domingo, 20 de março de 2011

O Bairro Gótico: minha Barcelona preferida

Eu sei que Barcelona é sinônimo do Modernismo, mas eu me amarro mesmo é no Bairro Gótico
Barcelona é única, mas não é uma só. Ela é a cidade ousada e contemporânea da “herança olímpica” e é o Século XIX mais atrevido que passou pelo planeta, na arquitetura modernista do Eixample. É o “trópico europeu”, na luz exuberante da Barceloneta e de Port Vell. É o terceiro mundo dos becos do Raval...

A minha Barcelona preferida é pouco ensolarada, tortuosa e quase monocromática. Ruas estreitas, paredes de pedra, balcões e pátios sossegados: é no Bairro Gótico e na Ribera que meu coração bate mais feliz.

Museu Frederic Marès
Barcelona é a cidade dos meus heróis. As lendas se dividem: umas atribuem sua fundação a Hércules — velho companheiro, desde as primeiras leituras do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Outras, ao cartaginês Amilcar Barca, pai de Aníbal, meu guerreiro mais querido.

Cartagineses, laietanos, romanos, mouros, visigodos e francos passaram por aqui e, no Século 12 (o meu favorito), a cidade era a capital de uma potência marítima.

Praça de Sant Felip Neri, que parece sempre imune à muvuca
Basta tomar uma transversal da Carrer de Ferrán ou da Carrer de Sant Jaume, cair no emaranhado de ruazinhas estreitas e sentir essa velha Barcelona impressa nas portadas das igrejas góticas e nas pracinhas quietas (quase pátios particulares). Nem parece a mesma cidade onde a farra não tem fim.

Gosto especialmente da área de El Call, o antigo bairro judeu, do entorno de Santa Maria Del Pi e da Plaça de Sant Felip Neri, pedacinhos da cidade que sempre parecem imunes à muvuca.

O Bairro Gótico encanta pelo monumental
e também pelos detalhes
Sempre dá vontade de me perder no Bairro Gótico, mas sempre acabo chegando na Catedral ...
Comece sua visita pela Catedral, pois tudo no Bairro Gótico parece girar em torno dela. Dedicada a Santa Eulália, padroeira da cidade, a igreja atual, construída entre os séculos 13 e 15 é o terceiro templo cristão erguido naquele local. A gente vê aquelas paredes de pedra cinzenta pelo lado de fora, não imagina o espetáculo que nos espera no interior da Catedral, reflexo do esplendor alcançado por Barcelona na Idade Média.

O interior da Catedral: tudo nela é superlativo
Altares da Catedral de Barcelona
Outra visita imperdível é ao impressionante conjunto do Museu d’História de Barcelona, com destaque para o Palau Reial (Palácio Real), onde acontece literalmente uma viagem no tempo: na entrada, um elevador leva ao subsolo do palácio e o visitante desembarca em Barcino, a Barcelona Romana. Caminhando por passarelas, a gente "percorrer" as ruas da cidade antiga, entre vestígios de lojas, oficinas e residências.

A história do Museu d’História de Barcelona e a descoberta desse trecho escavado de Barcino é bem interessante: um dos edifícios do conjunto foi movido para perto do Palácio Real, pedra por pedra, na década de 30, para a abertura da Via Laietana, que hoje corre entre o Bairro Gótico e o Born. Foi durante a terraplanagem do terreno que iria receber o esse prédio que os restos da cidade romana foram descobertos e incorporados ao museu.

Museu d’História de Barcelona, no antigo Palácio Real
Museu d’História de Barcelona divide-se em diversos espaços pela cidade, como o Monastério de Pedralbes e a Casa de Guarda do Parc Güell. O conjunto monumental que abrange o Palácio Real e outros edifícios no Bairro Gótico e tem entrada justamente por aquele palácio transplantado, na Plaça del Rei.

Casa de la Ciutat
O belo palácio que abriga a Prefeitura de Barcelona exibe uma série de obras de arte, inclusive um Mirozinho, super à vontade no cenário gótico
Também recomendo vivamente visita à Casa de La Ciutat, sede do Ajuntament (Prefeitura), um palácio espetacular, do Século 14, escondido sob a fachada neoclássica que dá para a Plaça Sant Jaume (há uma bela fachada gótica na Carrer Ciutat, que é onde funciona a entrada do museu).

O Salão do Cent, sede do conselho de Barcelona
 desde o Século 14
A principal atração da Casa de la Ciutat é o Saló del Cent, onde se reúne o conselho da cidade desde o Século 14. A decoração em vermelho e dourado é um escândalo de bonita, como, aliás, todo o edifício. No andar térreo, preste atenção no pátio e nas obras de arte expostas. São peças modernistas, como Mulher, de Miró, que fazem um contraponto extremamente agradável ao cenário gótico.

Museu Frederic Marès
Um lugar pouco badalado que vale a visita é o Museu Frederic Marès. Tem um acervo de esculturas e o pátio mais bonito que vi Barcelona, sombreado pelas laranjeiras carregadas de frutos e com vista para a torre da Catedral.

O Museu Picasso está instalado em um grupo de palácios da histórica Carrer de Montcada
Do outro lado da Via Laietana, no bairro de La Ribera, é imprescindível explorar cada cantinho da Carrer de Montcada. A rua começa na Capela de Sant Marc, construção românica do Século 12 e termina na badalada Plaça del Born. É considerada a via medieval mais preservada de Barcelona.

Não deixe de reservar um tempinho para ver o Museu Picasso, que fica na Montacada, instalado em cinco maravilhosos palácios medievais adaptados. Se não chega a escandalizar em termos de acervo, o museu dá um banho na montagem didática da exposição, contextualizando as diversas fases do artista. Para informações sobre horários e preços, clique aqui.

El Xampanyet, para uma taça de cava 
Outra atração imperdível da Carrer de Montcada, no número 22, é El Xampanyet, o lugar para uma taça de cava, o espumante catalão. Aberto em 1929, é uma instituição de Barcelona.

A rua estreita e seus becos levam a fachadas encantadoras e, lá no fim, ao edifício mais maravilhoso da cidade, a linda Igreja de Santa Maria Del Mar. Chamada de “a catedral do povo”, Santa Maria foi construída pelos homens do mar da Barcelona medieval, estivadores e pescadores, corporações de ofício mais humildes e excluídas da freqüência às paróquias mais elegantes.

Santa Maria del Mar
Simples, perfeita e comovente arquitetura, um lugar para ficar horas pensando na vida, ouvindo o silêncio. À noite, Santa Maria iluminada parece um sonho.

Santa Maria del Mar foi erguida no Século 14, em estilo gótico catalão. Sozinha, ela justifica a visita a Barcelona. A história da construção do templo é o pano de fundo de um romance badalado, "A Catedral do Mar", de Ildefonso Falcones, best seller lançado em 2006. O livro é meio chato  Falcones resvala muito  do clichê , mas não permita nem de longe que isso afete sua contemplação da maravilhosa Santa Maria del Mar.







Para um passeio virtual pelo Bairro Gótico e La Ribera, há o mapa interativo montado pela Universidade de Barcelona. De corpo presente, nossa "caminhada medieval" começou na Plaça Sant Jaume, erguida no mesmo local onde existiu o Fórum de Barcino, a ancestral romana de Barcelona. Lá estão o Palau de la Generalitat (sede do governo da Catalunha) e a Casa de la Ciutat.

A catedral está uma quadra atrás da Generalitat, seguindo-se pela Carrer del Bisbe, com direito a passar sob uma bela passarela gótica. Para alcançar El Call, Sant Felip Nery e Santa Maria del Pi, vire à direita na Plaça del Bisbe. Guarde o mapa e perca-se, porque essa é a graça. O melhor da Barcelona Gótica  é andar sem rumo, descobrir pequenas preciosidades, ouvir os próprios passos numa caminhada sem pressa.


Dicas práticas

Catedral de Barcelona
Entrada pela Pla de la Seu

De segunda sexta, das 8h às 12:45h (igreja e claustro), visita gratuita. Das 13 às 17:30h, a visita é só à igreja e custa €7, com direito a ver o coro, terraços e algumas capelas que têm acesso restrito. O claustro abre das 17:45 às 19h, com entrada gratuita.

Aos sábados e vésperas de feriados o esquema de visitação é o mesmo, mas a igreja também abre das 17:15h às 20 horas, com entrada gratuita.

Domingos e feriados, a entrada gratuita na igreja e claustro, das 8:30h às 13:45h. Das 14h às 17, entrada paga (7 €).

Museu d’História de Barcelona 

A entrada para o museu custa 7 Euros e o espaço funciona das 10h às 19 horas (no inverno, fecha entre as 14 e as 16. Consulte os horários aqui.

A Casa de la Ciutat
As vistas são apenas aos domingos, das 10h às 13:30h. A entrada é gratuita.

Museu Frederic Marès
Plaça de Sant Iu, n° 5

Santa Maria del Mar
Visitas gratuitas. De segunda a sábado, das 9h às 13h e das 17h às 20:30h. Domingos, das 10h às 14 e das 17h às 20.

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4 comentários:

  1. Passei alguns dia na cidade e dei aquela geral, passeando sem rumo. Mas foi no Gótico que me perdi. Andei, andei e fotografei. Foram deliciosos passeios pelas ruelas do Gótico, especialmente após anoitecer - horário em que fica ainda mais especial. Foi paixão! Abraços.

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    1. Bom, eu sou suspeita, né Paula? Eu tenho mania e paixão pelo Século 12. Troco qualquer farra por uma visita a um claustro medieval :)

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  2. Também é a minha Barcelona preferida! Amo!

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    1. A região mais fascinante de uma cidade espetacular. Não é pouco, né?

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