quarta-feira, 27 de julho de 2005

Caminho de Santiago: os companheiros de viagem

Ponte sobre o Rio Bermaña, Caldas de Reis
Caminho de Santiago - percurso de hoje: de Pontevedra a Caldas de Reis, 23 km

A distribuição dos Albergues de Peregrinos ao longo do Caminho de Santiago é, em geral, o que define o início e o fim de cada etapa de caminhada. Isso também acaba reunindo os caminhantes numa espécie de "grupo": nos encontrarmos nos alojamentos, todas as tardes, compartilhamos o refeitório e nos despedimos pela manhã, para seguir, cada um no próprio ritmo, até o reencontro no albergue seguinte.

Tanto é assim que, a partir de Pontevedra, já tínhamos uma espécie de “turma”: além de mim e de Dulce, minha companheira de viagem, há o casal de Madri, em sua quarta peregrinação, as três gerações de uma numerosa família portuguesa — os mais velhos passando bem dos 60, os mais novos mal chegados à adolescência e uma jovem grávida — um animadíssimo grupo de oito estudantes da Universidade do Porto, Zé, o missionário franciscano com partida marcada para Timor Leste, e seu amigo, o cinquentão lisboeta João António.

As duas caminhantes (eu e Dulce Ferrero) e a paisagem da Galícia
A convivência se faz de pequenas solidariedades peregrinas — curativos nas bolhas dos pés, a partilha de queijos, chorizos e jamóns comprados no caminho, dicas dos mais experientes para os novatos — que aos poucos deixam espaço para uma interação mais prosaica: amenidades em torno de uma jarra de vinho ou uma discussão sobre futebol na fila para usar a máquina de lavar roupas.



A caminho de Caldas de Reis: o trajeto é muito agradável, atravessando vinhedos e bosques
Era natural, portanto, que estivéssemos todos reunidos no simpático restaurante à beira do Rio Umia, em Caldas de Reis, para um “festim à moda peregrina”, na noite de 27 de julho: cada grupo na sua mesa — do mesmo jeito que cada grupo andava no seu passo — e todos falando com todos.

O mais interessante é que Caldas de Reis não tem Albergue e ficamos distribuídos pelos vários hotéis da cidade. Em vez de nos dispersar, isso gerou o primeiro compromisso formal deste lote de caminhantes: “Às oito, no restaurante ao lado da ponte”, era a senha para o jantar, que começou a ser passada ainda em Pontevedra e era repetida cada vez que nos encontrávamos, nos diversos trechos de estrada.

Nosso jantar em Caldas de Reis: sardinhas, mexilhões ao molho e pimientos de Padrón
E foi assim que fui apresentada aos célebres pimientos de Padrón (pementos, em galego). Primos do chili mexicano e do nosso pimentão corriqueiro, esses pimentõezinhos verdes, mais ou menos do tamanho de um polegar, têm sua denominação de origem controlada levada a sério e são um dos orgulhos da Galícia. Para acompanhar Suas Excelências — e aqui vai um adjetivo junto com o pronome de tratamento —, belíssimas sardinhas, num molho avermelhado para o qual a páprica deve ter contribuído tanto quanto o tomate, e mexilhões.

Os pementos, fritos no azeite de oliva, são crocantes por fora e macios por dentro, irresistíveis — e olha que sou daquelas que acha pimentão verde uma das três ou quatro coisas mais indigestas da Terra. Junto com tudo isso, claro, o vinho da Galícia, o Ribeiro.

Eu e Dulce 
Já disse aqui que toda casa galega tem sua parreira, que se avaranda sobre as portas de entrada, suavizando o calor e a aspereza das fachadas de pedra. Dos frutos dessas parreiras se faz o Ribeiro, geralmente no quintal, para ser servido nas cuncas, mui generosas tigelas de louça branca — com um pezinho, para fingir que são taças.

Esse encontro, aqui à beira do rio, à margem de uma corredeira, não deixa de ter alguma semelhança com os banquetes de encerramento de cada aventura de Asterix, quando toda a irredutível aldeia gaulesa celebra junta mais uma façanha. Com licença dos cristãos, acho que tinha mais de um druida entre as árvores, abençoando esta antepenúltima noite no Caminho.


Onde dormir em Caldas de Reis
O albergue de peregrinos da cidade estava fechado. Ficamos no Hotel O Cruceiro (Rúa Juan Fuentes nº 44). Depois do ataque de asma no Albergue de Pontevedra, eu já estava predisposta a gostar do hotel. As acomodações são confortáveis — amei tomar um longo banho de banheira e desabar dum colchão de molas — e o preço (50 Euros o apartamento duplo, em julho de 2005) bastante razoável.


A Espanha na Fragata Surprise
Madri
Andaluzia: CádisCórdobaGranadaRonda e Sevilha
Castela e La Mancha: Toledo
Catalunha: BarcelonaGirona Tarragona
Galícia: Santiago de CompostelaCaminho de Santiago e cidades da rota


A Europa na Fragata Surprise

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3 comentários:

  1. Olá Cynthia, estou adorando seu post sobre O Caminho de Santiago de Compostela, Em junho vou realizar o grande sonho da minha vida, fazer o Caminho Francês a partir de Saint Jean, além de tomar as providências práticas para a viagem adoro ler os variados depoimentos de quem já fez o caminho e quanto mais leio mas me encanto. Na verdade é minha primeira viagem internacional, ás vezes sinto um friozinho na barriga só de imaginar outras fico extremamente eufórica pela tão esperada aventura e audácia, pareço uma adolescente no alto dos meus 62 anos esta será minha primeira aventura solo, tenho fé que conseguirei cumprir todas as etapas, Muito obrigada pelas dicas principalmente das tão temidas bolhas nos pés. Beijão

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    1. Ana, fico feliz de saber que as dicas da Fragata estão sendo úteis para essa sua aventura. Que bacana a sua aventura. Tenho certeza que você vai amar a experiência. O frio na barriga passa e o que fica é a felicidade de ter realizado um sonho. Super boa viagem pra você e não esqueça de me contar como foi a jornada. Um abraço e curta muito o Caminho.

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    2. Muito obrigada pela força Cynthia. Quando voltar conto tudo sim.
      Um forte abraço.

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