sexta-feira, 15 de fevereiro de 2002

O iluminado: a beleza dos Lagos Andinos

Casa de fazenda no Vale do Rio Peulla, Chile
14 e 15 de fevereiro de 2002- Imagine um hotel em estilo alpino, completamente isolado, no meio das montanhas. Frio de rachar, picos nevados e um silêncio celestial. Antes que Jack Nicholson invada este post munido de um machado, aviso que estamos no Sul do Chile, aos pés do majestoso Cerro Tronador, num lugarzinho com menos de 100 habitantes e que deveria estar perdido no mapa.

Peulla, porém, está muito bem achada. Plantada numa nesga de terra, entre os lagos Nahuel Huapi e Todos los Santos, é parada obrigatória para quem viaja de Bariloche, na Argentina, a Puerto Varas, em território chileno, na chamada Travessia dos Lagos Andinos.
Vale do rio Peulla, com Sua Majestade, o Tronador, ao fundo
E foi aqui que eu vim parar, num gelado final de tarde de verão patagônico, a única entre todos os passageiros do catamarã vindo de Bariloche que iria passar a noite no vale, antes de seguir viagem — às três da tarde, quando ouvi o apito do barco partindo para Petrohué (o único diário), cheguei a me preocupar com as 24 horas de absoluta solidão que teria pela frente.

Poucas horas depois, porém, eu já estava celebrando a decisão. Primeiro foi a caminhada na mata. Depois foi a fumegante banheira do meu apartamento, com vista para as montanhas. Por fim, a suave companhia de um cálice de Carlos I (como é agradável a realeza engarrafada!) na varanda envidraçada, com vista para o crepúsculo.

A caminho de Los Helechos, olha eu
na ponte meio Indiana Jones
Se fosse um filme, essa era a hora de Jack Nicholson entrar em cena, berrando "Here's Johnny!!". Mas o iluminado que surgiu na tela, dourado pelo sol poente, foi sua majestade, o Cerro Tronador, um vulcão que, mesmo inativo, adora rugir — como se precisasse do barulho para impor respeito sobre a paisagem.

Poucas coisas no mundo são tão bonitas quanto os Apus, os nevados andinos que os povos da cordilheira reconhecem como os espíritos de seus ancestrais. Contemplá-los no isolamento do Hotel Peulla é uma experiência inesquecível.

Mas o melhor ainda estava por vir. Na manhã seguinte, muito cedinho, lá estava eu, na sela de um cavalinho meio arisco, a caminho da Cascada Los Helechos (algo como “cachoeira das samambaias”). O Hotel Peulla oferece algumas excursões para os arredores e a que me pareceu mais atraente foi essa — sou uma amazona sofrível, mas adoro andar a cavalo. Acho que acertei em cheio, pois o passeio tinha uma certa “porção Indiana Jones”, bem do jeito que eu gosto: travessia do Rio Peulla enfrentando a correnteza, uma ponte de madeira, suportada por cabos de aço, e trechos de mata fechada para explorar.

A amazona é sofrível, mas a paisagem...
Olha eu aí, atravessando o Rio Peulla com meu cavalinho
Tudo isso permanentemente cercada de uma profusão de framboesas e amoras silvestres que quase me matam: caí de cabeça da sela, colhendo as frutinhas—deliciosas, aliás. 

Às três da tarde, na hora de pegar o catamarã, eu lamentei não ficar mais um pouco naquele hotel isolado.  E se Jack Nicholson aparecesse com o machado... Depois de vê-lo "voando" no teleférico de Passageiro, Profissão Repórter, eu não seria capaz de fugir de sua companhia, mesmo...

No dia seguinte, a travessia do Lago Esmeralda
 (Todos los Santos) de catamarã...
Peulla- Em 2002, o Hotel Peulla era praticamente a única coisa que existia no lugar, além do posto de fronteira e umas três ou quatro casinhas afastadas, na orla do Parque Nacional Vicente Peréz Rosales. Do ancoradouro no Lago Todos los Santos (Lago Esmeralda) partem os catamarãs para Petrohué, de onde seguem os ônibus para Puerto Varas. Chegar é complicado, por isso Peulla é visitada basicamente pelos viajantes que fazem a travessia dos lagos, uma viagem maravilhosa, mas que vou deixar para contar num próximo post.

O pernoite no Hotel Peulla costuma estar incluído no pacote da Travessia, mas as diárias num single estão custando US$ 108, atualmente.

..com a emoção de avistar o Vulcão Osorno,
 já perto da chegada a Petrohué
As fotos deste post foram escaneadas de cópias de papel meio maltratadas pelo tempo, sorry. As duas imagens em que apareço foram clicadas pelo garotinho que me serviu de guia a Los Helechos, o simpático Felipe, que tinha 14 anos, na época. O texto é do meu diário de viagem ao Chile e à Argentina, em fevereiro de 2002, mas as informações de hospedagem foram atualizadas em abril de 2011.

O Chile na Fragata Surprise

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4 comentários:

  1. hahaha que legal! estive aí em 2006! O hotel continuava sendo a única coisa por lá, mas tinha outro sendo construído. Eu não fiz a travessia completa, estava fazendo um tour só na parte chilena. Então vim de Puerto Varas e depois da noite em Peulla voltei pra lá.Não fu ia única a ficar rs mas achei que foram poucas pessoas mesmo, a maioria não dorme por lá, mas é gostoso pra relaxar.

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    1. Eu gostei muito do sossego, Fernanda. E a paisagem é maravilhosa. Bjs

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  2. Puxa que leitura gostosa! Como vc escreve bem! Congrats

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