quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Fim de ano em Barcelona:
prepare-se para a muvuca

Casa Batlló: só do lado de fora
Que Barcelona é uma muvuca, todo mundo já sabe. Mas no intervalo entre o Natal e o Ano Novo (2007/2008), a cidade estava à beira de um ataque de nervos. A folga de de fim de ano na Espanha vai desde desde os dias anteriores ao Natal até o Dia de Reis (6 de janeiro) e os locais aproveitam mesmo pra passear. Somem-se a eles os visitantes estrangeiros e está feita a multidão.

Gosta de museus? Esqueça. Tentamos ir ao Museu Picasso. Muito antes de chegarmos à Carrer de Montcada, já dava para ver aquele monte de gente resignada, esperando sua vez -- as caras lembravam mais a fila de um matadouro... Tentamos a sorte no Quadrat D’Or e encontramos mais multidões: filas intermináveis para ver a Casa Batlló e a Casa Millá (La Pedrera). Sagrada Família? A mesma coisa.

A sorte é que Barcelona é tão bonita que a gente nem precisa entrar nas atrações (embora deva!) pra se divertir e ficar apaixonada pela cidade. Veja só o quanta coisa legal tem pra fazer, driblando as multidões:


Comecei afogando as mágoas por não conseguir entrar nos principais museus com uma (várias) boa flûte de cava, o tradicional espumante catalão, tiro e queda para temperar o prazer de estar na cidade. Surpreendentemente, encontramos uma mesa vaga na El Xampanyet, a mais tradicional das casas de cava de Barcelona. Fundada em 1929, na histórica Carrer de Mintcada (a rua medieval mais preservada), a champanheria tem aquela cara de taberna, com barris à vista do freguês, e atendimento inesperadamente simpático, para um luar tão turístico.

Farra boa também se faz no Mercado da Boqueria, outra instituição de Barcelona. Postado estrategicamente nas Ramblas, à vista das horas de turistas, o lugar ferve a qualquer hora e é uma festa: cerejas perfeitas, framboesas idem, uvas dos deuses... E os queijos. Fiquei particularmente viciada num manchego curado, que cai perfeitinho com as frutas da Boqueria e uma (várias) taças de cava. Os manchegos são feitos com o leite das ovelhas de La Mancha, terra de D. Quixote, e parece que trazem os moinhos de vento no sabor, de tão leves e saborosos.

O Mercado da Boqueria talvez seja a única atração turística de Barcelona que você pode virar do avesso, por mais lotada que esteja a cidade. Mesmo no meio da multidão, que olha os produtos como se fossem telas num museu, os vendedores atendem com simpatia e presteza -- como será que eles conseguem? Quando cansava da muvuca das ruas, era só fazer a feira no mercado e fugir para o terraço do apartamento, para ver o sol cair sobre os telhados do Raval. 

Aos poucos, fomos descobrindo pequenos oásis: a Plaça de Santa Maria Del Pi, no Bairro Gótico, a Plaça Reial, ao lado da Rambla, e o bairro do Born. São lugares onde se pode observar a beleza das velhas construções com um pouco mais de calma, sem o passa-passa constante de gente.

Mas é impossível não ser cativada por Barcelona, que, pra mim, está carregada de referências: a defesa heroica da cidade na Guerra Civil Espanhola, a teimosia catalã em manter seu idioma e sua cultura, sob décadas de ditadura franquista. Só mesmo nesta cidade para o coração da gente dar aquela paradinha, diante da placa que identifica uma ruazinha totalmente sem graça: Carrer de Avignó. Fiquei um bom tempo tentando descobrir em qual dos prédios funcionava o bordel onde Picasso pintou suas Demoiselles D'Avignon, tela inaugural da pintura moderna...

Plaça Reial

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