sábado, 9 de julho de 2005

Viena:
Meu momento Zé Colmeia

Esse amarelo-habsburgo deixa Viena luminosa, 
mesmo em dias nublados...
(Detalhe da Bernhardskapelle)
Música deste post: I'm free, Rolling Stones

Na plataforma da Keleti Palyaudvar, a principal estação ferroviária de Budapeste, eu calculava a melhor maneira de chegar a Cracóvia sem ter que esperar o trem noturno, que sairia daí a 12 horas. Conferia os letreiros de chegadas e partidas da estação (praticamente a única coisa que eu consegui ler nos meus cinco dias na Hungria) quando ouvi um apito às minhas costas. Era o trem para Viena, prontinho para partir.

A vantagem de ter um Eurail-Pass é poder improvisar: joguei a mochila no trem e consegui subir a escadinha, frações de segundo antes da partida.
Piquenique no Quarteirão dos Musues,
uma das muitas alegrias de Viena
Fonte barroca em Michaelerplatz. À direira, o campanário da Lutheran Stadtkirche, igreja luterana do Século 18
Viena é uma overdose de museus espetaculares e sem muvuca. É uma hipnose arquitetônica, com todas aquelas maravilhas Jugendstil, que deixam minha alma saltitante. Mas tenho que confessar: Cracóvia dançou por causa da minha porção Zé Colmeia.

Explico. Sabe quando o cheiro das cestas de piquenique chega ao nariz de Zé Colmeia e o faz sair flutuando até o "alvo"? Pois é. O apito do trem desencadeou um desejo incontrolável de comer Wiener Schnitzel, aquele bifinho de porco fininho, passado na farinha de rosca, frito, dourado... (Se eu tivesse escrito "à milanesa", teria economizado palavras, mas os vienenses talvez não gostassem muito).

Karl Marx Hof, conjunto habitacional dos Ano 20, 
do tempo de "Viena, a Vermelha"
Tá certo, por mais que a calha do Danúbio seja danada para produzir vento encanado, é claro que eu não senti o cheiro, digamos, "material" do Wiener Schnitzel. Nem mudei o roteiro por causa de um bife (imagine! E a saladinha de batata com molho de mostarda que acompanha o prato, onde fica nesta história???).

Era a melancolia de Budapeste que estava me empurrando para ambientes mais solares. O apito do trem só me acordou para isso — o estômago antes do coração, diga-se — e achei que era hora de retomar meu caso com Viena, que é de amor à primeira vista.

O "repolho dourado" no Edifício Secessão:
 "Para cada época, sua arte. Para a arte, sua liberdade"
E olha que nossa relação começou de um jeito pouco promissor. Foi em abril de 2003, na estação do metrô de Karlsplatz. Fiquei uns cinco minutos entalada na catraca de um toalete, por onde inventei de passar com a mochila nas costas. Para piorar, não era apenas um prosaico banheiro de metrô. Era um dos “sanitários temáticos” da cidade: este imitava um cenário de baile de gala e tocava valsas de Strauss no maior volume, e eu lá, entalada...

As famosas estações de transporte público em Jugendstil de Karlplatz, onde também está a Karlskirche (Igreja de São Carlos), do Século 18, considerado um dos mais importantes edifícios barrocos da cidade
Fora esse mico, sempre senti uma felicidade enorme de estar em Viena. Adoro os jardins públicos impecáveis, a arquitetura exuberante e as telas maravilhosas expostas no Kunsthistoriches Museum e no Belvedere, as gravuras do Albertina... Amo ficar horas namorando cada detalhe do edifício do Secession (o nome vem do movimento artístico fundado por Gustav Klimt, no final do Século 19, que pregava uma ruptura — a secessão — com a arte acadêmica) e depois arrematar o deleite com uma visita ao Friso Beethoven, de Klimt, exposto ali.

As formas e elementos decorativos do Secessão, projetado por Joseph Maria Olbrich, parecem arrojados e provocativos ainda hoje, imaginem quando foi inaugurado, em 1897. É considerado uma das obras mais significativas da art-nouveau (que, vocês já sabem, me mata de paixão), estilo que na Áustria e outras regiões do então Império Austro-Húngaro é chamado de Jugendstil. O detalhe mais famoso do edifício é sua falsa cúpula, uma delicada filigrana reproduzindo folhagens (tão caras à art-nouveau) que os vienenses apelidaram de "Repolho Dourado". Sob o "repolho", na entrada do prédio, o lema dos secessionistas: "Para cada época, sua arte. Para a arte, sua liberdade".

Detalhes do Edifício Secessão: 
e lá dentro ainda tem o Friso Beethoven...
Gosto especialmente da cortesia dos vienenses — acho que os austríacos são meio que os baianos da Europa: puxam conversa no ponto do bonde, no balcão da padaria... Certa vez, duas senhoras me pegaram pela mão e me levaram por três quadras até o endereço que eu estava procurando, do mesmo jeitinho que acontecia na Salvador de antigamente.

Mas, voltando à vaca fria — na verdade, ao porco quentinho e crocante...— depois de duas horas e meia de viagem e de uma rápida passagem na pousada, para despachar a mochila, lá estava eu numa mesa do tradicionalíssimo Figlmüller, diante de um inacreditável Wiener Schnitzel que transbordava do prato, acompanhado pela já citada, mas não suficientemente louvada, salada de batatas.

Às vezes, basta só um bife para celebrar a felicidade de estar de férias, ser dona do nariz e poder ir aonde quiser.


Fachadas vienenses: tem como não ser louca por esta cidade?

Em estilo art-nouveau, o Urania foi inaugurado em 1910 como centro de estudos astronômicos. Hoje é um centro cultural com planetário, cinema e outras atividades
Dicas Práticas
Figlmüller- Wollzeile 5, a pouco mais de uma quadra de Stephansdom, a Catedral de Viena. Tem outro endereço bem pertinho, na Bäckerstraße 6. Funciona desde 1905 e vive lotado, não só de turistas,  mas também de vienenses. O atendimento é simpático e diligente e o Schnitzel é de rasgar a roupa. Com a salada de batata (se você precisar vir a pé a Viena para prová-la, venha, pois vale a viagem), a refeição custa 18 €.

O Wiener Schnitzel original era feito com vitela, mas é cada vez mais comum prepararem o prato com carne de porco. Pessoalmente, acho vitela uma carne meio "cruel", pois os bezerros são submetidos a um tratamento de quase tortura, antes do abate.

Stephansdom, ou Catedral de Santo Estêvão

Onde ficar
Pension Fünfhaus- Sperrgasse 12. Taí um senhor achado (recomendação que recebi no escritório oficial de turismo de Viena de Westbanhoff). Fica a uma quadra e meia de Mariahilfestraße. Há um bonde que para quase na porta, mas a caminhada até a estação de metrô e trens de Westbanhof é de apenas cinco minutos. O bed&breakfast é administrado por uma família extremamente simpática, que mantém tudo impecavelmente limpo, arejado e bem cuidado. Fiquei num apartamento single ensolarado e enorme, com janelas para um agradável pátio interno. Não tem elevador. Na época, paguei 40 € pelo quarto com banheiro privativo. A vizinhança da pousada tem muitas famílias muçulmanas e alguns restaurantes turcos que servem comidinhas baratas e deliciosas.

Recomendo ainda o Hotel Haydn (Mariahilfer Straße 57), que também me foi indicado pelo escritório de turismo. Coladinho na estação de Metrô de Neubaugasse, tem 21 apartamentos, alguns com cozinha. Na época que fiquei lá (2003), paguei 50 Euros por um single gigantesco, com um ótimo café da manhã incluído na diária. Hoje, as diárias estão na faixa do 85 Euros, para ocupação dupla ou single. O atendimento é super simpático e a localização é excelente: Mariahilfer é a rua de comércio mais conhecida de Viena, super bem servida de transporte público, restaurantes bons e baratos e a dez minutinhos de praticamente todas as atrações da cidade.

Detalhe de uma ala menos aristocrática
 do Palácio de Schönbrunn,
acomodação destinada aos criados da realeza
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2 comentários:

  1. Adoreiiiii o texto!! Muito boa a história do banheiro. Morri de rir. kkkkk!

    Beijo

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    Respostas
    1. Cris, depois que passou, eu também morri de rir. Viena tem dessas coisas. Adoro essa cidade :)

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