sábado, 17 de janeiro de 2015

Roteiro em Roma: cada igreja é um museu

Santi Apostoli, pertinho da Fontana de Trevi
Atualizado em janeiro de 2017

Pode parecer heresia, mas se tem uma cidade onde eu quase não sinto vontade de visitar museus é Roma. Claro que não é culpa das maravilhosas instituições locais (algum maluco consegue não ir ver as Coleções Borghese ou os Museus Capitolinos, estando por lá?). A causa disso são as igrejas romanas, que concorrem com os museus de um jeito quase desleal: elas estão por toda parte, abarrotadas de obras de arte e, ainda por cima, costumam ter visitação gratuita.


Veja também: a Basílica de São Paulo Extramuros, que também é linda e com entrada grátis

Siga o mapa e prepare-se para levitar



Esse roteiro por algumas igrejas de Roma é infalível: você vai ver coisas lindas sem gastar nada — praticamente, só a sola do sapato, se tiver disposição, pois dá pra fazer quase tudo a pé. O itinerário passa por igrejas famosas e outras menos conhecidas e rende um dia lindo de descobertas na "Cidade Eterna".

São cerca de quatro quilômetros de caminhada (calma, tem muitas paradas no percurso 😀), por terreno plano, à exceção da escadaria cascuda de Aracoeli. Para almoçar, você pode escolher as regiões do Ghetto ou as proximidades da Pizza della Rotonda. Vamos passear?


O campanário de Santa Maria in Trastevere
1ª etapa
Comece o passeio em Santa Maria in Trastevere. Essa igreja deslumbrante é apontada como uma das mais antigas de Roma. Fundada no Século 3, ela teve seu estilo original, românico, sucessivamente alterado, até ganhar as feições atuais, marcadamente do Século 12.

Beleza de alto a baixo: o piso e o teto de Santa Maria in Trastevere
Os mosaicos dourados são o maior encanto da igreja
Embora esteja localizada na área mais muvucada do bairro (a praça que leva seu nome reúne uma infinidade de bares e restaurantes), seu interior costuma ser muito tranquilo, com poucos visitantes para ver os belos mosaicos de Cavallini, do Século 13, e as colunas trazidas das Termas de Caracalla.

Santa Maria é a cara do Trastevere. Por mais turística que a área a seu redor tenha ficado, é essencialmente uma igreja de bairro, onde senhoras vestidas de preto vêm assistir a missa de domingo, de manhã cedinho.Experimente estar na praça por volta das sete horas para ver a comunidade local chegando para as orações e depois mergulhe na beleza do templo.

A fachada de Santa Maria, com os famosos mosaicos

2ª etapa 
O Trastevere tem pelo menos mais duas igrejas imperdíveis: San Francesco a Ripa e Santa Cecília. Ambas ficam do outro lado (Leste) da Viale di Trastevere, a rua principal que divide o bairro e ficam próximas uma da outra. De Santa Maria a San Francesco são 550 metros de caminhada. Depois, mais 500 metros até Santa Cecília.

A escultura de Bernini em San Francesco a Ripa. Abaixo, a fachada simples da igreja

Com uma fachada muito simples, San Francesco teria sido o local de pouso de São Francisco de Assis, em sua visita a Roma, no Século 13.

Não deixe de entrar na igreja para ver uma obra prima, a famosa escultura de Bernini, Êxtase da Beata Ludovica Albertoni (não confunda com outra obra célebre do mesmo escultor, O Êxtase de Santa Teresa, que está na Igreja de Santa Maria della Vittoria, perto da Estação de Termini).

Um altar lateral de San Francesco
Santa Cecília in Trastevere
Santa Cecília in Trastevere também é um espetáculo. Fica em uma área mais sossegada do Trastevere, no local da antiga casa de Cecília, uma patrícia romana martirizada junto com o marido, Valeriano, no ano 180 d.C., por sua adesão ao cristianismo.

A igreja é pouco visitada, o que permite a contemplação de cada detalhe com calma. Construído no Século 4, o templo já sofreu muitas alterações.

No subsolo, uma surpresa: o antigo local de culto clandestino, transformado em cripta, tem uma capela ricamente decorada com mosaicos de pietre dure (mármores de todas as cores). Os jardins que cercam a basílica costumam atrair estudantes de Belas Artes, que aproveitam a sombra e o sossego para desenhar.

Antigo local de culto clandestino, quando o Cristianismo era uma religião proscrita, o subsolo de Santa Cecília guarda belíssimos 
mosaicos em pietre dure
Preste atenção à belíssima escultura em mármore que adorna o altar, obra de Stefano Maderno, representando o corpo martirizado de Cecília, onde as dobras do tecido diáfano do vestido da santa quase parecem tremular ao menor sopro da brisa. Simplesmente celestial.

Também vale muito a pena visitar as escavações arqueológicas que há nos subsolos da basílica e no convento adjacente, onde foi encontrado um claustro com afrescos de Cavallini.

San Bartholomeo, na Isola Tiberina

3ª etapa 
Deixando Tratevere a caminho do Centro, atravesse a Isola Tiberina, aquela ilhazinha em forma de barco que fica bem em frente ao Ghetto. Lá está a singela igrejinha de San Bartolomeo all'Isola, onde dizem que estão enterrados os restos do santo.

É muito agradável sentar na mureta do pequeno cruzeiro que fica em frente à igreja e ver o sol descer sobre sua fachada e seu belo campanário românico. A distância de Santa Cecília in Trastevere até aqui é de 650 metros.

A Basílica de San Bartolomeu foi fundada no Século 10, no local onde, anteriormente, existia um templo dedicado a Esculápio, divindade da cura e da saúde. Além de lugar da devoção, os santuários de Esculápio (Asclépio, para os gregos) atuavam no processo terapêutico e curativo. A tradição se mantém na Ilha Tiberina, onde existe um tradicional hospital.

Santa Maria in Cosmedin
Deixando a Ilha Tiberina para trás, você está a 600 metros de um hit turístico romano. La Bocca della Verità (a Boca da Verdade) foi celebrizada em uma passagem de Roman Holiday ( A Princesa e o Plebeu)filme obrigatório para quem quer sonhar com Roma.

Na cena, Gregory Peck assusta Audrey Hepburn, afirmando que a máscara de pedra exposta no adro da Igreja de Santa Maria in Cosmedin devora a mão dos mentirosos. E, para provar, esconde a mão na manga do casaco, depois de tê-la colocado na boca do "monstro".

Cosmedin: a fila para colocar a mão na Boca da Verdade e os afrescos no interior da igreja (que pouca gente entra pra ver)
Com um pouquinho de boa vontade 😊 dá pra ver a fila, nesta foto (eu bem que tentei fazer melhor, mas o vai e vem do trânsito não colaborava...)
Tem sempre uma fila quilométrica de turistas esperando a vez para colocar a mão na boca da verdade e posar pra uma foto.

A boa notícia é que eles não se interessam muito pelo interior da linda igreja de Cosmedin. E não sabem o que estão perdendo: esse templo românico do Século 7 tem afrescos belíssimos e um sossego que quase me faz sonhar com a vida monástica (risos). É uma das visitas imperdíveis em Roma.

Fiz um post todinho sobre Santa Maria in Cosmedin, com muitas fotos do interior da igreja (e da Boca da Verdade, claro!!!), depois da minha última visita, no comecinho de 2015. 

Não deixe que os 124 degraus intimidem você: 
além de Santa Maria in Aracoeli ser linda, 
a vista da cidade ao entardecer é de rasgar a roupa
4ª etapa 
Ao sair da Igreja de Santa Maria in Cosmedin, margeie a Piazza della Bocca della Verità e suba a Via del Teatro di Marcello até a Piazza de Aracoeli (750 metros). É lá que você vai encontrar outra das minhas igrejas favoritas em Roma.

Ela exige uma certa penitência para ser apreciada. É preciso subir 124 degraus até Santa Maria in Aracoeli, no Campidoglio, ao lado do “Bolo de Noiva” (o Altar da Pátria, de Mussolini).

A escadaria de Aracoeli. À direita, detalhe da fachada nua da igreja e as colunas de seu vizinho, o Altar da Pátria

O interior de Aracoeli é magnífico
Aracoeli foi erguida, no Século 12, sobre um antigo templo dedicado a Juno. Ela abriga duas belezas que são um desafio ao qualquer pescoço: o teto entalhado retrata a Batalha Naval de Lepanto, (vitória dos ocidentais, liderados por Veneza, sobre o Império Otomano, em 1570, fundamental para deter o avanço dos turcos sobre a Europa Mediterrânea) e o piso em mosaicos. 

Aproveite para visitar Aracoeli no final da tarde, pois a vista da cidade, lá de cima, é de rasgar a roupa.

O teto de madeira entalhada e o piso, com mosaicos em mármore


5ª etapa
Desça a escadaria e siga a Via de Aracoeli em direção ao Corso Vittorio Emanuele. Daí a 350 metros, você chegará a outra preciosidade romana, a Igreja del Gesú, dos jesuítas. Ela foi construída na Renascença, como "entrega" sua fachada de linhas sutis. Seu interior, porém, foi totalmente redecorado em estilo barroco.

Gesù, a igreja dos jesuítas, a fachada sutil 
esconde um espetáculo barroco em seu interior
Preste atenção ao altar de Santo Inácio de Loyola, em lápis lázuli, aos afrescos do teto da igreja (de deixar a gente muda) e a uma comovente pintura chamada Madonna della Strada, do Século 15, belíssima.

Detalhe da fachada rococó da Maddalena e o discreto charme de Santa Maria Sopra Minerva
O obelisco com o elefantinho chama mais a atenção que a fachada da igreja
6ª etapa 
Agora você vai ver quatro igrejas que já justificariam a visita a Roma. Seguindo a Via del Gesù, 300 metros de caminhada levam à primeira delas, Santa Maria sopra Minerva, com uma fachada simples, em linhas discretíssimas, e um interior gótico arrebatador.

Detalhe do teto de Sopra Minerva e, abaixo, a visão geral do interior da igreja

Arrisco dizer que Sopra Minerva é a igreja mais bonita de Roma (mas é claro que, quando você me perguntar de novo, vou citar outra, porque é muita beleza pra conseguir ranquear).

A "igreja do elefantinho" (por causa do obelisco que fica em frente) abriga a tumba do pintor Fra Angelico e está coberta de afrescos e mosaicos. Uma cooooisa.

Alguns passos adiante estão o PantheonSan Luigi dei Francesi La Maddalena, com uma linda fachada rococó. 

O Pantheon, na Piazza della Rotonda
Na minha primeira visita ao Pantheon, não registrei nada dos elementos católicos agregados à construção, consagrada pelos católicos, no Século 7, como Basílica de Santa Maria ad Martyres. Minha memória tinha guardado somente a majestade do edifício, a perfeição das proporções, o domo e a claraboia.

A memória é uma coisa engraçada... Foi uma espécie de homenagem involuntária à alma desse edifício, construído em 27 a.C para honrar todas as divindades — de todos os credos.

Detalhe da cúpula do Pantheon
O ritual de introdução dos deuses dos povos conquistados por Roma ao panteão era uma etapa importante da Pax Romana, uma forma de dizer que os dominadores aceitavam a cultura e o imaginário dos novos integrantes do império.


Acho que meu inconsciente não curtiu ver um altar católico dominando o Pantheon, convertendo-o em espaço para uma única fé — mesmo que essa ocupação seja fato consumado desde o Século 7 J

Seja lá como for, essa é uma visita obrigatória na cidade, a única construção erguida durante o esplendor do Império ainda de pé e mantida em uso constante por quase dois mil anos (o edifício que vemos hoje data do reinado de Adriano, já que o primeiro foi bastante danificado por um incêndio).


Entre os túmulos de reis do Século 19 abrigados no Pantheon, está também o do rei das telas renascentistas, Rafael.

O interior do Pantheon
Pertinho do Pantheon, numa rua que sai da Piazza della Rotonda, está San Luigi dei Francesi, uma igreja que, comparada com o esplendor de muitas de suas colegas romanas, poderia passar despercebida.

Poderia, mas seu interior abriga três telas de Caravaggio simplesmente arrebatadoras. Quando você for, leve muitas moedinhas para acionar a iluminação e se fartar de admirar "O Chamado de São Mateus", "São Mateus e o Anjo" e "O Martírio de São Mateus".

San Luigi dei Francesi
7ª etapa
E por falar em moedinhas, deixei a minha igreja favorita para o final. Meio fora de mão neste roteiro, San Pietro in Vincoli fica no Esquilino, a colina atrás do Coliseu e é melhor tomar o transporte público para ir até lá.

San Pietro in Vincoli tem uma fachada tão discreta que a gente quase passa batida por ela
Os devotos visitam essa igreja para ver as correntes (vincoli) expostas numa urna, sob o altar, e que, supostamente, estiveram presas aos punhos de São Pedro, antes de sua execução. Mas a festa para os olhos é o Moisés, de Michelangelo. 

Dizem que quando o artista completou essa escultura, deu-lhe uma palmadinha amistosa no joelho e pediu: "Parla!" ("fala!"). A obra é realmente impressionante. A vontade é ficar olhando para sempre (e, novamente, haja moedinhas para acionar a iluminação).

San Luigi, novamente
Dicas práticas
Dá quase pra dizer que Roma tem uma igreja em cada esquina, então, a graça é ir descobrindo os pequenos tesouros que se escondem em cada vizinhança. Só não esqueça que essas igrejas, por mais belas e históricas que sejam, permanecem funcionando como local de culto, com comunidades de fiéis e celebrações religiosas. A maioria delas, portanto, exige trajes discretos e atitude idem.

Mosaicos de Santa Maria Sopra Minerva
Já adotei a postura radical de não fotografar qualquer local de culto se houvesse alguém rezando, em respeito às religiões alheias. Hoje, até fotografo, mas procuro perturbar o mínimo possível. E sempre em silêncio. As vistas turísticas costumam ser suspensas durante as missas.

Já se você gostaria de assistir missa em alguma dessas igrejas, consulte os sites listados abaixo (em italiano) e procure por orari messe. 



Todas essas igrejas têm entrada gratuita. Nunca vi nada mudar tanto quanto os horários de abertura das igrejas de Roma. Por isso, recomendo que você confira nos sites a programação, antes de ir (na dúvida, digite o nome da igreja + orari, no Google).

Santa Maria in Trastevere -
Piazza de Santa Maria in Trastevere. Diariamente, das 7:30h às 21 horas.


Basílica de Santa Maria in Aracoeli Piazza del Campidoglio nº 4. Diariamente, das 9h às 12:30h. De maio a setembro, o horário da tarde vai das 15h às 18:30. De outubro a abril, das 14:30h às 17:30h.

Chiesa del Gesú - Piazza del Gesù, esquina da Via del Plebiscito com Via D'Aracoeli, pertinho do Largo di Torre Argentina. Fica aberta das 7h às 12:30h e das 16:30h às 19h. Prefira o horário da tarde, que é o determinado pela paróquia para as visitas turísticas.

O elefantinho de Sopra Minerva
Santa Maria sopra Minerva - Piazza della Minerva 42, atrás do Pantheon, De segunda a sexta, das 6:40h às 19h. Sábado, das 6:40h às 12:30h e das 15:30h às 19. Domingos, das 8h às 12:30 e das 15:30h às 19h.

Pantheon - Piazza della Rotonda n° 12, de segunda a sábado, das 8:30h às 19h150. Aos domingos, das 9h às 17:45h. Feriados, das 9h às 12:45h.

O Pantheon é um dos edifícios mais antigos ainda de pé em Roma
San Luigi dei Francesi - 20 Piazza San Luigi dei Francese, das 10h às 12h30 e das 15h às 19h. Fecha às quintas-feiras.

Chiesa della Maddalena - Piazza della Maddalena 53. De segunda a sexta e aos domingos e feriados, das 8:30h às 11:30h e das 17h às 18:30h. Aos Sábados, das 9h às 13h.

San Pietro in Vincoli - Piazza San Pietro in Vincoli, Esquilino, das 8h às 12h30 e das 16h às 18h.

Santa Maria in Cosmedin - Piazza Bocca della Verità, Foro Boario, das 9h às 17h.

Basilica di San Bartolomeo all'Isola - Piazza di San Bartolomeo all'Isola, 22, Ilha Tiberina, de segunda a sábado, das 9:30h às-13:30h e das 15:30h às 17:30hAos domingos, das 9:30h às 13h

Santa Cecília in Trastevere - Piazza di Santa Cecilia, diariamente, 9:30h às 13h e das 16h às 18:30h. Ingresso para a cripta: 3,50.

San Francesco a RipaPiazza di San Francesco D'Assisi, 88, Trastevere. Diariamente, das 7h às 13h e das 14h às 19.

San Bartholomeo

Detalhe do interior do Pantheon

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4 comentários:

  1. Post lindo!!!! Acho que preciso passar uns 6 meses em Roma para ver tudo o que quero e com calma :)
    bjos

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    Respostas
    1. Obrigada, Mirella :) Eu sempre digo que queria reservar umas três encarnações só pra Roma. Sou completamente rendida, apaixonada, arriada de quatro pneus por essa cidade...

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  2. Blogueiros de viagem fazem relatos, a autora do Fragata Surprise, jornalista com sólida bagagem cultural escreve crônicas literárias. Seu texto é tão bom que não entendo como não virou um livro.

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    1. Obrigada, Jacy. Você é sempre muito carinhosa comigo e com a Fragatinha. Bjo e feliz 2017 :)

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