quarta-feira, 22 de junho de 2005

Berlim, meu amor

Rosa Luxemburgo num resto do muro,
em Potsdamer Platz: "E sou uma terrorista"
Antes de você começar a ler este post, aviso: sou totalmente parcial e descabeladamente apaixonada por Berlim. Desde a primeira vez que pisei na cidade, em 2003, tive a clara sensação de estar chegando em casa, assim que arriei a mochila na plataforma da Ostbanhoff (a estação de trem do lado Leste da cidade), após uma linda viagem de quase oito horas, desde Munique.

Nesta viagem de agora, reservei quase uma semana para estreitar esse caso de amor que é feito muito mais de atmosferas e intuições do que pelo apego a algum detalhe específico da cidade — uma “coisa de pele”, química que se processa e me deixa completamente feliz só de estar aqui. Mas, claro, este é um blog de viagens e não um caderno de anotações herméticas, então prometo que entre meus suspiros de paixão por Berlim você encontrará aqui algumas informações objetivas sobre a cidade. Bora passear comigo?
Boas meninas vão para o céu. Meninas más vão para Berlim. 
E viva as meninas más!
Chegando de trem ou de avião à cidade, minha primeira parada será sempre Alexanderplatz. Ostbanhoff fica ali do ladinho e o ônibus que vem do Aeroporto de Tegel também tem ponto final nessa praça. Pra mim, Alexanderplatz ainda é a cara mais explícita de Berlim, símbolo de um período criativo, boêmio e luminoso, encerrado pela ascensão do nazismo, em 1933, mas que marcou profundamente a cidade como polo inovador e transgressor. A praça sofreu profundas modificações durante os anos da DDR — ela ficou do lado Oriental, na divisão da cidade — e ganhou aquele visual de “futurismo retrô” que é onipresente na estética da finada Alemanha comunista e que eu acho uma delícia.

Pertinho da Alexanderplatz está a Rotes Rathaus (a “prefeitura vermelha”, não por causa dos comunistas, mas pelos tijolos de sua fachada meio gótica-clássica-fantasmagórica que não deixa de lembrar o Edifício Dakota, onde Lennon morava, em Nova York) e um pedacinho da cidade que ainda é um mistério pra mim: jamais consegui decifrar se amo ou odeio Nikolaiviertel, o Pelourinho local. Contra a área pesa sua declarada condição de cidade cenográfica — suas construções "medievais” foram erguidas a partir dos Anos 50, sobre terrenos completamente arrasados pelos bombardeios que reduziram a cidade a escombros, nos últimos momentos da Segunda Guerra.

A Brandenburger Tor (Porta de Brandemburgo) acabou virando símbolo da reunificação alemã
Mas Nikolaiviertel tem torres pontudas, campanários e fachadas que lembram a casa da bruxa de Joãozinho e Maria e, aos pouquinhos, vai entrando no coração da gente, apelando para memórias e carinhos antigos. O mais curioso é que nas minhas duas visitas a Berlim, calhou de ser lua cheia logo na primeira noite na cidade e não há quem resista àquele céu cortado pela silhueta da Igreja de São Nicolau (Nikolaikirche), que dá nome ao bairro, pacientemente reconstruída após o estrago das bombas aliadas.

Eu sou daquelas que sofre de Ostalgie — trocadilho com as palavras Ost (“Leste”) e nostalgie, para descrever a saudade da Alemanha Oriental. Gosto de ver os monstrengos arquitetônicos traçados durante o regime comunista. Um deles é o Palast der Republik (Palácio da República), na Marx-Engels-Platz, antiga sede do Parlamento da DDR, que em breve será demolido. É um prédio tão horroroso que, pra mim, virou cult (comigo, funciona com filmes também: Rambo 2- A Missão, é tão ruim que eu acho uma obra prima). Deliro com os edifícios da Karl Liebknecthtstrasse, rua que, pra mim, só perde para as memórias evocadas pela doce Unter den Linden, que já foi uma aristocrática alameda embelezada pela Brandemburger Tor.

Marx e Engels, com o monstrengo
do Palast der Republik ao fundo
Em Unter den Linden fica a Staatsoper, uma sala muito fofa, do Século 18, com dimensões aconchegantes e sem grandes espalhafatos decorativos e preços camaridíssimos. Fui assistir duas apresentações lá: o pianista Daniel Baremboim (argentino, diretor artístico da casa) tocando sonatas de Beethoven, e a ópera “Le Elisir D’Amore”, de Donizetti. Achei um barato a platéia berlinense, capaz de comparecer a um concerto até calçando chinelo com meia, mas que guarda a formalidade para o que realmente importa: um silêncio sepulcral depois que sobem as cortinas.

Gosto de me hospedar do Lado Leste de Berlim. Desta vez, fiquei em Lichtenberg, pertinho da estação de S-Bahn de Nöldnerplatz, uma área bem residencial, com edifícios antigos, daqueles que ainda têm pátio interno para a parada das carruagens e uma tremenda cara de cidade do interior.

Além da tranquilidade (acordo todo dia com o canto dos passarinhos que fazem farra nas árvores do pátio), gosto da sensação de rotina familiar que é tomar café da manhã no Cafe-Backerei Caramel (uma xícara de chocolate e uma fatia de cuca), cercada de moradores do bairro que leem o jornal, antes de pegar o S-Bahnn para o Centro, sempre com uma parada estratégica na estação de Janowitzbrücke para comprar uma caixinha das cerejas mais gostosas que já encontrei na vida. Elas estão à venda em um monte de barraquinhas, rubras, suculentas, doces e enooormes, quase do tamanho de uma ameixa, e casam perfeitamente com a absoluta sensação de felicidade que estar em Berlim me provoca.

Endereços e Informações

Berlim está em obras. Há tratores
 e guindastes por toda parte, como
esse, ao lado da Brandemburger Tor

Onde ficar

Pension zum Lichtenberger- Emanuelstraße 4, Lichtenberg. Essa foi a pechincha da viagem: diárias de € 25 para um quarto gigantesco, com uma adorável "varanda"-- na verdade, a larga e espaçosa plataforma da escada de incêndio--, debruçada sobre um pátio interno arborizado, banheiro privativo, TV e muito silêncio. O prédio é antigo, do Século XIX, pelo menos, e não tem elevador.

Meu apartamento ficava no 4º andar, mas e daí? Fica a duas quadras da estação de S-Bahnn de Nöldnerplatz. Eu gosto muito mais do lado Oriental de Berlin, portanto, curti muito ficar em Lichtenberg, numa vizinhança bem residencial. Há alertas sobre atividades de grupos neo-nazistas no bairro, mas não vi nada de suspeito (felizmente!).

Outro lugar bacana é o East-Side Gallery Hotel (Mühlenstrasse 6, em Friedrichshain, a três quadras da estação de S-Bahnn de Warschauerstraße), onde me hospedei em 2003. As diárias são de € 50 no single para quartos bem espaçoso, com banheiro privativo. No térreo, tem um bar com trilha sonora maneiríssima e um balcão onde, certa noite, tive a impressão de que todos os roqueiros meio velhos e bem malucos de Berlin estavam debruçados e eu tomei as sete doses de Metaxa (meu brandy grego preferido) mais baratas da minha vida. Fica bem em frente a um trecho preservado do muro, com grafites bem bacaninhas.

Onde comer
Zum Nußbaum - Am Nußbaum nº 3, Nikolaiviertel, nos fundos da Nikolaikirche . O restaurante afirma ter 500 anos de idade e é um dos melhores lugares para experimentar comida caseira alemã, por preços pra lá de baratos. O atendimento é simpático e informal (informalidade germânica, bem entendido) e as porções são pantagruélicas. Jantei muitíssimo bem no Zum Nußbaum por inacreditáveis € 12. Descobri porque a personagem de "Adeus Lenin" gosta tanto de pepinos Spreewald (não, os pepinos não eram desta marca, mas era no mesmo estilo). Meu Kassler (porco defumado) veio acompanhado de batatas, chucrute e deliciosos pepinos em conserva. De sobremesa, uma cuca de ameixa simplesmente inesquecível.

No verão berlinense, foi delicioso sentar ao ar livre, sob a lua cheia, ao lado da famosa nogueira que dá nome ao lugar, olhando a torre da velha Igreja de São Nicolau. A única coisa que perturbou minha refeição foi a derrota da Seleção Brasileira, por 1 X 0 para o México, pela Copa das Confederações, que estava acontecendo na Alemanha. Pior que o placar foi a explícita felicidade do garçom, ao me dar a notícia.

Bocca di Baco- Friedrichstraße 167. Descobri esse restaurante por acaso, saindo da Ópera, em Unter den Linden. Achei o lugar bonito e resolvi experimentar. O resultado foi que comi como uma princesa: carpaccio de polvo de entrada, pasta à carbonara e Crème Brûlée de limão, na sobremesa. Com vinho, limoncello e tudo a que eu tinha direito. A conta deu menos de € 40.

Para saber mais
Passeios bacanas em Berlim
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A Alemanha na Fragata Surprise
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