segunda-feira, 27 de junho de 2005

A bela melancolia de Dresden

O Rio Elba e a Semperoper vistos do alto da torre do Castelo de Dresden
Não foi à toa que os viajantes dos séculos 18 e 19 elegeram Dresden como uma das mais belas cidades da Europa
Depois de cinco horas de trem, partindo de Lübeck, cá estou eu em Dresden, a antiga capital da Saxônia, que os viajantes dos séculos 18 e 19 consagraram como uma das mais belas da Europa. A primeira coisa que chama a atenção é a quantidade de guindastes e tapumes espalhados pela cidade. Parece que toda Dresden está em obras, 60 anos depois do fim da II Guerra Mundial e 15 anos depois da reunificação alemã.

A história é conhecida. Sem grandes objetivos estratégicos, a cidade foi reduzida a pó por um bombardeio aliado, na noite de 13 para 14 de fevereiro de 1945. Centenas de milhares de refugiados de toda a Alemanha haviam buscado abrigo em Dresden, iludidos que o rico acervo artístico e arquitetônico estaria a salvo de um ataque aéreo. Foram 9 toneladas de bombas e um total de mortos ainda em disputa, oscilando entre 35 mil e 125 mil, dependendo da fonte.

O Centro Histórico de Dresden
As marcas ainda são visíveis por toda a parte. A antiga Alemanha Oriental  preferiu deixar os monumentos em escombros — muitos desses edifícios escaparam de virar estacionamentos ou prédios "funcionais", graças à resistência dos moradores.

A reconstrução agora em curso só começou depois da queda do muro. É impossível caminhar por aqui sem ficar impregnada pela melancolia dos blocos de pedra ainda enegrecidos e esperando a remontagem de quebra-cabeças de milhares de peças. Dresden é linda, sem a menor dúvida. Mas tem uma nota triste que, aos poucos, vai ditando o ritmo.

Realismo socialista na fachada do Kulturpalast
Minha primeira visita em Dresden, porém, não foi às preciosidades barrocas, mas a um marco da antiga DDR, a Alemanha Oriental. O Kulturpalast é um complexo de salas de espetáculos e espaço para congressos, erguido no fim dos anos 60, numa área arrasada pelas bombas. Em estilo Bauhaus, o prédio nos dá as boas vindas com seu painel Der Weg der roten Fahne (a marcha da Bandeira Vermelha), em puro Realismo Socialista.

Sou fascinada por este estilo, que acho uma das caras do Século XX, uma espécie de "arte naïf engajada". Curiosamente, o modernismo do Kulturpalast não briga com as curvas e saliências do barroco, predominante na cidade. Pelo contrário, funciona como um contraponto interessante.

Dois ângulos da cúpula de Frauenkirche, ainda em obras
Vista da torre do Burghof (castelo de Dresden): 
guindastes por toda parte
Para aproveitar a tarde bonita, nada melhor que um passeio pelo o Brühlsche Terrasse, um balcão delicioso debruçado sobre o Elba, coberto de jardins, palácios (como o Albertinum, sede da Gemäldegalerie Neue Meister  pinacoteca com acervo que abarca artistas do Século 19 até os contemporâneos). É um ótimo lugar para andar a esmo ou escolher um banquinho sob as árvores para ler até esquecer da vida. É tão agradável que a gente esquece que isso aqui já foi um bastião militar.

O Brühlsche Terrasse, para contemplar o Elba
O Terraço foi construído sobre a Dresdener Festung, uma fortaleza responsável pela defesa da cidade  — visitá-la, aliás, é um programão, passei horas caminhando pelos túneis e corredores.

Frauenkirche (Igreja de Nossa Senhora) ainda está cercada de andaimes, tapumes e um formigueiro de gente, que trabalha na sua restauração. A construção do Século XVIII foi destruída no bombardeio de fevereiro de 1945. Os moradores de Dresden recolheram e numeraram muitos dos fragmentos do templo, que quase virou um estacionamento. Os escombros ficaram no centro da cidade, como um memorial. Daqui a quatro meses (em outubro de 2005), vai ser reinaugurada.

Um jardim no Brühlsche Terrasse
Mas a minha grande descoberta, neste primeiro dia em Dresden, foi bem mais boêmia que a contemplação de belezas barrocas — mais precisamente da Boêmia. Dresden fica muito perto da fronteira com a República Tcheca e parece que importa certos hábitos etílicos dos vizinhos — famosos por produzirem algumas das melhores cervejas do mundo e por terem dado asilo político ao absinto, enquanto ele esteve banido em mais da metade do planeta. Pois além disso os tchecos também inventaram a Becherovka, uma espécie de "prima" do gin (prima da pá virada, diga-se).

A Semperoper, célebre casa de óperas, é um dos tesouros de Dresden
Não sei se era modinha de verão, só sei que os arredores de Altmarkt ("o velho mercado") e Königestrasse, áreas boêmias da cidade, estavam tomados por barraquinhas oferecendo a tal da Becherovka. A bebida é um destilado de ervas com um toque de anis e teor alcoólico bem assanhado. O resultado é que três copinhos da marvada me fizeram voltar para o hotel fazendo a maior força pra não cantar Oh, Querida Clementina, como fazia o Dom Pixote do desenho animado, toda vez que metia o pé na jaca.

Informações práticas
Fonte no Brühlsche Terrasse
Como chegar
Dresden fica 190 km ao Sul de Berlin e a 150 km de Praga. De ambas as capitais é bem tranquilo chegar à cidade de trem, em percursos de cerca de duas horas.

Escultura em homenagem ao Pintor Caspar David Friedrich (à esquerda) e detalhe da fachada do museu Albertinum
Escultura em homenagem ao Pintor Caspar David Friedrich (à esquerda) e detalhe da fachada do museu Albertinum
Onde ficar
Dresden Ibis Bastei
Prager Straße 5

Cheguei  a Dresden sem reserva de hotel, pois os escritórios de turismo das cidades alemãs me deixaram mal acostumada: eles mantêm postos nas estações de trem e fazem reservas na hora. Em Dresden, o escritório local me sugeriu esse hotel, a a poucos metros da estação de trens e a uma confortável distância das principais atrações do Centro Histórico.

O Dresden Bastei é um Ibis igualzinho a todos os outros do planeta, até na estampa da colcha da cama. A boa notícia é que você sabe exatamente o que esperar (Ibis, para mim, significa sem carpete, uma bênção para asmáticas e alérgicas como eu). A única surpresa foi uma boa surpresa: um ótimo café da manhã incluído na diária. Single por 70 Euros.

Kulturpalast
Schloßstraße 2, próximo ao Altmarkt. Apresenta shows de música popular, concertos, balés, teatro... A programação e a aquisição de ingressos antecipados você pode conferir no site da instituição.

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2 comentários:

  1. Minina! Arrasou. Amei Dresden, eu que não conhecia, nem me interessaria em conhecer - presencial ou virtualmente. Sua apresentação contextualizada e sensível também nos faz amar a cidade, sua história e seu patrimônio (só faltou uma imagem da Pietá de Press). Dez!

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    Respostas
    1. Obrigada, Suzana!! Eu fiquei mesmo profundamente tocada por Dresden, é impossível não sentir ternura pela cidade, tão linda e tão machucada pela guerra, e vê-la se reconstruindo aos poucos. A foto da Pietá de Press eu vou ficar devendo, pois naquela época eu era bem ortodoxa com essa coisa de fotografar templos religiosos. Achava super invasivo. Só recentemente é que fui relaxando, rsss
      Bjo

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