quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Colonia del Sacramento, a moça na janela


Música deste post: Todo se transforma, Jorge Drexler

Diz a lenda que gregos e troianos guerrearam 10 anos por uma mulher. Portugueses e espanhóis, mais pragmáticos que galantes, enfrentaram-se durante 35 anos pela posse de um ponto estratégico à beira do Rio da Prata. Se pudessem hoje ver a cidade que brotou daquele assentamento colonial, porém, talvez se sentissem tão épicos quanto os personagens de Homero.


Fundada por portugueses, em 1680, Colonia del Sacramento trocou de mãos entre os ibéricos algumas vezes, até 1715. A infância da cidade é uma história de cercos e resistências. Entretanto, é difícil imaginar um pomo da discórdia mais plácido que Colonia. Nada aqui evoca alabardas e arcabuzes: ruas sempre sombreadas e silenciosas, cortinas de crochê e vasos de flores nas janelas, banquinhos para sentar na calçada e ver a vida passar...

Uma rua típica de Colonia:
bougainvilles, calçamento de pedras e lampiões
Toda vez que venho a Colonia, penso nas moças do Século 17, ocultas pelas gelosias, observando, com certo enfado, o desfile dos pretendentes diante sua porta. Pra mim, Colonia é a moça na janela, indiferente aos esforços de portugueses e espanhóis. 

A cidade é pequena, relativamente plana e perfeita para ser percorrida a pé -- sempre à sombra dos onipresentes plátanos. Aqui e ali ainda há restos das muralhas e dos bastiões destinados à defesa da cidade. Algumas casas de colonos portugueses, erguidas no Século 18, ainda estão de pé.

Colonia é para ser descoberta a pé

Plaza Mayor, com o Farol, ao fundo
O Farol e o Portão do Campo estão em todos os postais. Mas não são os monumentos que fazem o encanto do lugar. O encanto de Colonia é o conjunto de suas fachadas, o sossego, o deleite e a preguiça que tudo aqui evoca.

Mais que os pontos turísticos, são as fachadas anônimas de Colonia que produzem mais encanto


Da Plaza Mayor, a principal do Bairro Histórico, partem passeios guiados, para quem quiser conhecer um pouco mais sobre a historia da cidade. Nas três vezes que estive em Colonia, jurei me engajar numa dessas visitas, mas acabo sucumbindo ao apelo das árvores centenárias da praça e fico horas sentada num dos banquinhos, curtindo a brisa.

Painel de azulejos comemorativo à fundação da cidade e o Portão do Campo, na antiga muralha: testemunhos da presernça portuguesa em Colonia
Muita gente prefere percorrer a cidade alugando um carrinho de golfe -- também há a opção de scooters e mini-buggies. Colonia não é só o Bairro Histórico, tem uma Rambla mais moderna e chique, com belas casas de veraneio, e um centrinho simpático. Mas eu gosto mesmo é de namorar as fachadas coloniais. Desta vez, portanto, resolvi fazer tudo a pé. E, finalmente, deu tempo de visitar os pequenos museus da Plaza Mayor.

Os museus da Plaza de Armas contam um pouco da história da vida dos colonos no Século 18
Essas casas de colonos, originais do Século 18, ainda podem ser visitadas na Calle de los Suspiros (abaixo)

O Museo Municipal Bautista Rebuffo funciona num sobrado português do Século 18, exibe mobiliário, peças sacras e alguns achados arqueológicos indígenas, mas o melhor são os restos de animais pré-históricos, especialmente o tatu gigante (se alguém souber o nome do bicho, cartas para a redação). Atualização em 28 de abril de 2015: o tatu gigante se chama Gliptodonte, informação do jornalista Grant Mariano, que já foi meu editor (rigoroso pra caramba, rss) e está fazendo a revisão da Fragata :).

Já no Museo Casa Nacarello, típica casa de colono do período português (Século 18), é interessante ver a disposição dos móveis e utensílios e a pequena cozinha e perceber como devia ser dura a vida dos primeiros europeus aqui deste lado do Atlântico.

Outras casas de colono bem preservadas podem ser visitadas na Calle de los Suspiros, entre a Plaza Mayor e a beira do Rio.

Plaza de Armas

Outro lugar para ver a história de Colonia é a Plaza de Armas, que já foi a principal da cidade e hoje é de um sossego que não é deste mundo. Lá estão os restos escavados dos alicerces da antiga casa do governador da colônia e de outros edifícios. Passarelas sobre os vestígios arqueológicos permitem que o visitante caminhe pelo antigo traçado urbano do local.

Fachada da Matriz do Santíssimo Sacramento, na Plaza de Armas
A Matriz do Santíssimo Sacramento ocupa o mesmo lugar da igreja construída pelos portugueses na fundação da colônia, em 1680 — a primeira que os europeus erguera no hoje território uruguaio. Seu aspecto atual é do Século 19, resultado de uma reforma que se seguiu à explosão do edifício que, pasmem, guardava um paiol de pólvora na sacristia.

As torres da igrejinha, assim como o Farol, acompanham o olhar do visitante por quase toda a caminhada pelo centrinho histórico. O interior do templo é bem simplesinho, mas vale entrar para ver algumas peças sacras antigas.

O interior da igrejinha (ao centro) e as torres, que disputam
 com o farol o posto de ponto mais alto do Centro Histórico

O Farol de Colonia. Em sua base, ainda estão visíveis
 os restos do Convento de São Francisco
O Farol de Colonia, talvez seu ponto mais fotografado da cidade, foi inaugurado em 1857, sobre as ruínas do antigo Convento de São Francisco Xavier, do Século 17. O objetivo original da obra era reforçar a segurança das embarcações que trafegavam naquele trecho do Rio da Prata, onde eram frequentes os naufrágios. 

O que os construtores não imaginavam era o apelo turístico que a torre teria, nos séculos seguintes. É impossível olhar para o alto do farol sem avistar ao menos uma figurinha humana lá em cima. Nem os 118 degraus da subida desanimam os visitantes.

Final da tarde na beira do Prata, ao fundo, o Bastião del Carmen
Os portões do Bastião
O final da tarde em Colonia tem programa certo. Todo mundo corre para a beira do rio, para ver um pôr do sol bonito até dizer chega nas água do Prata. Descendo a Calle de España, está o o Píer do chamado Porto dos Iates, uma área tranquila, com banquinhos e lampiões. Outro belo camarote para o crepúsculo são as ruínas das muralhas, ao lado do Portão do Campo.

Mas o lugar onde mais gostei de ver o pôr do sol foi no Bastião del Carmen, uma antiga fortificação à beira do rio, convertida em centro cultural. A vasta área arborizada que cercam suas instalações inspira uma caminhada bem tranquila, em meio a esculturas expostas ao ar livre. Também dá para aproveitar a programação cultural do Bastião, que vai de concertos e balés às peças teatrais.

E as dicas práticas para visitar Colonia
 você confere no próximo post

O Uruguai na Fragata Surprise
Montevidéu
Punta del Este

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