Holandesa ainda fazem girar direitinho as espirais do Túnel do Tempo.

Fachada do MASP, na Avenida Paulista

Alguns favoritos: 

Conjunto Nacional- Avenida Paulista 2073, entre a Augusta e a Padre João Manoel. Inaugurado em 1958, reúne um centro comercial, escritórios e um prédio residencial. A arquitetura meio "jetsons-contidos" é deliciosa. Tem um cinema, no térreo e um paraíso chamado Livraria Cultura. De segunda a sábado, das 9h às 22h. Aos domingos, fecha às 20h. (Metrô Consolação).

Museu de Arte de São Paulo, MASP- Avenida Paulista, 1578 (Metrô Masp/Trianon). De terça a domingo, das 11h às 18h. Nas quintas, fecha às 20h. Entrada R$ 15,00. Considerado o museu mais importante do Hemisfério Sul, tem um acervo espetacular e é programa para longas horas. A cafeteria e o restaurante permitem pausas na farra visual.

Pacaembu: o estádio mais lindo do mundo

Liberdade- O mais interessante no tradicional "Bairro Japonês" é a capacidade que ele tem de revelar restaurantes minúsculos, caseiros e acolhedores que a gente não consegue encontrar de novo, quando tenta voltar. Faz parte do mistério dessa vizinhança, hoje democraticamente ocupada também pelas demais colônias asiáticas de Sampa. É ótimo bater bater pernas pelas transversais da Rua dos Estudantes-- é assim que a gente descobre os restaurantes "encantados"-- revirando as lojas de produtos orientais. Os quimonos de puro algodão, a melhor coisa que existe para vestir em casa, estão cada vez mais raros e mais caros. Com um pouquinho de perseverança, porém, ainda é possível encontrá-los a preços razoáveis. Outra compra obrigatória são os Darumas, aqueles bonequinhos japoneses nos quais a gente pinta um olho, quando faz um pedido, e só pinta o outro quando o desejo é atendido. Nem meu ateísmo resiste... (Metrô Liberdade).

Estação da Luz- A Linha Azul do Metrô tem uma parada aqui. Inaugurada no final do Século XIX, a Luz é uma das coisas mais bonitas de São Paulo. A estrutura da gare, em ferro fundido, veio da Inglaterra. Um jeito bacana de curtir a estação é embarcar num trem até Paranapiacaba, antiga vila ferroviária debruçada sobre o "dente" da Serra do Mar.

Detalhe da fachada da Pinacoteca

Pinacoteca- Praça da Luz nº 2 (Metrô Luz). O vasto acervo, com ênfase na arte brasileira dos séculos XIX e XX, costuma ganhar a companhia de exibições temporárias sempre instigantes. O prédio é maravilhoso, também.


Pacaembu/ Museu do Futebol- Praça Charles Miller s/n (Metrô Clínicas + ônibus). Inaugurado em 1940 e tombado pelo patrimônio histórico, o Pacaembu é de babar de tão bonito, com suas elegantes linhas Art-deco. O Museu do Futebol é uma delícia, super-interativo, uma espécie de "Torre do Tombo futebolística", onde apaixonados e curiosos podem ouvir narrações radiofônicas, assistir depoimentos e coletâneas de lances geniais. No vão sob a arquibancada, a projeção de imagens com os cantos das torcidas é simplesmente de arrepiar-- fico com um nó na garganta só de lembrar. Na primeira vez que fui ao Museu, passei quase o dia todo e, não satisfeita, voltei no dia seguinte.  Quem não gosta do Museu do Futebol é ruim da cabeça ou doente do pé. Visitas de terça a domingo, das 10 às 17 horas (atenção às alterações em dias de jogos vespertinos). Entrada, R$ 6.

Exterior da Estação da Luz
FrevinhoRua Augusta, 1563 (Metrô Consolação). É um típico diner dos anos 50 (inaugurado em 1956), com suas cadeiras vermelhas e mesas de fórmica, sempre impecáveis. O beirute daqui (rosbife, queijo e tomate, no pão sírio) é a prova que sandubas também podem ser sublimes.

Holandesa- A loja original fica na Barão de Limeira 1170 (Metrô Santa Cecília), onde eu costumava bater o ponto para a sobremesa, no tempo que trabalhava ali perto, na Rua Conselheiro Nébias.  A região anda meio horrorosa, por conta da proximidade com a "cracolândia", mas vale a pena dar um pulo numa das filiais (veja no site) para experimentar as pequenas porções de felicidade contidas em singelezas como balas de goma, língua de gato e rolinhos de marzipã.

Museu do Futebol

Canto Madalena- Rua Medeiros de Albuquerque, 471 - Vila Madalena (Metrô Vila Madalena). A melhor referência para chegar aqui é procurar "A Rua do Sacolão". O bar é um refúgio tranquilo num bairro que ficou mauricinho demais para o meu gosto (ai, que saudade da Vila bicho-grilo dos anos 80...). As melhores mesas ficam na varanda e no quintal. O cardápio de petiscos é sempre tentador e há várias opções de pratos nordestinos. Adoro!

Filé do Morais- Praça Júlio de Mesquita 175, Centrão (Metrô República), ou Alameda Santos 1105 (Metrô Masp/Trianon). Diariamente, a partir das 11h. Domingos, segundas e terças, até à meia noite. Quartas e quintas até a 1h. Sextas e sábados fecha às 2h. Um dos melhores filés de Sampa, experiência sublime, muito graças ao acompanhamento de brócoles e alho crocante. Anda meio carinho, mas vale a pena. Gosto mais da casa original, mas a filial da Alameda Santos quebra um galho danado, quando estou só de passagem, com pouco tempo e muita saudade.

Restaurante Acrópoles- Rua da Graça 364, Bom Retiro (A estação de Metrô mais próxima é a Luz, mas exige uma boa caminhada). Este restaurante grego é muito simples-- há pouco mais de uma década, a gente ia até à cozinha e escolhia o que ia comer direto das panelas. Hoje já tem serviço nas mesas, os preços subiram um bocado, mas ainda é um lugar para se sentir à mesa com os deuses-- não divindades quaisquer, mas aqueles deuses bons vivants que só os helenos poderiam ter inventado. A estrela do cardápio é a moussaka, uma "lasanha" grega com lâminas de berinjela, no lugar da massa. Mas eu adoooooro o carneiro, acompanhado de um purê de batata temperadíssimo com alho. A lula recheada simplesmente não é deste mundo.

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2 comentários:

  1. Oi Cynthia, cheguei ao seu blog através de uma seguidora e adorei! Vi que temos muito em comum. Voltarei mais vezes...amei esse post sobre Sampa, cidade que eu adoro, beijos,

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  2. Cyntia, Sampa é superlativo. Meu lugar favorito é o Mercado Central, gostaria de ter seu talento para fotografar o mix de cores e sabores, formas e odores de temperos exóticos, sem contar a grandiosidade do pé direito do prédio.

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