sábado, 13 de novembro de 2010

Cusco: o Templo do Sol
e outras "camadas" da história

As paredes incas do Qorikancha (Templo do Sol), que um terremoto fez ressurgir sobre as camadas espanholas da Igreja de Santo Domingo
História, patrimônio e memória não explicam tudo. Há um presente que faz parte da mágica de Cusco— que magnifica o encanto da antiga capital dos incas, uma das mais belas cidades coloniais das Américas. E esse presente não é necessariamente contemporâneo.

Nada em Cusco é linear. É uma “cidade em camadas”, como se diversas épocas estivessem acontecendo ao mesmo tempo.

A elegância das pedras polidas pelos incas em Santa Catalina. À direita, as paredes incas e as arcadas espanholas no Templo do Sol
Suba qualquer ladeira, na direção das montanhas, e vai haver uma casa onde alguém prepara o jantar num fogão muito parecido com os pré-hispânicos (um buraco no chão forrado de pedras, onde arde carvão), enquanto o vizinho acessa a internet.

O mesmo vale para as construções. A elegante e eficiente técnica do povo quéchua ainda está por toda parte. Os blocos de pedra, finamente cortados e polidos, com encaixes perfeitos, ainda estão lá, muitas vezes sob as edificações espanholas, ou ressurgindo, onde a argamassa do colonizador já cedeu à força do tempo.

A imponência do Qorikancha
No Qorikancha, por exemplo: o espetacular Templo do Sol foi em parte desmanchado para dar lugar à igreja de Santo Domingo. Muralhas e paredes foram recobertas pelo reboco, pelos afrescos e símbolos dos colonizadores. Até que o terremoto de março de 1950 pôs abaixo as camadas espanholas e trouxe o velho templo de volta à luz.

Adoro visitar Qorikancha. O conjunto arquitetônico, para mim, é uma espécie de “revanche” sobre os colonizadores: a entrada é pelo templo dominicano, com seus adornos e imagens católicos. Mal se chega ao claustro, porém, e já se dá de cara com os vestígios incas.

Paredes incas e pinturas espanholas
(
Qorikancha/Igreja de Santo Domingo)
É assim por toda parte: a Catedral, o Convento de Santa Catalina, a Igreja dos Jesuítas, tudo foi erguido sufocando templos e palácios incas — e muitos deles espanaram as camadas coloniais no famoso terremoto.

A verdade é que não dava para competir. A engenharia do povo que passou séculos aprendendo os humores das montanhas e das entranhas da terra deste pedaço de mundo não é páreo para a dos recém chegados, por mais pólvora e armaduras que eles tenham trazido.

Os passado e o presente caminham lado a lado em Cusco, na maior naturalidade. À direita, o Solar Pucamarca, antigo palácio do inca Tupac Yupanqui

Um dos prédios mais bonitos de Cusco é o Solar Pucamarca, um conjunto de casas senhoriais espanholas, erguido sobre o antigo palácio de Tupac Yupanqui, senhor do Império Inca em sua fase de maior esplendor.

A camada colonial, aqui, também veio abaixo no terremoto de 1950, revelando partes da construção pré-hispânica. Na Década de 90, foi restaurado por um banco. Hoje, além de uma agência bancária, abriga um pequeno museu e salas de exposições.

As camadas de Cusco nem sempre expressam a fratura entre nativos e colonizadores. No altar da Catedral, por exemplo, elas convergem, na impressionante imagem do Taytacha ("papaizinho") de los Temblores, o Cristo Moreno, de saiote quéchua, que domina o imenso e espetacular conjunto recoberto de ouro, prata, entalhes em madeiras nobres, imagens e telas.

Detalhe da fachada da Catedral de Cusco
A devoção ao Taytacha ganhou força durante um terremoto, o de março de 1650 — dizem que a cada 300 anos o mês de março traz um terremoto a essas paragens. Quando a terra começou a tremer, os padres saíram com a imagem do Cristo crucificado em procissão, o que teria acalmado a terra. O “milagre” tornou-se argumento no trabalho de evangelização dos indígenas pelas ordens religiosas.

A devoção ao "Senhor dos Terremotos", feito padroeiro da cidade e representado com fortes elementos nativos, convive com oferendas a Pachamama, a veneração aos apus e a celebração do Deus Sol -- o Inti Raymi é a grande festa cusquenha e o dia de sua celebração, o Solstício de Inverno (24 de junho), é Dia del Cusco, data magna da cidade.

Pátio do Palácio Cusicancha, onde nasceu o imperador inca Pachacutéc
A imagem do Taytacha é didaticamente explicada pelos guias da catedral às centenas de visitantes. Eles quase se desculpam por essa flagrante manifestação de sincretismo -- dizem que o Cristo não teria sido representado com a pele escura de propósito: teria sido a fumaça dos milhões de velas votadas a ele, ao longo dos séculos, que o teriam deixado moreno...

Um aspecto interessante do sincretismo cusqueño é que ele foi uma iniciativa dos colonizadores, ao contrário da Bahia, onde os africanos tiveram que cultuar seus deuses clandestinamente, chamando-os pelos nomes dos santos católicos, para preservar sua religião. No Peru há uma série de exemplos de incorporação da cultura nativa às imagens e às celebrações cristãs, como forma de cativar o público local. (A recomendação aos evangelizadores católicos para "incorporar" e "sobrepor" os ritos locais vem do Papa Gregório Magno, no Século 6).


Dicas práticas

Qorikancha- Plazoleta Nazarenas 231, Plaza San Francisco. De segunda a sábado das 8:30h às 17:30h. Domingo, das 14h às 17h. A entrada custa 6 Soles e não está incluída no Boleto Turístico de Cusco.

Catedral de Cusco- Haukaypata (Plaza de Armas). Diariamente, das 10h às 18h. A entrada, não incluída no Boleto Turístico, custa 25 Soles.

Palácio Pucamarca - Casa Tupac Inca Yupanqui- Calle Maruri, entre Arequipa e San Agustín, sede do Scotiabank. Entrada gratuita. Virando a esquina, na Q'hapchik'ijllu (Calle Arequipa) n° 159, há um centro cultural que funciona em um conjunto colonial também erguido sobre as ruínas do palácio do Inca.

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