terça-feira, 3 de fevereiro de 2004

Port of Spain, o "atalho para as Índias"

Port of Spain, capital de Trinidad e Tobago: a cidade fica em uma baixada pantanosa, cercada de montanhas. É um  encontro da Índia com a África em pleno mar do Caribe 
Em janeiro de 2004, combinei uma viagem ao paradisíaco arquipélago de Los Roques, na Venezuela, com uma passagem por Port of Spain, capital de Trinidad e Tobago, no Caribe. Foi minha segunda visita à cidade, onde já havia aportado em 1990, em uma escala do navio grego Stella Solaris, que me levava de Salvador (BA) a Fort Lauderdale (Flórida).

Na primeira visita, curtinha, tinha ficado empolgada com a arquitetura colonial inglesa, a mistura afro-indiana do povo e as ruas tortuosas e cheias de pequenas lojinhas no Centro, que lembravam um souk. Catorze anos depois, com o nariz grudado na janelinha do avião da Aeropostal que nos trouxe de Caracas, estava curiosa para rever Port of Spain. A profusão de luzinhas lá em baixo já desmentiam minha primeira memória: a cidade é bem maior do que eu recordava.

O moderno Aeroporto Internacional de Piarco fica a 25 quilômetros da capital. São cerca de 40 minutos de táxi (US$ 50, a preço tabelado) até o Centro. O motorista Ravi, descendente de indianos, foi nos contando um pouco sobre a ilha, enquanto o carro serpenteava pela estrada. "A Índia está em toda parte, por aqui". A África também, somada a um pouquinho da China e da Europa.

As fotos deste post foram escaneadas das imagens em papel, por isso estão meio desbotadas :)


Minha amiga Marúsia Andrade,
eu (ao centro) e a simpática
vendedora de tapetes e batiques
com quem levamos
  hoooooras pechinchando
Um atalho para as Índias
Port of Spain cheira a especiarias. Andar pelas ruas da cidade é imaginar que você acabou de descobrir um atalho para as Índias. A cada dois passos, tropeça-se numa barraquinha ou portinha que vende o roti de Trinidad, que é o mesmo pãozinho indiano, só que frito e servido como um sanduíche, geralmente com frango e muito curry. A cidade tem mais bancas de roti do que Salvador tem tabuleiros de acarajé.

Ainda saudosa das arepas de Los Roques, adotei o costume local: roti no café da manhã, no almoço e no jantar. Embora o recheio e o molho variem de refeição para refeição, são sempre condimentadíssimos, crocantes por fora, macios por dentro... Uma tentação. Os tachos fritando rotis por toda parte e grande população negra de Port of Spain me lembravam o tempo todo de Salvador — com sotaque britânico e dirigindo na contramão.

Da porção chinesa de Trinidad, experimentei — e adorei — sorvete de feijão vermelho.

A Catedral da Santíssima Trindade, em Port of Spain
Um país muito barato
A moeda local é o Dólar de Trinidad&Tobago, que valia 1/6 do Dólar americano, ou 1/3 do Real. A comida, portanto, ficava sempre muito em conta: uma farra de roti custava em média $TT 12 (US$ 2). Uma refeição num restaurante de padrão médio custava no máximo o dobro. Lógico que eu fiz uma festa...

A bebida local, claro, é o rum. Na primeira vez em que estive em Trinidad, comprei duas garrafas do produto local. O rum dourado até que era bebível, mas o "prata" (incolor) acabou se revelando excelente antisséptico — as bactérias morriam todas de cirrose...


Os táxis coletivos
Imagine-se dentro de um carro de passeio comum, com mais sete passageiros, um deles confortavelmente instalado no seu colo. Não é a volta da praia num dia de farofa. É uma corrida de táxi em Port of Spain.

Aqui existem dois tipos de taxi. O "especial", que é padronizado, com luminoso na capota — dizem que alguns têm até taxímetro — cobra em torno de US$ 7 por uma corrida dentro de Port of Spain. E tem o "táxi normal": é um carro igualzinho a qualquer outro, que passa recolhendo passageiros nos "pontos" e você só reconhece pelo T, que é sempre a primeira letra da placa.
Os taxis comuns de Trinidad funcionam como lotação (e eles levam realmente a sério essa ideia de lotar o veículo). É meio estranho tentar fazer amizade com o cara que está com o cotovelo no seu olho, mas a gente se acostuma.

Os mais medrosos devem evitar o “encontro às escuras”. Numa noite, a caminho de Saint James, entraram três sujeitos muito mal encarados no nosso táxi. Minha amiga quase morreu do coração.

Mas os carros são geralmente bem conservados e rodar neles custa uma merreca: o valor fixo da corrida, dentro de Port of spain, é de $TT 2 (US$ 0,30). Para ir mais longe, é preciso negociar. Pagamos $TT 6 (US$ 1) pela corrida até a cidade vizinha de Saint James.

As steel bands e o Carnaval de Trinidad
Como em Salvador, os trinitinos também anunciam seu Carnaval como “o maior espetáculo da Terra”. Na verdade é um desfile de steel-bands, grupos que tocam tambores feitos de latões de óleo (steelpans) que fazem um som parecido com o de um gigantesco xilofone. Trinidad é a terra do Calypso, um daqueles muitos ritmos que meus ouvidos roqueiros arquivam no verbete genérico "lambada".

Em 1990, quando estive aqui pela primeira vez, comprei alguns discos de artistas locais. Um deles se apresentava como "The Bus Driver" e aparecia na capa do vinil com o uniforme da companhia de transportes. O disco fez um certo sucesso nas festas lá de casa.

Queen's Park Savannah
Minha segunda visita foi duas semanas antes do Carnaval — as datas são as mesmas que no Brasil — e os "ensaios" das steel-bands já estavam a mil por hora, especialmente nas noites animadíssimas de Saint James, subúrbio de Port of Spain que é a meca da farra por lá.

Outro point do Calypso é a área de Queen's Park Savannah, onde são realizados os desfiles de Carnaval em Port of Spain. É uma imensa área verde, ao norte do Centro, uma antiga plantation (fazenda) transformada num lindo parque público. Numa das avenidas que margeiam o parque estão The Magnificent Seven, belas mansões da virada do Século XIX para o Século XX em estilo colonial inglês.

Fort George, memória das Guerras Napoleônicas
Como eu não andava com muita inspiração para grandes noitadas, preferi visitar Saint James durante o dia, para ver Fort George. A principal atração da fortaleza britânica, construída na época das Guerras Napoleônicas, no início do Século XIX, é a vista espetacular para a cidade de Port of Spain, o mar do Caribe e a Venezuela, que está a apenas 11 quilômetros de distância (mais ou menos a distância entre Salvador e Itaparica).

Fort George fica no pico de uma montanha e cercado de uma área verde muito agradável. A construção, porém, é modesta, se comparada às espetaculares fortalezas coloniais espalhadas pelas Américas. Um rapaz que conhecemos durante a visita explicou que a função do forte era, principalmente, ser um posto de vigia fortificado do que propriamente uma estrutura de defesa. Faz sentido, porque, olhando lá de cima, a gente conclui que seria absolutamente impossível um navio inimigo se aproximar da cidade sem ser avistado do forte.

Onde me hospedei
A entrada do condomínio
Vizinho ao belo Queen's Park fica o Jardim Botânico de Port of Spain, onde a cidade começa a se encarapitar na montanha. Fiquei hospedada na Alicia’s House, uma pousada simpática bem próxima do Jardim Botânico, no bairro de Saint Anne's, área residencial em meio ao verde. O duro era subir o ladeirão, de volta para casa, mas a área é tão fresquinha e agradável que compensa. A mata era o “antídoto” perfeito para o calorão que faz na cidade.

Alicia's House-
7 Coblentz Gardens, St Ann's, Port of Spain. A pousada fica em uma casa grande, dentro de um condomínio, com jardins, muitas varandas, piscina e jacuzzi ao ar livre. Os quartos são enormes e confortáveis, embora sem luxo. Têm TV a cabo, banheiro amplo e armários. Diárias do apartamento duplo por US$ 65

Descobrindo o avesso do Caribe
Qual foi a maior bobeira que você já marcou numa viagem? A minha foi achar que o avião que nos levaria de Trinidad de volta à Venezuela sairia do Aeroporto de Piarco às 8 da noite. Chegamos com duas horas de antecedência e, tcharááán, o avião tinha decolado às 8 da manhã.

Nem posso reclamar: no bilhete estava escrito "departure time: 8:00". Não sei onde eu li um "PM" que me autorizaria a entender que o voo era às 20h. O fato é que não conferi o bilhete como deveria e dancei — a passagem tinha sido comprada por uma amiga que mora na Venezuela.

Pior: esse voo das 8h, da Aeropostal, é o único entre Port of Spain e Caracas. O jeito foi voar no dia seguinte.

Para passar a noite, nem dava pra pensar em voltar a Port of Sapin. A distância não compensaria. Teríamos que estar no aeroporto antes das 6h, para trocar o bilhete, pagar as multas e ainda torcer para ter lugar no voo.

Decidimos tomar um táxi e ir dormir num “hotel”, no bairro próximo a Piarco.

Foi assim que virei testemunha de uma realidade: paraísos caribenhos também têm seu lado Z. Fomos dormir num favelão: esgoto a céu aberto, montanhas de lixo pelas ruas e moradias precárias. Nosso “hotel” era uma construção mambembe, com uma escadaria “banguela” (é verdade: faltava um degrauzinho aqui, outro ali...) que levava ao terceiro andar onde funcionava a espelunca. Por US$ 25, o quarto duplo dava direito a mofo nas paredes, com duas cadeiras e as malas fazendo uma barricada na porta.

Felizmente, no dia seguinte deu tudo certo: pagamos US$ 20 de multa e voamos para Caracas.

Mais sobre Trinidad e Tobago
Um passeio a Maracas Bay

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