terça-feira, 4 de abril de 2006

Rouen: a terra do Coração de Leão

A arquitetura característica de Rouen, com o quebra cabeças das traves de madeira das fachadas em enxaimel. À direita, a Tour Jeanne D'Arc, onde a heroína francesa teria ficado encarcerada antes de ser executada
Joana D’Arc que me desculpe, mas visitei Rouen, a bela capital da Normandia, em busca das memórias de um “herói estrangeiro”. A imagem da cidade é profundamente ligada às lembranças da adolescente que, no Século 15, desafiou reis e a cúpula da igreja para liderar um exército de resistência à invasão inglesa. Mas Rouen também era a cidade mais querida de Ricardo Coração de Leão que tanto me fascina.

Independentemente do personagem que você venha buscar, porém, Rouen tem encanto para todas as expectativas: a beleza da sua arquitetura típica, com o quebra cabeça das fachadas em enxaimel, a curva do Rio Sena que abriga uma ilha em forma de navio (no mapa, dá para confundir com Paris e a sua Île de La Cité), sua magnífica Catedral de Notre Dame, quase tão espetacular quanto a parisiense e “musa inspiradora” de diversas telas de Monet...

O charme do eixaimel
E tem, claro, a copiosa, suculenta e sedutora cozinha local. Pense nos queijos (neufchatêl e camembert, para citar dois), creme e manteiga, cortesia das vaquinhas que pastam nos campos normandos, nas maçãs cheirosas que podem virar sidra e o delicioso calvados. E tem os patos, cordeiros, vieiras... Convenci você?

A Square Verdrel, jardim típico do Século 19
Meu principal objetivo em Rouen era visitar o Chateau Gaillard, castelo construído por Ricardo Coração de Leão — que além de rei da Inglaterra era Duque da Normandia — para proteger seus domínios de investidas do rei da França. A fortaleza fica em Les Andelys, às margens do Rio Sena, a cerca de 45 km do centro da cidade.

Só que essa minha temporada francesa, três deliciosas semanas, coincidiram com o pico das manifestações contra a chamada “Lei do Primeiro Emprego”, uma tentativa de reduzir direitos trabalhistas. A cada dois ou três dias, convocações de greve geral paralisavam os transportes e havia grandes passeatas por toda parte. Les Andelys, tão pertinho, acabou virando um sonho distante pra mim (continua na minha lista).

O Gros Horloge ("grande relógio") estava em restauração, mas os detalhes não cobertos pelos tapumes (à direita) dão uma ideia dos motivos da fama desse monumento, um relógio astronômico inaugurado no Século 14
Rouen, porém, compensou minha frustração com folgas. Assim como Paris, ela também cresceu às margens do Sena. A antiga Rotomagus,  fundada pelo imperador romano Augusto no Século I — velha  conhecida das leituras de Asterix — acabaria alcançando a condição de poderosa capital dos vikings, que começaram a chegar ao hoje território francês no Século 9 (o gentílico “normando” deriva de norsemen, "homens do Norte").

O Museu de Belas Artes de Rouen, por exemplo, ganhou meu coração rapidinho. Ele pode não ser um Louvre, mas tem um acervo respeitável, que inclui Perugino, Velazquez, Rubens, van Dyck, Delacroix... O filho adotivo da Normandia, Claude Monet, é uma das estrelas da coleção com várias telas da série sobre a Catedral de Rouen. Degas, Sisley, Renoir e Pissarro são outros destaques no time dos impressionistas. 

A Praça Velha do Mercado
O museu fica em frente à Square Verdrel, jardim típico do Século 19, bom lugar para uma pausa no jogo de "caçar fachadas lindas" pela cidade. O lugar foi batizado em homenagem ao prefeito Charles Verdrel, que entre 1858 e 1868 promoveu uma revolução urbanística na cidade, inspirada no Barão Haussmann, que remodelou Paris—e pôs abaixo boa parte de seu patrimônio medieval para abrir os famosos bulevares.

Rouen foi a cidade mais querida de Ricardo Coração de Leão, que passou muito mais tempo na Normandia do que na Inglaterra — dizem que ele sequer falava inglês. Quatro séculos depois de Ricardo, Joana D'Arc, a heroína maior da França, seria queimada na Praça Velha do Mercado da cidade por ordem da Inquisição exatamente por enfrentar as tropas de outro rei inglês.

A arquitetura meio duvidosa da Igreja de Joana D'Arc, na Praça do Mercado, e uma fachada na Rue du Gros Horloge: a memória da heroína da França está por toda parte
Capturada em Compiègne, em 1430, Joana foi trazida para a cidade, então sob domínio inglês, onde ficou prisioneira no Castelo de Rouen — tudo que resta dessa fortaleza hoje é a torre onde ela teria vivido por cerca de uma ano e que hoje leva seu nome—até ser queimada na fogueira, aos 19 anos de idade.


A cerca de 800 metros da torre, praça onde ela foi martirizada ainda preserva lindas fachadas em einxaimel, que ganharam a companhia de uma pavorosa igreja moderna, homenagem à heroína canonizada. A heresia arquitetônica convive com bares, restaurantes e lojinhas charmosas instalados no casario histórico.

Detalhes da fachada de Notre Dame de Rouen
Mas Rouen também tem igrejas bonitas. A mais espetacular é a Catedral de Notre Dame (3 Rue Saint-Romain, Centro), do Século 13, que Monet retratou em uma longa e célebre série de telas. 

A catedral abriga uma espécie de “tumba alternativa” de Ricardo Coração de Leão — embora o corpo do rei tenha sido sepultado na Abadia de Fontevraud, a 260 quilômetros de Rouen, seu coração repousa em um túmulo em uma lateral da nave principal do templo, como demonstração póstuma de seu apego à Normandia.

Ricardo na Catedral:o coração do Leão está sepultado aqui
O interior da Catedral
Uma visita que você não pode perder é ao Claustro de Saint Ouen, cuja construção foi iniciada no Século 14, mas só concluída após a Guerra dos Cem Anos, o conflito que celebrizou Joana D'Arc.

Também recomendo fortemente a visita ao Aître Saint Maclou (188, Rue Martainville), um cemitério do Século 16. O antigo pátio, onde ficavam as tumbas, e os edifícios em enxaimel que serviram de ossuários, hoje abrigam a Escola de Arquitetura e de Artes. Caveirinhas e ossinhos ainda adornam portas e janelas. Apesar da história meio mórbida, o lugar é muito bonito.

Aître Saint Maclou

Dicas práticas
(Atualizado em outubro de 2016) Rouen está a 140 km de Paris, distância que permite até mesmo um bate e volta. O Ouibus, que parte de La Defénse, em Paris, faz o trajeto em 1h35min e cobra € 7 por cada trecho. Os trens para a Normandia saem da Gare Saint-Lazare, na capital, e a viagem dura cerca de 1h20min. Os bilhetes custam a partir de € 22.

Onde ficar
Best Western Hotel de Dieppe 
Place Bernard Tissot, em frente à Gare de Rouen (a estação ferroviária), diárias a € 85. 

Esse Best Western Funciona em um edifício antigo e tem um ar bem classudo. O apartamento é elegante e umas seis vezes maior que a “cela” onde eu estava, em Paris. Amei a banheira gigantesca (quase olímpica) que faria a alegria de Esther Williams. Em outubro de 2016, encontrei diárias a € 71 neste hotel.
O quarto no Best Western e o Restaurante le Quatre Saisons. Abaixo, o Hotel Andersen



Hotel Andersen
 
Rue Pouchet nº 4, Fone 02-35-71-8851- Fica a uns 300 metros da Gare de Rouen (a Estação Ferroviária). Diária no single € 50.

O Best Western só tinha vaga para uma noite. Sem trem para voltar a Paris, por conta da greve, precisei encontrar outro lugar para ficar e escritório de turismo local me recomendou esse hotelzinho fofo, com cara de casa da gente, cortininhas de renda, detalhes delicados e atendimento caloroso. O quarto pequeno, cheirava a lavanda e era super aconchegante. Gostei muito.

Onde comer

A estação de trens de Rouen
É impossível pensar em Rouen sem pensar nos seus primeiros senhores, os vikings, ou norsemen. Em pouco tempo, haviam construído um ducado mais poderoso que o Reino dos Francos. Pois a minha despedida de Rouen foi digna dos antigos conquistadores, um banquete normando que vou demorar para esquecer.

Restaurant Le Quatre Saisons 
Place Bernard Tissot, em frente à Gare de Rouen, no Best Western Hôtel de Dieppe.

Jantei no Restaurant Le Quatre Saisons, considerado um dos melhores da cidade. Comecei com foie gras de canard (pato), suspirei com o cordeiro e encerrei com um crepe de frutas vermelhas flambado no Calvados. Tudo maravilhoso. O restaurante é aconchegante, com decoração clássica e ótimo serviço — posso dizer que fui paparicada como há muito tempo não acontecia.

Os normandos gostam de se achar mais rústicos que os parisienses, o que resulta em porções pantagruélicas no prato. Encarnei a viking que existe em mim sem nenhum constrangimento. Só não repeti a sobremesa para deixar espaço para os muitos cálices de Calvados com chocolatinhos amargos que pareciam ter nascido uns para os outros. Com vinho, o jantar custou 80 Euros.

Por falar em Calvados, vamos louvar um pouquinho esse brandy destilado de maçã, típico da Normandia. Fiquei fã de carteirinha (parece conhaque, mas tem um charme que é só dele).


Todos os posts sobre comida em bebida estão no 
Índice Comes&Bebes


A França na Fragata Surprise

Curtiu este post? Deixe seu comentário na caixinha abaixo. Sua participação ajuda a melhorar e a dar vida ao blog. Se tiver alguma dúvida, eu respondo rapidinho. Por favor, não poste propaganda ou links, pois esse tipo de publicação vai direto para a caixa de spam.
Navegue com a Fragata Surprise 
Twitter     Instagram    Facebook    Google+

Nenhum comentário:

Postar um comentário