sexta-feira, 29 de julho de 2005

Caminho de Santiago: a chegada


A Catedral de Santiago de Compostela, ponto final da jornada
Caminho de Santiago - percurso de hoje, de Padrón a Santiago de Compostela, 21 km

Última etapa da minha caminhada a Santiago de Compostela e meu coração estava aos pulos. Faltavam apenas 21 quilômetros para, finalmente, ver as famosas torres da catedral medieval e completar a “tarefa”. 

Saímos de Padrón por volta das 7h. O trajeto plano e sem grandes desafios torna a caminhada prazerosa e quase dá para esquecer o cansaço. Cerca de 5 km depois da cidade, à beira da Rodovia N-550, fica a bela Igrexa de Nosa Señora da Escravitude (Igreja de Nossa Senhora da Escravidão), do Século 18. Bom lugar para uma pausa, até porque, daqui em diante, começa a sucessão de subidas e descidas que leva a Santiago. São 16 km enfrentando ladeiras respeitáveis.

Uma casa galega com sua parreira servindo de caramanchão no povoado de Faramello, pertinho de Santiago 
Devidamente paramentada para enfrentar a onipresente chuva galega, na parada para admirar a Igreja de Nossa Senhora da Escravidão
Ao final de uma dessas subidas (muito íngreme), perto da vila de Milladouro, há um pequeno bosque com uma fonte, outra parada providencial para recuperar as forças. Nada como sombra e água fresca para ressuscitar esta peregrina. 

Logo adiante do bosque, numa curva do caminho, avistei pela primeira vez as torres da Catedral de Santiago de Compostela. Quem diria que eu ia chegar até aqui...— houve momentos, especialmente nos trechos de rodovia, sem grandes atrativos, em que considerei sinceramente a possibilidade de pegar um ônibus e abreviar o sofrimento. 

Mas o Caminho é realmente muito bonito, especialmente quando atravessa os bosques de pinheiros com o chão forrado de samambaias, ou os vinhedos... E tem as belas vistas do alto das montanhas, as pequenas aldeias perdidas no mapa. Acho que fiz bem em vir, afinal.

As torres da Catedral de Santigo, com destaque para a imagem do apóstolo (à direita)
A emoção de ver as torres da Catedral pela primeira vez é grande, mas é importante saber que o caminho ainda não acabou. Faltam ainda uma descida íngreme e a última subida, já no perímetro urbano de Santiago. A alegria de estar chegando só não foi maior por contra do trânsito e da azáfama de dia normal da cidade. 

Essa subida é um ladeirão que não tem tamanho e leva ao Centro Histórico, que ocupa o topo da montanha onde Santiago foi fundada. Hoje, a cidade desce até o vale, para acomodar seus quase 100 mil habitantes — mesmo com tantos peregrinos indo e vindo, não deixei de me sentir esquisita, com minha mochila e meu cajado em pleno cenário urbano 😊.

Grupo de cavaleiros completando o Caminho de Santiago
A Praça do Obradoiro vista do adro da Catedral. Ao fundo, o Paço do Raxoi
Cheguei à Praça do Obradoiro, onde está a Catedral, por volta das 16h30. Não foi difícil encontrar Dulce, descansando à sombra, numa das arcadas do Paço de Raxoi, sede da Junta da Galiza (o governo da Galícia). Depois de uma "desabadinha básica", lá fui eu receber minha Carta Compostelana, o "certificado de conclusão" do Caminho de Santiago e que deve me absolver de alguns pecados, segundo o rito católico de concessão de indulgências.

Será que eu estava cansada?
A missa na Catedral e um intrigante olho que observa os visitantes, no teto da igreja
Para conseguir a Compostelana, é preciso apresentar a credencial de peregrina com os carimbos coletados ao longo do Caminho, comprovando que você fez a caminhada por pelo menos 100 quilômetros — a mesma distância vale para quem faz o percurso de bicicleta. Quem vem a cavalo deve completar pelo menos 200 quilômetros.


Na Oficina dos Peregrinos da Diocese de Santiago havia uma fila enorme de recém-chegados, todos querendo seu certificado. Enquanto esperava ser atendida, notei a grande cesta onde os peregrinos depositam seus cajados: uma doação para os próximos peregrinos. Deixei o meu cajado também, mas sem as conchas de vieira. Essas, eu trouxe comigo e agora estão penduradas na parede da casa de minha mãe — ela queria a compostelana, também, mas esta eu guardo com muito carinho.

Detalhe da fachada da Catedral
A beleza de Santiago
Um voluntário me entregou um formulário, com perguntas simples: nome, procedência, essas coisas. No quesito “razões da peregrinação”, eu poderia marcar um X em “espirituais”, “não espirituais” ou em “ambas”. Marquei “não espirituais”. 

Quando chegou a minha vez, a moça que me atendeu não gostou da resposta: “Você tem que ter tido alguma inspiração espiritual”, insistiu. Expliquei a ela que sou ateia e movida por curiosidade histórica e cultural. “Será que serve alegar 'razões antropológicas'?”. Ela deu um suspiro resignado, assinou a Compostelana e não perdeu a viagem: “Deus lhe abençoe”.


Depois, fomos comemorar a façanha com um belo jantar no restaurante do hotel, arrematado com Torta Galega, típica da região e da época de celebração do apóstolo. Feita com amêndoas, ovos e açúcar, a torta leva a cruz de Santiago como decoração: polvilha-se açúcar sobre um molde da cruz e voilá...
A Espanha na Fragata Surprise
Madri
Andaluzia: CádisCórdobaGranadaRonda e Sevilha
Castela e La Mancha: Toledo
Catalunha: BarcelonaGirona Tarragona
Galícia: Santiago de CompostelaCaminho de Santiago e cidades da rota


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2 comentários:

  1. Amei seu blog. Vou fazer esta rota agora em junho. Vou levar seus comentários comigo.
    Obrigada.
    Cristina.

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  2. Que legal, Cristina, obrigada. Fico feliz que o relato vai ser útil. Aproveite muito o Caminho. Como se diz por lá, Boa Viaxe!

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