segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Madri:
Revellion na Porta do Sol

Madri, Ano Novo inesquecível
(foto Wiki-Commons)
Como é que a gente agradece a uma cidade que nos recebe com simpatia, nos oferece suas ruas alegres, suas belezas e tesouros e ainda nos proporciona um Ano Novo inesquecível?

Recapitulando a semana em Madri, o que mais me lembro de ter sentido foi essa alegria mansa e reconfortante. Está tudo certo: a hora, o lugar e o estado de espírito para me despedir de 2006 e receber 2007.

Pretendia passar o último dia do ano andando à toa, mas não resisti: o Museu Thyssen-Bornemisza está com uma exposição comparada de Joaquín Sorolla e John Singer Sargent, pintores da virada do Século XIX para o Século XX. Passei boa parte do dia namorando as telas, absolutamente solares, que inspiram uma alegria suave. Programa perfeito para o meu estado espírito.

Depois do almoço, fui descansar um pouco no hotel. Acabei não fazendo reserva em nenhum restaurante para a ceia — correndo o risco de ter um "jantar de Ano Novo" num fast food. Mas o astral de Madri estava tão bom que eu tinha a confiança absoluta de que ia dar tudo certo.

Um amigo tinha me recomendado o Restaurante La Barraca, na Calle de La Reina, paralela à Gran Via e bem perto da Puerta Del Sol, o destino de dez entre dez madrilenhos no Ano Novo. Cheguei ao restaurante com uma tremenda cara de pau e certa antecedência para a hora da ceia. Eram 21:45h. Tinha certeza absoluta de que ninguém iria enxotar uma mulher sozinha na noite de Revellion — esse é um dos segredos bem guardados de quem viaja sozinha: sempre tem lugar pra mim.

Não só fui aceita como muito bem recebida, acomodada numa boa mesa — nada de mesinha minúscula no canto do salão. Outro segredo e vantagem de viajar sozinha é que, salvo nas espeluncas, a gente é sempre muito bem tratada. A ceia de Ano Novo tinha menu a preço fixo, com bebidas — muitas bebidas — incluídas. No final, ganhei uma taça de champanhe e 12 uvas, para esperar as 12 badaladas na Porta do Sol, para onde segui cambaleante.

A Porta do Sol já estava lotada quando cheguei. Voltou a chamar a minha atenção a democracia etária: muita gente com mais de 60, sem “amparo” de filhos e netos. Multidões de jovens na casa dos 20, casais, crianças, grupos de quarentões, fazendo mais barulho que qualquer outro segmento.

Além de ser o marco zero da cidade, a Porta do Sol é o ponto de reunião por excelência. Encruzilhada de dez ruas, sediou um célebre mentidero, no Século XVII, onde se discutia política, falava-se mal de todo mundo e se fazia circular as notícias. Foi aqui que se deu o mais renhido combate dos madrilenhos contra as tropas de Napoleão, em 1808 — estopim da Guerra de Independência. Aqui também foi anunciada a República, em 1931.

A esquina das calles de Alcalá e de La Montera era conhecida como La Acera Roja (“a calçada vermelha”), ponto de encontro de socialistas e comunistas, antes da repressão franquista — que, aliás, tinha sua sede principal bem aqui, no Edifício dos Correios, transformado em Direccion General de Seguridad del Estado. Durante a Guerra Civil, a Porta do Sol sofreu pesados bombardeios, um deles na virada do ano de 1936/37.

Sessenta anos depois, a virada 2006 para 2007 não promete nada muito dramático, mas a polícia montou uma espécie de barricada em torno da praça, revistando quem chega para o Ano Novo — talvez reflexo do atentado no Aeroporto de Barajas, há menos de uma semana. O clima, porém, é de festa: sem tumulto, sem sobressaltos — até sem muito barulho. Alguns cantam, todo mundo conversa com todo mundo, uns mais animados querem abraçar a humanidade.

Dividi meu “camarote”, uma soleira no finzinho da Calle de Alcalá, com uma família equatoriana — os equatorianos são responsáveis por um dos maiores fluxos de imigração da Espanha, atualmente. Gente simples, camponeses que atravessaram o Atlântico há cerca de três anos, vieram ver a festa e trouxeram um farnel respeitável: sanduíches, frango, biscoitos, que fazem questão de oferecer. À meia noite, retribuí dividindo minha garrafa de cava catalã, desde já meu espumante preferido.

Não tem música, nem palcos, nem fogos. Canhões de luz, 12 badaladas e 12 uvas: a grande graça da Porta do Sol é simplesmente estar todo mundo ali. E foi assim, no meio de desconhecidos, ao som de um relógio, que eu passei um dos melhores Revellions da minha vida.

Restaurante La Barraca- Calle de la Reina 29. Muito bem recomendado, superou as expectativas. O Menu Nochevieja (ceia de réveillon) era uma sucessão de pequenas delicadezas — entre elas o foie gras e um peixe delicioso. Como as bebidas eram contadas por mesa, fui "obrigada" a tomar uma garrafa de vinho branco, meia garrafa de vinho de sobremesa e uma garrafa de espumante. Não preciso nem dizer como caminhei as duas quadras até a Puerta del Sol, para a contagem regressiva o Ano Novo... Preço da farra: 90 Euros

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