sexta-feira, 8 de abril de 2011

Cachoeira, um tesouro colonial da Bahia

Ah, essas fachadas apaixonantes da cidade colonial de Cachoeira

Música deste post: Oriente, Gilberto Gil

O Recôncavo Baiano, pra mim, é o lugar mais bonito do mundo. As muitas décadas de esquecimento e maus tratos não arrefeceram a luz exuberante, que faz as cores de lá serem sempre as mais vivas e sedutoras de uma região de belas paisagens e dona de belas cidades coloniais como Cachoeira, São Félix, Muritiba e Maragogipe.

Pertinho de Salvador (distâncias que giram na casa dos 100 km), as cidades coloniais do Recôncavo são uma super opção de passeio para quem vai à Bahia. Uma região para descobrir a força da cultura herdada dos africanos — e testemunha a resistência dessas tradições. As construções seculares, a culinária e as celebrações são as marcas desta concha de terra que se enrosca em torno das águas da Baía de Todos os Santos. Um universo fascinante que precisa entrar na agenda dos viajantes.

A pequena cachoeirana comemora a restauração da Igreja da Ordem Terceira do Carmo no 24 de agosto, Festa de São Bartolomeu
O destino mais conhecido do Recôncavo Baiano é Cachoeira, uma cidade  preciosa. Quem a vê à luz dos lampiões acredita facilmente que voltou no tempo. É por isso que gosto de chegar à noites e andar descalça pelo calçamento irregular, admirando as fachadas dos Séculos 18 e 19, parando na beira do Paraguaçu para ver as luzes de São Félix, do outro lado do rio.

Adoro a história de Cachoeira. A independência do Brasil começou aqui, no levante de 25 de junho de 1822. Quando Pedro I deu o grito do Ipiranga, os cachoeiranos já tinham enfrentado e posto para correr os portugueses, que tentaram conter o levante bombardeando a cidade, com uma canhoneira ancorada no Paraguaçu.

A Igreja da Ordem Terceira do Carmo de Cachoeira e o céu sempre escandalosamente azul do Recôncavo
O início da Guerra de Independência é a grande data de Cachoeira. Todos os anos, no 25 de Junho,  a cidade vira capital da Bahia por 24 horas. A celebração tem um grande desfile cívico, samba de roda e saudação nos terreiros.

É arrepiante ouvir milhares de pessoas cantando o Hino ao Dois de Julho (hoje o Hino do Estado da Bahia), que fala das lutas pela Independência: "Com tiranos não combinam brasileiros corações", diz os estribilho.


Na Bahia, as comemorações da  Independência são muito diferentes das realizadas no resto do país. Nada de parada militar. Quem vem para a rua é o povo. Desfilam as escolas, os blocos afro, os partidos políticos, as filarmônicas, os capoeiristas, congregações religiosas e até as corporações militares, muito mais notadas por suas bandas de música.

Até as datas são diferentes. Além do 25 de Junho, em Cachoeira, há o 7 de Janeiro, na Ilha de Itaparica (marcando a vitória dos baianos sobre os portugueses, numa decisiva batalha naval) e o 2 de Julho, em Salvador, feriado estadual e maior das celebrações, pois marca a vitória definitiva dos brasileiros sobre as tropas portuguesas, em 1823.

O Carro da Cabocla desfila no 25 de Junho, representando as mulheres anônimas que lutaram pela independência
Fora da Bahia, pouca gente sabe que não bastou gritar "Independência ou morte". Os baianos tiveram que lutar.  Por mais de um ano, o povo enfrentou tropas regulares, disciplinadas, bem armadas e treinadas. Contra o exército português, bateram-se os heróis anônimos, filhos de todas as raças, representados nas figuras do Caboclo e da Cabocla — a figura feminina e a masculina postas em condição de igualdade.

Poucos nomes desses guerreiros chegaram até nós: João das Botas, herói da Batalha Naval de Itaparica. Maria Felipa de Oliveira, marisqueira, descendente de escravos sudaneses, que comandou uma feroz resistência à tentativa de desembarque português em Itaparica, e Maria Quitéria de Jesus, a cachoeirana que se vestiu de homem para poder alistar-se e destacou-se pela bravura em combate.

A Igreja do Rosarinho dos Pretos, que congregava os escravos e os negros libertos de Cachoeira. Abaixo, o Cemitério dos Nagôs e uma lápide de Antonio Domingos Martins, "natural de África"

Desde os início dos anos 2000, Cachoeira ganhou um impulso de revitalização. Seu patrimônio histórico, de imensa beleza e valor simbólico, vem sendo restaurado e a cidade está ganhando novo sopro de animação com a chegada da Universidade Federal do Recôncavo.

Um dos primeiros tesouros da cidade a ser restaurado foi a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, do iniciozinho do Século 18. O edifício é um primor de beleza e requinte, inteiramente decorada com azulejos e, principalmente, entalhes de madeira. A referência recorrente a motivos chineses (as chamadas "chinesices") que caracterizam os desenhos é influência de Macau, de onde também vieram as imagens de santos com olhos ligeiramente puxados.

A imagem de Cristo tem os olhos ligeiramente puxados, uma marca dos artesãos de Macau, antiga colônia portuguesa na China. À direita, detalhe da esfuziante decoração em "chinesices" da Ordem Terceira do Carmo
Ao lado da Ordem Terceira, a Igreja do Carmo também passou por uma cuidadosa restauração para funcionar como um centro de convenções. Do conjunto ainda faz parte o antigo Convento do Carmo, que desde os Anos 70 foi convertido em hotel.

Parede original, em taipa, no Rosarinho dos Pretos e, à direita, a entrada do Cemitério dos Nagôs
Restaurado, o Carmo vai agora funcionar como centro de convenções. À direita, a rica decoração do forro da igreja. Essas pinturas estavam perdidas. Haviam sido retiradas e foram vendidas como lenha. Um funcionário do Iphan na cidade resgatou-as da carroça que ia levá-las para a destruição
Outro conjunto de grande valor cultural e artístico recentemente restaurado foi a Igreja do Rosarinho dos Pretos e o Cemitério dos Nagôs, espaços religiosos da grande comunidade africana e seus descendentes. O Rosarinho é uma edificação simples, mas de beleza comovente.

Dicas práticas


Cachoeira vista do Rosarinho dos Pretos
Como chegar
Cachoeira está a 120 km de Salvador, às margens do Rio Paraguaçu. Para quem está de carro, basta seguir a BR-324 (que liga a capital a Feira de Santana) até o entroncamento para Santo Amaro (terra de Caetano e Bethânia, que também rende ótimo passeio) e seguir pela BA-026.

A BR-324 é duplicada, mas o trânsito costuma enroscar, por conta do intenso movimento. Evite os horários de pico e dirija com cuidado, porque é enorme a movimentação de caminhões.

A Viação Santana faz a viagem de ônibus entre Salvador e Cachoeira em diversos horários (a cada hora), partindo da Estação Rodoviária de Salvador, no bairro do Iguatemi. O trajeto é feito em cerca de 1h40 e a passagem custa R$ 20 (cada perna). A Viação Jauá faz a linha Salvador-Maragogipe e seus ônibus param em Cachoeira em alguns horários.

A 7 km da cidade está o povoado de Belém de Cachoeira

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