quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Ilhas do Rosário:
Meu Caribe particular


Quem vai a Cartagena pensando em praia tende a se decepcionar: embora tecnicamente a cidade esteja às margens do mar do Caribe, é banhada por águas barrentas que nada lembram o cartão postal. Mas nada de arrancar os cabelos, porque as Ilhas do Rosário estão lá exatamente para compensar essa falha da natureza.

Escolha uma ilha — são 27 maiores e uma profusão de barranquinhos que mal comportam uma casa — e se mande para esse arquipélago, a uma hora de lancha, ao Sul de Cartagena, onde o mar é muito azul, calminho, morno e sempre acaba numa prainha de areia tão branca que parece farinha de trigo.

Os barcos para as ilhas saem do Muelle de los Pegasos, em Cartagena
Na verdade, a gente não escolhe a ilha, e sim a hospedagem. Eu escolhi (pela internet) o Hotel San Pedro de Majágua, na Isla Grande. O transfer para lá é por conta do hotel. A saída é Sofitel Santa Clara — os futuros hóspedes de Majágua pegam carona com a excursão bate e volta oferecida pelo hotelão. Dia marcado, às 7h da manhã fui me juntar ao grupo de uns 30 gringos que esperava o micro-ônibus para o Muelle de los Pégasos, de onde saem os barcos.

Galera animada... Cheguei a temer pelo meu sossego diante da profusão de camisas floridas e bonés de beisebol que faziam verdadeira algazarra de pura excitação, antecipando o encontro com o Caribe de verdade de Rosário. Mas não se assuste: a excursão passa apenas algumas horas em Majágua, testando a eficácia de seus protetores solares, e volta a Cartagena depois do almoço. 

Minha sala de leitura no hotel San Pedro de Majágua
A lancha que me levou a Isla Grande era bem robusta, berrando ritmos caribenhos em onipresentes caixas de som — se você pensou em trio elétrico, não está muito errada, não... À medida que nos afastávamos de Cartagena, o mar ia ficando azul e cada vez mais transparente. Vai dando uma vontade enorme de chegar.

Depois do desembarque, foram três dias de Caribe só para mim. Entre as 10h e as 14h eu dividia minha praia com o grupinho de excursionistas — para ser justa, devo dizer que ficavam bem mais silenciosos que a bordo da lancha. Depois, éramos só eu, um casal de canadenses e três senhorinhas americanas.

A área externa do hotel e as árvores de majágua, que dão o nome ao lugar

O sossego à tardinha
Os passeios bate e volta às praias das Ilhas do Rosário podem ser contratados nas diversas agências de turismo de Cartagena. Mas garanto que você vai gostar muito mais se pernoitar em alguma pousada do arquipélago para aproveitar o silêncio e o céu estrelado. Leve um (ou mais) livros.

Eu aproveitei o sossego para ler o bom romance La Nostálgia del Melómano, do escritor colombiano Juan Carlos Garay, que descobri numa pequena livraria perto da muralha. As ilhas têm pousadas para todos os gostos e casas de veraneio de todos os tipos, mas muitas áreas de mata preservada e praias desertas.

Chegando na lancha e já antecipando
 o prazer do mergulho neste marzão
Dicas práticas
O Arquipélago Corales Del Rosário é um parque nacional. Antes das leis protecionistas, correu sério risco de devastação por conta da ocupação irregular, mas hoje está muito bem cuidado. 

Não esqueça!
De trazer pesos colombianos para pagar a Taxa Ambiental. Todos os turistas que visitam o Arquipélago Corales del Rosário devem pagar o imposto de 10.000 Pesos Colombianos (US$ 5.5)


Onde ficar
Hotel San Pedro de Majágua 
Isla Grande, Islas del Rosário
As árvores de majágua, típicas da região. 
Ao fundo um dos chalés do hotel
É um hotel para quem quer sossego. Os bangalôs distribuídos pela mata garantem privacidade, silêncio e um sono dos anjos.

Sem luxo, os apartamentos têm o básico: frigobar, mosquiteiro, ar condicionado ou ventilador (totalmente desnecessários, pois o vento sopra forte do mar a noite inteira) e água quente. O café da manhã é de boa qualidade.

O restaurante fica cheio no almoço, com os turistas que vêm passar o dia, mas nada que comprometa. A comida é boa e o forte, claro, são os frutos do mar.

O único movimento em San Pedro de Majágua é da maré mudando de cheia...
... para a maré baixa
Onde comer
“Lagosta delivery”

Os pacotes de hospedagem geralmente preveem pensão completa. Mas todos os dias a “minha” praia era visitada por moradores das ilhas do Rosário, que chegavam em canoas e, do mar, acenavam com lagostas ainda vivas. 

Era só escolher a "vítima" e negociar o preço, que os pescadores a preparam na hora, aferventando a bichinha num fogareiro. É preciso uma certa prática para quebrar a casca com o martelinho — e isso eu tenho de sobra, pois treinei a vida inteira na Pituba e nos verões da Ilha de Itaparica. Os poucos hóspedes do hotel me olhavam com inveja e admiração pela destreza, a cada lagosta devidamente devorada. Com uma boa negociação, eles vendem três por US$ 10. Imaginem a farra...

O que fazer
Trilhas na mata levam a lagoas e a áreas 
para a observação de pássaros
O melhor, nas Ilhas do Rosário, é não fazer absolutamente nada, exceto aproveitar o conforto amniótico daquele mar, almoçar e fazer uma longa sesta nas redes espalhadas à sombra das Majáguas, árvores típicas da região. A pousada não tem TV nem internet. Entretenimento, só os livros e o IPod que você levar.

Mas se ficar de papo para o ar contando as folhas das árvores não for a sua praia, combine com o pessoal do hotel para destacar um guia e saia para caminhar pela mata preservada que cerca o hotel. Há sempre um funcionário da pousada disponível para acompanhar os hóspedes nas trilhas pela área cheia de pássaros. Bem treinados, eles são um misto de seguranças, guias turísticos e educadores ambientais. 

Mergulhe na "Laguna Encantada"
A Laguna Encantada: para ver peixinhos de dia e ficar fosforescente à noite
O nome não é nada original, mas o lugar permite mergulhos alucinógenos de snorkel: são milhares de peixinhos dourados na água transparente, apesar do tom meio ferrugem. O "encanto" da lagoa é efeito dos planctons que, à noite, fazem os mergulhadores brilharem no escuro — desavisados podem achar que servem lagosta radioativa por lá, mas não entre em pânico.

Leia autores colombianos
Além da grande estrela literária do país, Gabriel Garcia Marques — que tem uma casa com um muro altíssimo em frente à muralha de Cartagena, perto de San Diego — experimente Juan Carlos Garay, que escreve muito bem. La Nostalgia del Melómano, que li em Majágua, tem um clima que remete aos livros de um favorito meu, o inglês Nick Hornby.

Além da Nostalgia, reforcei o suprimento com dois títulos do jornalista e escritor Alfredo Molano, um cronista da realidade rural colombiana, marcada pela violência da guerrilha, dos paramilitares e do narcotráfico. Águas Arriba - Entre la Coca y el Oro, mostra a dura realidade enfrentada pelos colonos. Trochas y Fusiles reúne relatos de vários ex-combatentes das FARC — jornalismo de primeiríssima qualidade.

Fiquei impressionada com o preço dos livros na Colômbia. Os três exemplares que comprei são da Puncto de Lectura, uma mega editora, presente nos países de língua espanhola. Custaram, juntos, cerca de R$ 60. São brochuras levinhas, de ótima qualidade. Depois deste encontro, tornei-me consumidora voraz das coleções da Puncto.

Visite o Aquário San Martín
Isla de San Martín de Pajarales, Parque Nacional Natural Corales del Rosario


Pelicanos espertos, tubarões, arraias...
Atrações do Aquário San Martín


O aquário funciona diariamente, das 10 às 14 (na baixa temporada, só de quarta a domingo). Entrada: 15.000 Pesos colombianos. Fica a 40 minutos de lancha de Isla Grande, onde estava hospedada. De Cartagena, há barcos no Cais de la Bodeguita, às 7:45h e a viagem dura 1h30min. O retorno é às 15:30h.

OK, eu também detesto jardins zoológicos e assemelhados — quando era criança, a penúria do Zoológico de Salvador me deixava deprimida dias a fio, após cada visita — mas tive que mudar de opinião depois de visitar esse aquário, voltado para a educação ambiental.

Até o show de golfinhos é simpático
Os pesquisadores e técnicos são muito bem preparados, as explicações são objetivas e claras e até o show de golfinhos – abomino ver bicho transformado em objeto de entretenimento – é bacana. Se você ainda reluta em banir as sacolinhas plásticas de sua vida, precisa dar um pulinho neste excelente centro de vida marinha.
Peixinhos em festa e um golfinho em "ação"


O tanque dos tubarões-gato: a aguinha é cristalina e convidativa, mas convém não mergulhar aqui :)

Em San Martín, entre "viveiros" de tubarões-gato, tanques de golfinhos bailarinos, arraias, vários tipos de peixes — e a presença constante de pelicanos espertos —, uma equipe de monitores e biólogos apresenta uma curta, mas definitiva palestra sobre os efeitos devastadores de resíduos plásticos no mar.

Quem sofre mais com o lixo que despejamos nas águas são as tartarugas, que confundem as famigeradas sacolinhas com águas vivas, um de seus pratos prediletos. No estômago das simpáticas bichinhas, o plástico provoca dores horríveis e a morte. Depois de passar uma manhã em San Martín, adotei de vez a sacola reaproveitável para minhas compras.

Todos os posts sobre praias publicados no blog estão neste link

A Colômbia na Fragata Surprise
A maioria das ilhas mal comporta uma casa...

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