domingo, 23 de janeiro de 2011

Puerto Madero, o "outro país"

Uma tarde em Puerto Madero
Música deste post: Too darn hot, Stacey Kent

Como já contei num post anterior, os portenhos da gema não curtem muito Puerto Madero. "Que personalidade tem isso aqui?", vociferava o taxista Estéban, enquanto me levava até o Museu Fortabat, no Píer 4 (uma coleção de 400 obras de primeira linha que você tem que ver). "Para nós, é um outro país".

Desconfio que não seja só a arquitetura meio "gringa" de Puerto Madero que os portenhos  esconjuram: a revitalização que deu origem ao novo bairro foi obra dileta do governo Meném, uma era da qual a Argentina não gosta muito de lembrar.
Puerto Madero tem vidro e alumínio demais para uma cidade que se orgulha de sua "arquitetura europeia". Mas os brasileiros amam
Puerto Madero tem mesmo um pouquinho da cara daquela megalomania neoliberal que pretendeu "levar a Argentina ao primeiro mundo" na base da maquiagem e da especulação financeira. Talvez apresente-se aos argentinos como uma espécie de logomarca do sonho de moeda forte e "modernização" que acabou em crise institucional e poupanças de uma vida inteira virando farelo no curralito bancário, na virada de 2000 para 2001.

Os brasileiros, porém, não estão nem aí, lotam Puerto Madero, desfilam pelos malecóns arrastando sacolas e mais sacolas de compras. É inegável que a área é bonita e agradável (depois das 18 horas, quando o sol dá uma trégua, porque ainda deixa muito a dever no quesito arborização).

Um raro toque bucólico em Puerto Madero
Entre a última década do Século 19 e 1926, Puerto Madero sediou o Porto de Buenos Aires. Depois disso, a área foi abandonada e virou o que, na Bahia, a gente chama de "Boca de Zero-Nove" — um lugar perigoso e soturno. Só em 1989 voltaria a ressurgir para a cidade, à custa de um investimento total de US$ 1 bilhão. Hoje, é uma mistura de centro financeiro, área residencial chique, pólo de hotelaria cara e shopping de lazer.

Antes da inauguração do Museu Fortabat, em 2008, meu principal motivo para ir a Puerto Madero era a filial mais moderninha do tradicional restaurante Sorrento, que além de servir umas vieiras simplesmente matadoras, ainda tem um sorvete de zabaione perfeito.

Puente de Las Mujeres, do arquiteto Santiago Calatrava, marca visual mais conhecida de Puerto Madero

Tenho boas lembranças de um fim de semana passado no bairro, voltando de Colonia del Sacramento (meu xodó uruguaio), em 2006: ótimos restaurantes japoneses, malecóns feitos para caminhadas preguiçosas, no friozinho de outubro, e mordomia daquelas que estragam a cidadã, no então Madero by Sofitel (com diárias promocionais de US$ 100!!). O hotel mudou de bandeira, mas ainda está lá.

A figura de proa da Fragata Sarmiento é a efígie da República Argentina
Os mastros da Fragata Sarmiento desafiando o "paliteiro" de espigões de Puerto Madero
Outro bom motivo para ir a Puerto Madero é visitar os barcos-museus Fragata Sarmiento e Corveta Uruguay, ancorados nos Diques 1 e 2 e abertos ao público  a Fragata Surprise não poderia perder a chance de socializar com as colegas...

A Fragata Sarmiento foi construída nos estaleiros de Birkenhead (na margem do Rio Mersey oposta a  Liverpool), no finalzinho do Século 19, com capacidade para 350 tripulantes, para servir de embarcação-escola para a Marinha Argentina. Com propulsão mista (vela e vapor), como mandava a época. Foi usada para treinamento até 1961. 

Programa legal: visitar uma embarcação do final do Século 19 e imaginar a vida a bordo
A Corveta Uruguai, construída em 1874, é o veleiro mais antigo ainda inteiro, em toda a América do Sul. Foi usada em operações militares em também em muitas viagens científicas, navegando as águas que banham o extremo Sul do continente e ficou famosa pelo resgate dos exploradores suecos Larsen y Nordenskjöld, presos no gelo da Antártida, em 1903.

No verão, creio que o melhor motivo para ir a Puerto Madero, desafiando o sol assassino, é poder entrar na Sorveteria Freddo e devastar várias bolas de sorvete: limão (maravilhoso), maracujá (perfeito) e framboesa (de gritar, de tão bom!). Os sorvetes da Freddo são ótimos em qualquer filial, mas ficam sublimes quando a gente está a um passo da insolação.

A Sarmiento é tombada como monumento nacional da Argentina
Dicas práticas
Como chegar Puerto Madero está a uma distância bem confortável do chamado Microcentro de Buenos Aires e do bairro de San Telmo. Da Praça de Mayo até lá, por exemplo, são cerca de 600 metros de caminhada. A estação de metrô mais próxima é a Leandro N. Alem, na linha B.


Endereços e horários
Fragata Sarmiento
Dique 3, Avenida Alicia Moreau de Justo. Aberta à visitação diariamente, das 10 às 20 horas. A entrada custa 5 pesos.

Corveta Uruguay
Dique 4, Avenida Alicia Moreau de Justo. Diariamente, das 10h às 19h. Entrada 5 pesos.


Museo Fortabat
Olga Cossettini nº 141, Puerto Madero Este. De terça a domingo, das 12h às 20 horas. Entrada 60 pesos. Aqui no blog tem um post específico sobre o Museu Fortabat

Restaurante Puerto Sorrento
Alicia Moreau de Justo 410. Cozinha mediterrânea. Além das vieiras, tem um "jardim de mariscos" respeitável. O jantar no terraço, com vista para o rio, é um programa delicioso.
Sorveteria Freddo
Tem muitas lojas espalhadas pela cidade, a minha preferida é a do Dique 2, em Puerto Madero. Tem uma variedade grande de sorvetes cremosos (tipo italiano), que não são muito a minha praia, mas dá um show nos "frutales", sem leite (tipo sorbet).


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