sábado, 25 de junho de 2005

Lübeck, a cidade de Thomas Mann

Lübeck ao cair da tarde. As torres pontudas são da Catedral
Depois de uma semana maravilhosa em Berlim, só mesmo uma razão muito forte pra ir embora. E essa razão se chama Lübeck, a cidade que parece de conto de fadas, fundada no Século 12, onde nasceu Thomas Mann.

Fazia muito tempo que eu sonhava com uma visita. Há mais de 20 anos, comecei a estudar alemão no Goethe Institut (que, em Salvador, chama-se Instituto Cultural Brasil-Alemanha) — nosso velho ICBA, que alfabetizou muita gente em cinema e teatro e, nos anos da ditadura, acolheu as manifestações artísticas e culturais da cidade com muita generosidade. Foi na boa biblioteca da instituição que fui apresentada a Thomas Mann e a revistinha editada pelo Goethe, a Scala, encarregou-se de me mostrar como a terra do escritor era linda.
A Burgtor ("porta do burgo"),  
um dos acessos à cidade medieval

Mas nada prepara você para a primeira visão de Lübeck: torres cilíndricas de telhados cônicos, como nas ilustrações dos contos de fadas, as características fachadas "em degraus", os jardins com cara de bosque encantado em pleno centro urbano. Fui em busca da história dos irmãos Mann, mas quem me recebeu foi o universo dos Irmãos Grimm...

Cheguei com chuva e muito frio. A cidade fica bem ao Norte da Alemanha, quase Dinamarca, e verão por lá deve ser mais um estado de espírito do que um fato concreto. Na verdade, o frio já vinha me acompanhando desde Hamburgo, onde passei 90 minutos na Estação Ferroviária, esperando a conexão para Lübeck. Como cheguei sem reserva, fiquei muito feliz em ver que havia um hotel bem em frente à Estação, o que me poupou de vagar em busca de hospedagem debaixo do aguaceiro. Dei sorte: o Hotel Stadt Lübeck é bem simpatiquinho. Foi chegar, tomar um banho quente e sair para ver a cidade.

As ruas estreitas da Innerstadt e as charmosas fachadas características da cidade
A entrada triunfal para a Innerstadt, o centro histórico é a Holstentor, ou "porta de Holsten", um dos antigos acessos fortificados à cidade, quando ainda era cercada pela muralha medieval. Esse velho portão voltado para o Oeste está em obras de restauração,  cercado de andaimes, redes e proteções. Nem fotografei :(...

A Praça do Mercado e a antiga prefeitura
Na Breitstraße, uma das ruas principais do centro antigo, encontrei uma das instituições tradicionais de Lübeck, a Confeitaria Niederegger, que vem fabricando marzipans famosos desde 1806. A vitrine já é um atentado a qualquer cintura, exibindo guloseimas irresistíveis e uma cidade de contos-de-fadas (Lübeck, é claro!) feita de marzipan. Qualquer um se sente Joãozinho e Maria (Hänsel und Grettel, dos irmãos Grimm) olhando para aquelas casinhas e torres comestíveis.

Detalhe da Catedral de Lübeck, cercada por jardim
Por algum motivo estranho, fiquei relutante em ir direto para a Buddenbrookhaus, a casa-personagem em Mengstraße, onde Thomas Mann morou e que serviu de inspiração para a casa senhorial do famoso romance. Atualmente, ela abriga um museu dedicado à memória dos irmãos Mann (além de Thomas, o também escritor Heinrich). A casa, porém, é também uma evocação permanente de Tom, Tonie e Christian Buddenbrook (o genio do escritor os fez tão reais...).

Resolvi fazer uma "digressão", caminhando até a paz e o silêncio que moram sob as árvores centenárias dos jardins da Catedral, do Século 12, e se me dissessem que ela era feita de doces, eu não ia duvidar muito, não... De lá para An der Obertrave, a beira do Rio Trave, ao Sul da Holstentor, com suas casinhas lindas, muito silêncio e uma luz de fim de tarde perfeita.

Estátua no jardim da Catedral,
homenagem a Henrique, o Leão,
duque da Saxônia e da Bavária,
responsável pela fundação de Lübeck, no Século 12
A Innerstadt, fica numa num ilha do Rio Trave e pode e deve ser toda percorrida a pé: as subidas são gentis e cada fachada é uma pequena preciosidade. Nos dois dias que passei em Lübeck, deu para ver praticamente todos os cantinhos citados por Thomas Mann em Os Buddenbrook e descobrir outros encantos.

Detalhes das fachadas típicas de Lübeck. Paixão total...
Minha primeira providência foi começar a reler o romance, numa edição em espanhol que achei numa livraria local -- meu alemão se vira muito bem com os jornais, mas tropeça na boa literatura. Fui ver Marienkirche, frequentada tanto pela família Mann quanto pela família Buddenbrook e que fica bem em frente à casa deles, na Mengstraße. A igreja, concluída no Século XIV, também está em restauração, cheia de andaimes. É o edifício mais alto do Centro Histórico e suas torres, assim como as de St Jakobi e St Petri, são vistas à distância, como agulhas sobressaindo na harmonia das fachadas em degraus.

Heiligen-Geist Hospital
Adorei o Heiligen-Geist Hospital ("Hospital do Espírito Santo", em alemão), do Século 13, uma instituição ainda em funcionamento, criada na idade média para abrigar idosos que já não podiam trabalhar. A construção é impressionante e o grande salão cerimonial, decorado com afrescos, está aberto à visitação. Não deixe de entrar para ver algumas peças sacras medievais magníficas, que fazem parte do acervo da casa.


Detalhe do salão do Heiligen-Geist Hospital.
À direita, uma peça de oratório ex exposição
Outra para imperdível é na Burgtor, o portão Norte, que era a saída para Travenmünde, (literalmente "boca do Traven", a foz do rio, no Báltico),  local de veraneio dos Buddenbrook. Ela fica no final da Burgstraße, uma rua belíssima, com construções medievais muito bem preservadas, por onde é uma delícia passear. No sábado que passei em Lübeck, fui surpreendida por um desfile festivo, com moradores vestidos em trajes medievais e carros alegóricos reproduzindo as construções históricas da cidade.

Um desfile medieval, para reforçar ainda mais
 o clima de conto de fadas
Além de percorrer a pé praticamente toda a cidade, fiz um passeio de barco em torno da Innerstadt e por um trecho do rio cercado de muito verde, com casas de veraneio e muita gente pescando nas margens. Os barcos saem do cais principal da cidade e, da água, a cidade parece ficar ainda mais linda.

Outro jeito gostoso de ver a cidade: de barco
Na Budenbrookhaus, a sensação de ter entrado no livro é inevitável-- e provocada. A exposição dedicada à família Mann, porém, é ainda mais interessante. É impossível não se enternecer por Thomas Mann, um exilado permanente -- de sua classe social, de sua sexualidade, da Alemanha dominada pelo nazismo... Nos anos 50, já cidadão americano, foi perseguido pelo anti-comunismo macartista, enquanto vivia longe de sua Lübeck, então parte da Alemanha Oriental.

A visita à Schiffergesellschaft, sede da Guilda dos Capitães de Lübeck — cenário tão presente nos Buddenbrook — foi tão especial que ganhou um post só pra ela.

É muito legal caminhar pelas margens do Rio Trave

Informações e Endereços

Hotel Stadt Lübeck- Am Banhof 21. Em frente à Estação Ferroviária (como o endereço já diz), é pequeno, com astral caseiro e atendimento simpático. Meu quarto, com banheiro privativo, ficava no sótão, com traves de madeira aparentes e janelinha de água-furtada. A uma curta caminhada de Holstentor, porta para o Centro Histórico. Paguei € 49 pela diária, com café da manhã (o site anuncia o apartamento single por preços entre € 40 e € 54).

A tentadora vitrine da Niederegger:
casas feitas de doces, como nos contos de fadas :)
Niederegger- Breitstraße 89. No friozinho que encontrei em Lübeck (tudo bem que é verão, mas estamos quase na Dinamarca...), esta tradicional casa de Marzipans, fundada em 1806, foi um pedacinho de paraíso para me dar as boas vindas à cidade. O waffle de marzipan com cerejas cozidas no cointreau está entre as melhores sobremesas que já passaram pela minha vida.

Catedral de Lübeck (Lübecker Dom) - Mühlendamm 2-6, Centro Histórico. De abril ao final de setembro, pode ser visitada das 10h às 18h. Em outubro, fecha às 17h. De novembro a março, só até as 16 horas. Entrada gratuita.

Salão do Heiligen-Geist-Hospital
Heiligen-Geist-Hospital - Koberg nº 11, Centro Histórico. Visitação de terça a domingo, das 10h às 17h (verão) e das 10 às 16h (inverno). Entrada gratuita.

Buddenbrookhaus- Mengstraße 4, de terça a domingo, das 10h às 18h (no inverno, das 11h às 17h). Entrada: 7 Euros.
Eu sou suspeita, porque adoro Thomas Mann -- a viagem a Lübeck foi por causa dele -- mas poucas vezes fiquei tão tocada por um museu. A casa onde viveu o escritor, construída no Século XVIII, abriga duas exposições distintas. Uma é dedicada ao cotidiano e ao estilo de vida das famílias abastadas dos comerciantes da região (como os Buddenborok, do romance). A outra é dedicada à vida e à obra dos irmãos Thomas e Heirinch Mann, com muitos filmes, fotos e documentos.


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