terça-feira, 9 de novembro de 2010

Bolívia: os quatro espetáculos da Ilha do Sol

Ilha do Sol: a sensação de estar 
no topo do mundo — e de que o mundo é muito lindo
Ilha do Sol é como aquele filme dos Irmãos Cohen, "No Country for Old Men"— um caso raro de título brasileiro que casa com o original: "Onde os fracos não têm vez". Mas nem a falta de ar nem choradeira dos joelhos devem demover você da indescritível aventura que é visitar essa maravilha das Américas. E não vale só passear pela beirinha do lago. Tem que escalar uma trilha cascuda, a 3.800 metros de altitude, para chegar ao topo da ilha, sentir-se pairando sobre o planeta e ficar extasiada com uma beleza que deixa a gente paralisada e sem palavras.

Em que outro lugar do mundo você aprecia quatro espetáculos absolutamente acachapantes em apenas 12 horas?



Nossa primeira visão da ilha foi do avião, 
no sobrevoo do Titicaca a caminho de Lima
No meu caso, começou com o “nascer da montanha". Depois, veio o pôr do sol mais lindo da minha vida, visto em meio a um silêncio que eu nem sabia que existia. Mas não acaba aí: embora a Ilha do Sol já tenha energia elétrica há mais de uma década, o pessoal é extremamente econômico com o uso da iluminação. O resultado é o céu mais estrelado que vi em décadas. E, pra completar, tem uma alvorada que dá vontade de saber voar, para fazer uma coreografia tendo aquele céu indescritível como cenário.

O Illampu acendendo, com a luz do sol poente

O “nascer da montanha”
Esse foi um espetáculo que descobri por acidente. Ainda estava em dúvida se ia sobreviver à estripulia de caminhar 1,5 km, montanha acima, naquela altitude — na época eu estava prestes a fazer 50, fumante e pouco exercitada (pra não dizer sedentária).

Meus companheiros de viagem (minha irmã, Simone, minha amiga Marúsia, Paulo Lipp, que conhecemos em La Paz e Fabiola Aleyda, nossa guia) tinham apressado o passo na trilha, para chegar ao topo da ilha antes do pôr do sol. Parei para descansar, de costas para o crepúsculo e vi, lá no horizonte, o maravilhoso nevado do Illampu acendendo aos poucos, tornando-se cada vez mais nítido no horizonte, à medida que o sol poente se derramava sobre ele, dourado como uma miragem.

Na chegada à Comunidade de Yumani, Mama Ocllo e Manco Capac recebem os visitantes. À direita, euzinha bebendo da Fonte do Inca, buscando forças para chegar ao topo da ilha
A ilha inteira devia estar olhando para o Oeste, para o pôr do sol, mas eu estava hipnotizada, contemplando, a Leste, o nascer da montanha. A cena tirou o pouquinho de fôlego que me restava. Uma visão de sonho.

A chegada a Yumani. Quando um barco se aproxima, corre todo mundo para o cais para ajudar a descarregar mercadorias
O atracadouro de Yumani
Essa cena linda aconteceu pouco antes de completar três horas que nossa lancha tinha aportado no pequeno povoado de Yumani, na parte sul da Ilha do Sol. Enquanto nossas bagagens eram atadas ao lombo de um burrico, bebemos um gole da Fonte do Inca e nos preparamos para a árdua caminhada. As estátuas de Manco Capac e Mama Ocllo, os filhos do Deus Sol ( diz a lenda, partiram daquele ponto para fundar Cusco e o império Inca), nos deram as boas vindas ao pé da escadaria, início da trilha para o topo da ilha. 

Eu, começando a subida
(sabe de nada, inocente...)
A paisagem vista da trilha: a subida é punk, mas compensa
Depois disso, vivi os 200 minutos mais contraditórios da minha vida, extasiada pela paisagem, que ficava mais e mais linda, à medida que ia subindo, mas completamente devastada pelo esforço físico. Quando o Illampu se acendeu, porém, passou tudo e eu não conseguia desgrudar os olhos dele, como se dependesse disso para continuar respirando — mais tarde, Fabiola explicou que o Illampu é o apu (espírito ancestral, que a tradição andina associa às grandes montanhas nevadas) que rege a juventude e a vitalidade. Tá explicado...

Subindo a trilha - à esquerda, a bagagem. À direita, nós


O pôr do sol
Depois de assistir ao nascer da montanha, ainda me restavam 500 metros, encosta acima, para chegar ao topo da ilha, onde ficava nossa pousada e de onde deu para ver um pôr do sol que parecia se derramar a meus pés. A cena é arrebatadora: a gente se sente da altura do céu (que vai ganhando cada vez mais cores), olhando o horizonte de cima... Lindo de encher os olhos d’água.



Paulo, Fabiola, Marúsia e Simone à luz de velas:
economiza-se o máximo de energia elétrica na ilha
A noite do Titicaca
Vivendo em cidades, a gente esquece a quantidade de estrelas que há no céu. Na Ilha do Sol, a gente se reencontra com todas elas, porque a quantidade de lâmpadas acesas é mínima. No topo das Américas, o nosso velho conhecido Cruzeiro do Sul tem outro sotaque e outra imponência: para as civilizações andinas, a constelação é a Chakaná, a ponte para a Via Láctea e para a outra vida, a inspiração para a chamada "cruz andina", que expressa os três planos da existência.

O céu dos Andes, sobre o Titicaca, não parece uma tela plana salpicada de luzinhas, como nas cidades. Ele é tridimensional, a gente quase sente a distância de cada estrela. E esse céu lisérgico se esparrama por todos os lados, absolutamente límpido, nítido. Vale muito mais que a viagem até lá. Vale estar viva.

Bom dia, mundo!
O nascer do sol
O último espetáculo da Ilha do Sol exigiu um pouquinho de disciplina. Mal o relógio marcou cinco da manhã, Fabiola já estava batendo na porta do nosso quarto para vermos a cena. Eu parecia um zumbi de sono, enrolada em um sobretudo acolchoado que as tropas da Otan usaram no Kosovo (uma das aquisições meio hippies que já fiz no mercado das pulgas de Waterlloplein, em Amsterdã).


As cores da ilha de manhãzinha
Subimos ao terraço da pousada quando o céu já ganhava algumas frestinhas de luz, anunciando a chegada do sol. Não dá para descrever a tonalidade da luz sobre o Titicaca, de manhãzinha. As câmeras fotográficas também são incompetentes para captá-la. Mas eu não vou esquecer.
Aos poucos, o deus Inti (o sol) vai acordando e a ilha acorda junto com ele. A cada segundo, a luz muda de tom. As encostas, cobertas de terraços de cultivo, a pequena enseada, lá embaixo, a superfície do lago — onde será que ele arranja tantos tons de azul? A beleza do Titicaca foi um presente que ganhei para vida inteira.

De manhãzinha, parte do comitê de recepção ao deus Inti
(Simone, eu e Paulo)


Dicas práticas
Nossa lanchinha a caminho da Ilha do Sol
Como chegar 
A travessia do Lago Titicaca, de Copacabana até Ilha do Sol, leva cerca de duas horas. Há barcos regulares que fazem o percurso, partindo às 8:30h (para Yumani) e às 13:30 h (para Challampa). O retorno é às 13:30 (de Yumani) e às 16 horas (de Challampa). A viagem custa 25 bolivianos.

As agências de Copacabana também oferecem excursões à ilha (algumas delas com parada na Ilha da Lua). O roteiro geralmente inclui a travessia da Ilha do Sol por uma trilha: o barco deixa os visitantes em Yumani e os recolhe em Challampa. 



A travessia
Nós fizemos a travessia em uma lanchinha contratada pela Stop Tours — nada faraônica, mas com espaço suficiente. Éramos cinco, mais o piloto, e ainda demos carona para uma moradora da ilha. A paisagem do lago é muito bonita, de um sossego inacreditável. 

A Ilha da Lua vista das ruínas do Templo de Pilcocaina
Depois de duas horas de viagem, com uma parada nas ruínas do Templo de Pilcocaina, atracamos em Yumani. Como contei lá em cima, nessa vila à beira d’água começa uma trilha de 1,5 km que sobe (seria melhor dizer escala) a encosta até o topo da ilha. O caminho, entre terraços de cultivo e pirambeira, é um misto de degraus e rampas bem árduo.

O Templo de Pilcocaina, na pontinha Sul da Ilha
Na volta, descemos por uma trilha diferente, que levava a uma enseada bem aos pés da nossa posada, no Oeste da Ilha. Outro caminho que parecia feito para cabritos, atravessando terraços de cultivo. Marúsia e Fabiola desceram pelo caminho convencional. Eu, Paulo e Simone — achando poucos os tropeços da trilha — resolvemos arriscar uma rota alternativa, que passa por dentro de uma casa em ruínas. Os donos do terreno fizeram tudo para desestimular a proeza: no lugar onde deve ter havido uma escada, há apenas um buraco, com uns 2 metros de fundura, forrado de moitas de espinhos.

Marúsia e Fabíola descendo pela trilha certa

A enseada

Eu, Paulo e Simone escolhemos descer pela pirambeira
O jeito foi escorregar no meio dos espinhos, às gargalhadas, e contabilizar os arranhões. Malgrado nosso esforço, chegamos quase inteiros ao pequeno píer na beira do lago.

E Simone ainda catou um lixinho no caminho.
Ambientalista não descansa...
Cuidados essenciais
A altitude potencializa os efeitos do sol (com o reflexo da água durante a travessia, então, a coisa fica braba). Use litros de protetor solar, chapéu e óculos escuros sempre que estiver ao ar livre. Não deixe que o frio engane você: aquele sol torra qualquer um. 

Quando estiver no barco, trate de se agasalhar muito bem, pois com a lancha em movimento, o frio que já faz na beira do lago vai cair a níveis polares. 

O Titicaca é um lago plácido, mas nem por isso você deve descuidar da segurança quando estiver no barco. Resista à tentação, também, de dar um mergulho naquela aguinha azul, depois de uma caminhada. O Titicaca é tão azul que parece o Mar Egeu, mas suas águas são muito geladas, daquelas que podem matar de hipotermia em minutos.

As llamas e os burricos quebram o maior galho
 no transporte montanha acima
A subida da trilha
Apesar da altitude e da irregularidade do terreno, aposto que você consegue chegar lá no alto sem sofrimento — eu, fumante inveterada, não morri nem nada... Mas pegue leve. Não tente acompanhar o ritmo de gente mais sarada que você, porque com 3.800 metros de altitude não se brinca. Vá sem pressa, respeitando seu limite. A paisagem é tão bonita que você nem vai se importar de demorar um pouco mais na subida. 

Não é necessário carregar a mochila até o topo da ilha. Os moradores alugam burricos ou lhamas que fazem o serviço. Na época (2010), cobravam 15 bolivianos pelo transporte. Mesmo assim, economize na bagagem e leve só o necessário. 

Voltando pra Copacabana
O dia da semeadura
A lancha que nos levaria de volta a Copacabana chegou atrasada, um pouco antes das 10 horas. Era  pilotada por Gregório, morador da ilha, e já trazia uma passageira, a artista plástica Beth Hird, de San Francisco, Califórnia, que estava fazendo uma longa viagem pela América do Sul, registrando em vídeo danças rituais da região. 

Fabiola nos explicou que a demora da lancha foi por causa de uma celebração curiosa, estávamos em pleno Dia del Granizo, ou dia da semeadura, uma espécie de sabá do Titicaca, quando ninguém deve trabalhar. Segundo a tradição, a data deve ser guardada para oferendas a Pachamama, que consistem numa espécie de semeadura ritual, quando além de deitar sementes à terra, os moradores enterram miniaturas de coisas que desejam conquistar (casas, animais para a lida e outros bens), uma plantação de desejos.

A festa é regada a muita chicha (bebida fermentada do milho) e muita dança. “Quanto maior a devoção, mais de porre fica o devoto”, conta Fabiola — lembrei da celebração do Cururu, em Poconé, Mato Grosso. Os que desafiam a tradição e insistem em trabalhar nesse dia santo são caçados pela multidão e recebem “chibatadas simbólicas”, além de pagar uma multa. Gregório teve certa dificuldade em escapar com a lancha para vir nos recolher :).

Os burricos tomando o café da manhã:
combustível para carregar nossas mochilas

O clima na Ilha do Sol
Prepare-se para sentir muito frio à noite. Logo que o sol se põe, a temperatura (que já não é das mais elevadas) despenca para a casa do zero grau. Durante o dia, o sol radiante permite que a gente fique só de camiseta ou, no máximo, com um casaquinho leve. 

O visual da varanda da pousada
Onde ficamos
Pousada Inti Kala
Fica bem no topo da ilha e era apontada como a melhor de lá. Tem quartos grandes, com janelões voltados para o lago e camas com conforto bem acima da média para um lugar tão longe das cidades. Em 2010, dependia exclusivamente da energia solar, que foi insuficiente para esquentar a água do chuveiro pra mim — claro que fui a última a ir para o banho. Vocês não imaginam a sensação provocada por uma ducha menos que morna, com a temperatura correndo para chegar ao zero grau, depois que escureceu...

Café da manhã com vista para o Lago
(eu, Fabiola e Marúsia)
A pousada, no topo da ilha
O lugar é rústico, mas não totalmente desprovido de conforto. A internet até me surpreendeu, pois consegui até postar fotos da ilha no Facebook :) Tem um terraço com vista de sonho, varandas por todos os cantos, uma sala de estar agradável e um restaurante decente, onde tomamos sopa de quinua (meu prato preferido na Bolívia) e comemos umas trutas bem simpáticas, no jantar. O café da manhã também foi bem razoável. A pousada não tem site, mas pode ser localizada pelo Tripadvisor. Em 2010, a diária custava US$ 30. 


Nosso quarto na Inti Kala
Como organizamos a viagem
Planejar uma viagem para a Bolívia pela internet ainda não era muito fácil, em 2010. Os ingressos para os sítios arqueológicos e os bilhetes de ônibus e barcos, geralmente, não estavam disponíveis online. Durante as pesquisas, porém, eu topei com um verdadeiro achado: a agência Stop Tours, com sede em La Paz.

E o cafe da manhã da ovelhinha
A empresa sequer tinha site próprio (pelo que apurei, continua não tendo), mas foi super ágil nas respostas aos meus e-mails. Desde o primeiros contato, fiquei muito bem impressionada pela presteza, profissionalismo e boa vontade da dona da agência, Maribel Zapana, que forneceu todas as informações, não tentou “empurrar” nenhum serviço não requisitado e ainda por cima preferiu deixar o pagamento do nosso roteiro para quando chegássemos em La Paz.

A Stop Tours organizou nosso roteiro a Tiwanaku (ônibus, guia, ingresso e almoço), a viagem ao Lago Titicaca (transporte até Copacabana, travessia de lancha, hospedagem e refeições), o traslado a Puno, a visita às Ilhas Flutuantes dos Uros e nossa viagem de ônibus de Puno a Cusco. Pagamos US$ 140 por pessoa por todos esses serviços — o melhor orçamento entre as três cotações que fiz, antes de embarcar.

O lago é tão bonito que parece miragem
Mas o melhor da Stop Tours foi nosso anjo da guarda Fabiola Aleyda, a guia que nos acompanhou ao Titicaca. Super fofa, uma amiga que enriqueceu muito nossa viagem com histórias saborosas, casos curiosos e dicas preciosas.

Graças a Fabiola, tivemos a oportunidade de compreender um pouco melhor a adorável gente Aymara e nos sentimos em casa no Titicaca. Além de resolver todos os pequenos detalhes de viagem, Fabiola foi sempre uma excelente companhia. Nossa despedida, ao embarcarmos no ônibus que nos levaria de Copacabana a Puno, foi uma choradeira. Mas é bom saber que ela está por lá, prontinha para nos mostrar um pouco mais da Bolívia, sempre que voltarmos.

Stop Tours - Calle Murillo No. 1040, P.1, Of. 7 "Casa del Corregidor", La Paz, Bolivia, Tel. (591-2) 2000123 | Fax (591-2) 2000123 | Skype: Stoptours


Confira todas as dicas, planejamento e roteiro desta viagem
A Bolívia na Fragata Surprise
Copacabana, princesinha do Lago Titicaca

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4 comentários:

  1. Conhecer Copacabana e a Isla del Sol é uma experiência "inolvidable", emocionante, impressionante..!!! Logo que chegamos em Copacabana (eu e minha esposa) acabou a energia e também pudemos conferir o verdadeiro sentido da expressão Via Láctea - incrível aquele céu estrelado! Parabéns pelos relatos!

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    1. Ruthiere, com todo o frio, o cansaço do esforço para chegar lá no alto, acho que vale muito a pena ir à Ilha do Sol. Linda e, realmente, inesquecível.
      Obrigada por navegar com a Fragata :)

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  2. Grande Guia Cyntia! Que Linda Viagem tive com aquela troupe baiana na Bolivia!!! Gracias!!!! Abcs Paulo Lipp

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    1. Paulo, que bom ver você por aqui!! Nossa viagem foi mesmo um espetáculo, né? Saudades, beijo :)

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