sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Siena, a "prima" de Roma
e rival de Florença...

O Palazzo Comunale, principal construção da Piazza del Campo, em Siena

Adoro chegar em cidades antigas à noite — à meia luz, é bem fácil ignorar a passagem do tempo. Em Siena, esse efeito foi de fazer o coração dar uma paradinha. Imagine você descer uma ladeirinha muito estreita e lúgubre e desembocar em uma das praças mais famosas da Itália, a Piazza del Campo, toda dourada pelo efeito dos lampiões. Foi como chegar ao Século 13.

A praça, com seu célebre formato de leque, é dominada pela imponência do Palazzo Público (ou Palazzo Cumunale), onde se destaca a Torre del Mangia, com 100 metros de altura, projetada para atingir a mesma altura do campanário da catedral—que fica em terreno mais elevado —, de modo que essa expressão de poder dos senhores de Siena não se projetasse acima do símbolo maior da igreja católica. 

Você desce uma ladeirinha lúgubre e lá está a praça

O piso inclinado da praça, como um anfiteatro, dá a sensação de que tudo converge para o palácio. E é aqui, neste espaço encantador, que se disputa o Pálio de Siena, corrida de cavalos que remonta ao Século 17 e que eleva às alturas a rivalidade entre as contrade (comunidades) em que a cidade se divide desde a Idade Média. 

Roma é ocre, Nápoles é vermelha, Florença é dourada e Siena é marrom. O tom dos tijolos das fachadas acompanha o visitante praticamente por toda parte. Em alguns pontos, como no Duomo (catedral) e em alguns palácios, o rico mármore, que oscila entre a alvura e o rosa, serve muito mais para destacar do que para amenizar essa característica. 

A Piazza del Campo vista do alto do Facciatone
É que Siena não chegou à Renascença. Tão poderosa nos séculos 13 e 14, a ponto de rivalizar com Florença pelo domínio da região, ela teve seu esplendor interrompido por uma epidemia que dizimou boa parte de seus moradores, no finalzinho do Século 14.

Uma cidade monocromática. À esquerda, a fachada lateral do Duomo, em mármore, mais reforça do que atenua esssa uniformidade 

Diz a lenda que Siena foi fundada por um filho de Remo, o gêmeo de Rômulo, fundador de Roma. A Loba Romana, que na narrativa mitológica teria criado os irmãos, está em toda parte desta cidade que se queria meio "prima" da capital do império — na verdade, isso atesta muito mais sua origem mais latina que etrusca, expressando rivalidades muito antigas entre os povos que disputaram a hegemonia daquele pedacinho lindo de mundo que hoje é a Toscana. 

Siena não teve tempo para se cobrir de esplendores renascentistas, mas o olhar atento descobre suas belezas entre as velhas fachadas de tijolos
A Loba Romana está por toda parte. à direita, no alto de uma coluna da Praça do Duomo. À esquerda, na Fonte Gaia, na Piazza del Campo
Siena pode não ter vencido Florença na queda de braço comercial e militar da Idade Média, mas uma vantagem ela leva sobre sua rival: o relevo. Muito mais acidentada que a vizinha, em Siena qualquer ladeira (e haja ladeiras) pode oferecer um belo balcão para se contemplar os telhados avermelhados pelo sol.

O relevo acidentado de Siena é prodigo em cantinhos
 para a gente apreciar a paisagem 

Em meio à austeridade marrom das fachadas medievais, vez por outro Siena me pregava uma peça, tirando da manga um esplendor que eu achei que tivesse deixado para trás quando peguei o ônibus em Florença. O Duomo, por exemplo.

A fachada do Duomo de Siena
A Catedral de Santa Maria Assunta, do Século 13, foi projetada por Nicola Pisano, que desenhou um delicado rendilhado em mármores rosados para sua fachada. Mas esse exterior exuberante não nos prepara para o impacto que é a visão do interior da igreja, o espaço imenso, com colunas altíssimas, listradas em mármore preto e branco, abrigo de tesouros como um São João Batista, de Donatello, um púlpito em mármore, de Pisano, e o piso totalmente recoberto de mármore entalhado, mostrando cenas bíblicas e históricas. 

 Duomo: a elegante fachada lateral, a decoração de um portal, o campanário e a cúpula
A hipnótica Libreria Piccolomini.
Dá vontade de deitar no chão para namorar os afrescos do teto
Anexa à Catedral está a Libreria Piccolomini, onde a gente fica na dúvida entre admirar as raras iluminuras do acervo da biblioteca ou pegar um torcicolo, de tanto olhar o teto, coberto de afrescos de Pinturicchio — dá uma vontade louca de deitar no chão.

A catedral tem, ainda, um lindíssimo batistério, com as paredes inteiramente recobertas por afrescos e mármores. Mas nada se iguala à cripta, que passou 700 anos soterrada, coberta de entulho, e só foi redescoberta durante uma obra de restauração do Duomo, em 1999. Foi reaberta ao público em 2004 e, sozinha, vale a visita a Siena. 

O batistério e a nave principal do Duomo
Por algum motivo, essa cripta, com todas as paredes decoradas com preciosos afrescos bíblicos, foi aterrada menos de 100 anos depois de concluída. A ausência de luz contribuiu para que essas pinturas conservassem todo seu esplendor. É de deixar a gente sem fala.

O Duomo e a fachada do que seria a "catedral nova",
 obra abandonada no Século 14
Quando eu estava achando que o Duomo já tinha me mostrado todas as suas maravilhas, resolvi desafiar uma escadaria daquelas para alpinistas, que parte do Museo dell' Opera del Duomo e leva o visitante a uma construção inacabada, a fachada do que deveria ter sido a “nova” catedral da cidade — a construção foi iniciada no Século XIV e interrompida pelo declínio da cidade, após a epidemia.


Siena vista do topo do Facciatone
Essa fachada inacabada, o Facciatone, dá uma ideia do ambicioso projeto que a cidade tinha para sua nova catedral, projetando-se nas alturas e consagrando-se como um senhor balcão debruçado sobre a cidade. De lá se vê todo o Centro Histórico de Siena — dá quase para sentir na ponta dos dedos a textura dos telhados — e os campos da Toscana, mais além, meio envoltos na névoa do outono.

Já quem quem gosta de ruelas medievais, arcos e passagens cobertas se sente em casa na região do Ghetto. Uma área adorável, como costumam ser os bairros judaicos das velhas cidades europeias, feitos de ruas muito estreitas e tortuosas. A despeito de terem nascido da segregação dos Judeus e de terem presenciado muita violência, conservam um encanto meio misterioso que acho irresistível—experimente caminhar pelo Ghetto de Roma, El Call de Girona ou a Judería de Córdoba, por exemplo.

Seguindo as ruas laterais do Duomo, a gente vai entrando
 em um labirinto medieval cada vez mais intrincado
Uma fachada do Ghetto e a sede da Contrada della Torre
O Ghetto de Siena é sede da Contrada della Torre, uma das divisões administrativas (como distritos) adotadas pela cidade ainda na Idade Média. As contrade tinham representantes nos conselhos, tomavam decisões locais de menor impacto e eram obrigadas a fornecer contingentes para compor as tropas que defendiam a cidade.

Aos poucos, as contrade foram ganhando cores próprias, identidades, bairrismo, paixões... Como se fossem torcidas de futebol — só que o esporte onde tudo isso se expressa é o Pálio. Hoje restam 17 contrade: a Loba, á Águia, o Unicórnio... E a brava Contrada della Torre, que já ganhou minha simpatia, em seu grená, azul e branco, como o Barça.

A Igreja de San Francesco
Uma caminhada um pouco mais longa, a partir do centro de Siena, leva a outro recanto adorável, a Basílica e Convento de San Francesco, do Século 13. Chega-se aqui atravessando um arco de pedra que dá acesso à ampla praça debruçada sobre um parque muito verde, com vistas lindas da cidade. Bom lugar para ver o cair da tarde. O interior da basílica tem uma ampla nave gótica, muito sóbria, mas impactante, com as paredes recobertas de mármore, como uma boa igreja toscana.

Endereços e horários

Contrada della Torre
Via Salicotto 76, Ghetto.

Duomo de Siena
Piazza del Duomo
Diariamente, das 10h:30h às 18h). O Museo dell'Opera, o Batistério e a Cripta podem ser visitados das 10h às 17h. Entrada única: 10 Euros.

Basílica e Convento de San Francesco
Piazza di San Francesco, 6

E as dicas para organizar sua viagem você confere no post
Siena - dicas práticas

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